"FARC conseguiram uns acordos insuperáveis"

Entrevista a Vicente Torrijos, professor emérito de Ciência Política na Universidade de Rosario, na Colômbia

O acordo de paz tem de ser aprovado num plebiscito. Pode não passar?

Apesar da euforia mediática sobre "o fim do conflito" o que mostram as sondagens é que as pessoas percebem que há armadilhas no processo e podem recusar o acordo, votar "não". Isto porque as FARC continuam a extorquir e a manter as suas capacidades financeiras a longo prazo, mas também a capacidade de ameaçar com o uso da força. Os chamados "milicianos" não vão desmobilizar-se.

O acordo é uma vitória para o presidente Juan Manuel Santos?

Santos tem uma aceitação de apenas 20%. Por isso dosifica estes grandes anúncios com as FARC, esperando melhorar os indicadores. Mas a população desenvolveu um pensamento crítico muito interessante e a imagem do presidente não recupera.

E as FARC?

As FARC conseguiram uns acordos insuperáveis: estão a refundar o Estado colombiano sem continuar a desgastar-se com uma guerra de guerrilhas estéril. Gozam de estatuto político, de uma grande margem de impunidade, não terão de entregar a riqueza e, como se não bastasse, terão as armas em seu poder a 2 de outubro, data do plebiscito. Isso significa que farão proselitismo armado a favor do "sim", algo inconcebível em qualquer democracia, pondo em dúvida se ele será realmente limpo e livre.

O acordo de paz com as FARC abre caminho a acordos com outros grupos?

Há uma longa fila de grupos que vão querer os privilégios das FARC. Falo do ELN, do EPL e de vários grupos armados organizados. Mas o que este modelo mostra é que, para conseguir esse tratamento preferencial, terão de esforçar-se, como as FARC fizeram, para ser muito letais e violentos. Lamentavelmente, só assim receberão do governo o cobiçado estatuto de "interlocutores políticos válidos".

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