Felipe VI vai ouvir partidos e no dia 30 pode haver governo

Sondagens mostram que, com terceiras eleições, PP e Ciudadanos conseguiriam maioria absoluta. PSOE seria muito castigado, arriscando ser ultrapassado pelo Podemos

Tudo parece encaminhado para que no final deste mês se resolva o impasse político e Espanha passe a ter um governo em minoria do Partido Popular liderado por Mariano Rajoy.

O capítulo mais decisivo em todo o processo deverá ter lugar no dia 23, data provável para a realização do Comité Federal do PSOE. Em discussão estará a posição do partido numa eventual nova tentativa de investidura de Rajoy. Se os socialistas evoluírem do "não é não" para uma abstenção, ainda que o calendário seja apertado, o caminho fica desimpedido.

Ontem ficou a saber-se que a nova ronda de consultas do rei com os vários partidos terá lugar nos dias 24 e 25 de outubro. Se nessas audições o PSOE e Ciudadanos transmitirem a Felipe VI que estão dispostos a absterem-se para permitir a formação de governo, o monarca deverá indigitar mais uma vez Mariano Rajoy. Nesse caso, o debate de investidura no Parlamento seria provavelmente a 26 ou 27, com uma primeira votação a 27 ou 28 (onde é necessária maioria absoluta) e uma segunda consulta 48 horas depois, no dia 29 ou 30 (bastando mais sins do que nãos). O prazo para que alguém consiga reunir os apoios necessários para governar termina a 31.

Javier Fernández - presidente da comissão gestora que ficou à frente do PSOE na sequência da demissão de Pedro Sánchez no passado dia 1 de outubro - tem vindo a tentar pacificar os ânimos entre os socialistas e a mentalizá-los para a necessidade de uma abstenção. "A política exige conviver com a deceção. O PSOE tem obrigação de refletir num momento tão dramático para o país e para o próprio partido. Gostava que o PSOE tivesse ganho as eleições ou que tivesse um encontrado um aliado fiável, mas não foi isso que se passou", disse Fernández à Telecinco.

Tal como sublinha o El País, o dirigente socialista e presidente do governo asturiano aproveitou também a entrevista para desferir duras críticas ao Podemos: "Houve um tempo em que parecia que eles vinham no caminho da social-democracia, mas agora estão no populismo".

A comissão gestora do PSOE não irá propor nenhuma posição ao Comité Federal, deixando o órgão livre para decidir sem quaisquer indicações dos dirigentes do partido. Resta saber se o clima do encontro voltará a ser de autêntica guerra civil, ou se a transição para a abstenção será pacífica. Miquel Iceta e Núria Parlon, os dois candidatos à liderança do Partido Socialista da Catalunha, já garantiram que é sua intenção continuarem firme no "não é não" e ponderam que os seus sete deputados venham a quebrar a disciplina de voto na sessão de investidura.

Até que ponto é previsível que o Comité Federal do PSOE se decida pela abstenção? "As últimas declarações dos líderes socialistas apontam nesse sentido. Mas, ao mesmo tempo, será que ainda restam dúvidas sobre a capacidade de surpreender que tem a política em Espanha?", questiona, em declarações ao DN, o analista Cristóbal Herrera da consultora Llorente y Cuenca.

O grande dilema para os socialistas é que as duas alternativas possíveis - facilitar um governo de Rajoy ou terceiras eleições - são ambas más para o PSOE. Todas as sondagens mais recentes, realizadas depois da semana em que o PSOE se partiu ao meio, mostram que os socialistas pagariam nas urnas a fatura das guerrilhas internas. Um estudo publicado no jornal ABC dá 159 deputados para o PP (mais 22 do que nas eleições de junho) e 25 para o Ciudadanos (menos sete), que significa que juntos teriam maioria absoluta. O PSOE baixaria de 85 para 68 e seria ultrapassado pelo Podemos, que passaria de 71 para 69.

Com ou sem eleições, fora de questão parece estar a hipótese de o Ciudadanos integrar um governo liderado por Rajoy. "Não havendo renovação no PP não entraremos numa coligação. Com Rajoy não faz sentido", assegura José Manuel Villegas, braço direito do líder Albert Rivera. Ainda assim, o Ciudadanos deverá voltar a votar a favor da investidura, juntando os seus 32 deputados aos 137 do PP.

Se até 31 de outubro ninguém conseguir formar governo, Felipe VI está obrigado a dissolver o Parlamento e a convocar novas eleições, que, em princípio, serão realizadas a 18 de dezembro.

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