"Fidel Castro era isto. As pessoas não podiam ignorar a ditadura, mas aquela figura era de uma grande simpatia"

O testemunho do ex-presidente da República Jorge Sampaio

Esteve com Fidel Castro várias vezes, duas delas em Portugal. Que recordações guarda dos encontros com o líder cubano?

Estive mais, mais vezes. Mas queria começar por manifestar obviamente sentidas condolências ao povo cubano e aos seus dirigentes. Fidel Castro foi sem dúvida uma figura muito marcante do século XX. O seu exato papel e legado ficará para a história e vamos ter de dar tempo ao tempo. É verdade que é um dos líderes mais carismáticos que conheci, suscitando ao mesmo tempo resistências ferozes e entusiásticas admirações. Tive ocasião de ver isso em vários países da América Latina, porque estive com ele em várias cimeiras Ibero-Americanas, que eram anuais e portanto... ele foi a muitas. Já não foi às últimas a que eu fui, mas, de qualquer maneira, seis ou sete de certeza. E depois, obviamente, a mais importante foi aquela em 1998 na cidade do Porto em que Portugal era o país anfitrião. Onde eu o acompanhei - como aos outros presidentes, obviamente. Por um lado, na sua primeira intervenção, que devia ser de poucos minutos, ele fez um discurso de mais de uma hora, com toda a perturbação que isso causou. E depois, no encerramento, aconteceu a mesma coisa, com as perturbações no protocolo. Ele não se preocupou muito com o tema da cimeira no Porto, que era a globalização, se bem me lembro. Preocupou-se sim em falar de geoestratégia, do peso dos Estados Unidos, da eventualidade de a crise financeira alastrar ao continente americano. Porque nessa altura havia de facto um problema com o México. Mas, portanto, guardo recordações de uma pessoa...

Na segunda vinda de Fidel Castro a Portugal jantaram juntos...

O jantar de 2001 foi quando ele fez uma escala em Lisboa, vindo não sei de onde - havia nessa altura uma linha Moscovo-Lisboa-Havana. Ele fez escala em Lisboa e eu convidei-o para jantar. Foi um jantar com poucas pessoas. Muito interessante. Porque o que ele queria saber, detalhadamente mas de forma descontraída, eram coisas sobre a União Europeia. Como funcionava, etc. Era uma coisa que ele tinha muito interesse em saber e não tinha a informação suficiente. E, nesse aspeto, foi obviamente um jantar muito agradável. Fidel Castro era uma figura obviamente controversa. Não nos podemos esquecer - sobretudo a minha geração - do entusiasmo que foi [a sua chegada ao poder]. Um entusiasmo também ocidental.

Tinha 20 anos quando foi a revolução cubana...

Sim, em 1959. Eu estava na faculdade. Portanto, a entrada em Havana, a derrota de Batista... Tudo isto foi visto, não só aqui mas em todo o mundo ocidental, com grandes esperanças. Não se esqueça de que os americanos também prestaram a esse momento uma atenção positiva. Depois obviamente que isso tudo se foi alterando com o tempo. Fidel Castro era isto. As pessoas não podiam ignorar a ditadura, mas aquela figura era de uma grande simpatia. Eu fui sempre daqueles que acharam que o diálogo se devia manter. Quando estive em Cuba com o então primeiro-ministro António Guterres fomos visitar elementos da oposição. Sempre com a polícia nas esquinas.

E quanto à aproximação com os Estados Unidos, agora sem Fidel em Cuba e com Trump no poder na América, as coisas vão mudar?

Esperamos que estes passos se cumpram e que o Congresso americano levante o embargo. Mas é imprevisível o que pode acontecer. Como é tudo imprevisível na sociedade internacional neste momento. Mas temos um Congresso que não é favorável, à partida, a várias coisas, nomeadamente ao levantamento do embargo. Não sei se o pragmatismo que se anuncia pode resolver essa questão. Não faço ideia nenhuma. Agora, não há dúvida nenhuma de que há interesses comerciais, empresarias, financeiros dos Estados Unidos que aguardam a possibilidade de entrar por Cuba dentro, com tudo o que isso significa de investimento e ao mesmo tempo também de prudência por parte dos dirigentes cubanos que não querem ver alterada subitamente a ordem estabelecida. As gerações dentro do Partido Comunista cubano são mais do que uma. Os mais velhos estão mais velhos. Já são da fundação. Depois há os mais novos, com o grau de abertura que isso comporta. Não sabemos. Vamos ver. De um lado e do outro.

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