FARC só estarão "em espírito" na entrega do Nobel a Santos

Presidente colombiano recebe hoje o prémio numa cerimónia em Oslo onde não está a guerrilha mas estão sete das suas vítimas, incluindo as ex-reféns Ingrid Betancourt e Clara Rojas

Nenhum membro da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) estará hoje na cerimónia de entrega do Nobel da Paz ao presidente colombiano, José Manuel Santos. Mas isso não significa que o outro interlocutor dos diálogos de Havana, destinados a pôr fim ao conflito que dura há mais de meio século e fez pelo menos 220 mil mortos, não esteja presente em Oslo. "Estarão aqui em coração e espírito", afirmou Santos. Entre os convidados estão contudo sete vítimas da guerrilha, entre as quais as ex-reféns Ingrid Betancourt e Clara Rojas. Afinal, o presidente sempre disse que recebia a distinção "em nome de todos os colombianos, mas sobretudo das vítimas" - para quem reverterá o valor do prémio.

"O facto de as FARC não estarem aqui é porque não queria criar problemas com o governo da Noruega, porque esta guerrilha está imersa no procedimento legal que é preciso realizar na Colômbia para que eles tenham a liberdade de viajar pelo mundo. Por isso, pensamos que não era apropriado trazê-los a esta cerimónia", indicou Santos numa conferência de imprensa já em Oslo, agradecendo os esforços de mediação da Noruega nas negociações na capital cubana. O presidente explicou que a guerrilha estará representada pelo advogado espanhol Enrique Santiago, que foi o assessor jurídico das FARC durante o diálogo.

O anúncio de que Santos tinha ganho o Nobel foi feito a 7 de outubro, menos de uma semana depois de os colombianos terem recusado em referendo o acordo alcançado entre o governo e as FARC. Desde então, ambas as partes voltaram à mesa de negociações, tendo o novo acordo de paz sido ratificado pelo Congresso da Colômbia em finais de novembro (desta vez já não irá a referendo, que nunca foi obrigatório). Na próxima segunda-feira, o Tribunal Constitucional deverá pronunciar-se sobre a sua legalidade.

"Espero que o Tribunal Constitucional dê a sua bênção ao acordo de forma rápida", disse Santos na conferência de imprensa. "Precisamos encurtar o tempo que vai desde a assinatura do acordo até ao momento em que é implementado", acrescentou. Segundo o presidente, o anúncio do prémio "foi uma prenda dos céus", tendo dado "um enorme empurrão" para alcançar um novo acordo com as FARC.

Convidados

Santos convidou 30 pessoas para a cerimónia na Câmara de Oslo, entre elas familiares, funcionários do governo que participaram nas negociações e sete vítimas das FARC. A mais conhecida é a franco-colombiana Ingrid Betancourt, que estava em campanha para as presidenciais quando foi sequestrada, a 23 de fevereiro de 2002. Junto com ela estava a assessora, Clara Rojas, tendo ambas ficado nas mãos da guerrilha durante seis anos. Clara, que foi mãe em cativeiro, foi libertada em janeiro de 2008, num gesto de boa fé das FARC para com o então presidente venezuelano, Hugo Chávez. Já Ingrid seria libertada seis meses depois, com outros 14 reféns, numa megaoperação do exército.

"Perder esta oportunidade de reconciliação seria um crime geracional", disse Betancourt ao apoiar o processo de paz. Já depois do anúncio de que Santos iria receber o Nobel, a ex-refém reconheceu que as FARC também mereciam. Na altura, o líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, também conhecido por Timochenko, desvalorizou o facto de terem ficado de fora: "O único prémio que procuramos é a paz com justiça social para a Colômbia sem paramilitarismo, sem retaliação ou mentiras", escreveu no Twitter.

A escultura que Santos vai entregar aos monarcas da Noruega e Suécia e ao Papa Francisco

Em Oslo estará também o escritor e jornalista Héctor Abad, autor do livro Somos o Esquecimento que Seremos (Quetzal, 2010) escrito em memória do pai, Héctor Abad, um médico e defensor dos direitos humanos que foi assassinado por paramilitares em 1987; Fabíola Perdomo, viúva de Juan Carlos Narváez, um dos 11 deputados de Antioquia mortos pela guerrilha; e Leyner Palacios, sobrevivente do massacre de Bojayá, no qual morreram 120 pessoas a 2 de maio de 2002. Santos anunciou que o valor do prémio Nobel, oito milhões de coroas suecas (cerca de 800 mil euros), será entregue a "a obras, fundações ou programas que tenham a ver com as vítimas e com a reconciliação".

Antes da cerimónia oficial, na qual discursará durante 20 minutos, Santos será recebido pelos reis noruegueses, Harald V e Sonia. O presidente entregará então aos monarcas uma escultura da artista colombiana Ana González Rojas. "É o símbolo de paz, feito com flora e fauna colombiana, de porcelana branca", explicou a primeira-dama, María Clemencia. Obras de arte iguais serão entregues ao rei sueco Carlos XVI Gustavo, com quem Santos se reúne na segunda-feira em Estocolmo, e ao Papa Francisco, que visita na sexta-feira no Vaticano. O périplo europeu passa também por Madrid (terça-feira), onde se reúne com o primeiro-ministro Mariano Rajoy, e por Itália (quinta-feira), onde tem marcado encontro com o homólogo Sergio Mattarella.

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