"FBI marroquino" apreendeu 2844 toneladas de cocaína em 2017

Gabinete de Investigações Judiciárias de Marrocos foi criado há apenas um ano

O Gabinete Central de Investigações Judiciárias de Marrocos, criado há um ano, desmantelou em 2017 pelo menos 24 células terroristas, apreendeu 2844 toneladas de cocaína e já é conhecido nos meios internacionais de segurança como "FBI marroquino".

O grande número de ações de fiscalização, controlo e investigação realizadas em apenas um ano também permitiu fornecer informações valiosas sobre atividades terroristas à França, Bélgica, Espanha e, mais recentemente, Costa do Marfim.

A envergadura internacional do Gabinete Central de Investigações Judiciárias (BCIJ, na sigla francesa) deve-se sobretudo a um vasto movimento de reformas nos serviços de segurança promovido pelo rei Mohamed VI, de Marrocos, e pela eficácia das investigações, que permitiram, a título de exemplo, a captura do "cérebro" dos atentados de Paris, em novembro de 2015.

Os países alvo de atentados têm recorrido cada vez mais aos serviços do BCIJ, sendo dado também como exemplo o desmantelamento, poucos dias depois do atentado de 15 de janeiro de 2015 ao Charly Hebdo, de uma célula jihadista na pequena localidade de Viviers.

Segundo noticia a revista Jeune Afrique, o "FBI marroquino" depende hierarquicamente da Direção Geral de Vigilância do Território (DGST, na sigla francesa) e encarna a nova política de abertura, transparência e respeito pelos direitos humanos exigida após décadas de acusações de tortura e exações.

A "transparência" revela-se na divulgação de um comunicado oficial sempre que cada célula terrorista é desmantelada ou que é concluída uma investigação, com detenções e apreensões, de tráfico de droga, bem como a um relatório anual de balanço das atividades.

E tudo, segundo a Jeune Afrique, com base no que chama "triângulo da morte", que integra o BCIJ, o tribunal e a prisão, cuja perfeita sintonia permite um funcionamento "bem oleado" do sistema, com um registo "impressionante" de investigações, detenções, julgamentos e condenações.

Segundo o relatório anual da DGST, em 2017, as operações permitiram deter 97.688 pessoas ligadas direta ou indiretamente ao tráfico de droga, a que se juntam outras cerca de 90.000 relacionadas com pequenos delitos ligados também a questões de estupefacientes.

No mesmo período, foram apreendidas 2.844 toneladas de cocaína com uma taxa de pureza jamais vista de 93%, mais do dobro do que em 2016 (1.245 toneladas), num valor estimado em 25.800 milhões de dirhams (2.287 milhões de euros ao câmbio atual).

Marrocos e a América latina têm atualmente apenas uma ligação aérea diária (entre Casablanca e São Paulo, no Brasil), mas os aeroportos marroquinos são servidos por 35 voos diários com o resto do continente africano.

Segundo fontes da BCIJ, os cartéis de droga com base na América Latina têm tido preferência pela chamada "via africana" para encaminhar a mercadoria para a Europa, sobretudo via marítima até a países da costa marítima atlântica de África, com maior ênfase na zona oeste-africana.

Parte das mercadorias permanece no continente africano, mas a grande maioria é encaminhada para a Europa através das chamadas "mulas" -- pessoas que as transportam em cápsulas no estômago.

Grande parte da droga chega também da Ásia, da África Oriental, sobretudo a cidades no norte de Marrocos, como Tânger ou Tetuão, de onde segue a tradicional rota ligada ao tráfico de canábis com destino a países europeus, entre eles Portugal.

Em contracorrente em relação às drogas duras, as apreensões de canábis [Marrocos é considerado o primeiro produtor de resina de canábis] estão em "forte baixa", segundo os dados da DGST, tendo sido apreendidas em 2017 pouco mais de 60 toneladas de haxixe, menos 46 do que as registadas em 2016 (106,8 toneladas).

Tal como a canábis, as apreensões de psicotrópicos também estão em queda, pois foram confiscadas 941.082 unidades em 2017, menos do que em 2016 - 1,289 milhões de comprimidos.

No entanto, são números que "inquietam", refere-se no relatório, que destaca sobretudo o "ecstasy", uma droga sintética cada vez mais popular entre as camadas marroquinas e que chega a Marrocos sobretudo da Bélgica e Holanda e cujas apreensões aumentaram de 481.646 unidades em 2016 para 549.637 em 2017.

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