EUA contra Irão: oito episódios de uma crise que ameaça acabar em guerra

O Irão anunciou esta quinta-feira o abate de um drone norte-americano, alegando que este estava em espaço aéreo iraniano, o que Washington nega. É o último episódio de uma crise que começou há mais de um ano, mas se intensificou no último mês.

1. EUA deixam cair acordo nuclear

Em maio de 2018, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a retirada dos EUA do acordo nuclear iraniano, assinado em 2015 juntamente com Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha. Foi o início de uma crise que se acentuou no último mês.

Esse acordo, que Trump apelidou de "o pior de sempre" e considerava "um embaraço", obrigava Teerão a reduzir em dois terços o número de centrifugadoras usadas para enriquecer urânio, cortar em 98% nas reservas de urânio enriquecido e limitar esse enriquecimento a 3,67%, suficiente para continuar a produzir energia para fins civis, mas não para construir uma bomba nuclear. Em troca, as sanções foram levantadas a Teerão e o país foi autorizado a voltar aos mercados internacionais.

2. EUA reforçam presença no Golfo

A 5 de maio, o conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, crítico há anos do Irão, anunciou o destacamento de uma frota de navios, liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, para o Golfo Pérsico, em resposta a "um número crescente de indicações e avisos preocupantes".

Sem dar mais pormenores, disse contudo que os EUA "não estão à procura de uma guerra com o regime iraniano", mas lembrou que Washington está "completamente preparado para responder a qualquer ataque, quer por procuração, dos Guardas Revolucionários, ou forças regulares iranianas".

Cinco dias depois, os EUA enviam uma bateria de mísseis Patriot para o Médio Oriente.

3. Irão anuncia aumento do enriquecimento de urânio

Três dias depois do anúncio inicial de Bolton, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, anunciou que o seu país iria aumentar as reservas de urânio enriquecido e enriquece-lo até níveis mais próximos daqueles que são usados nas armas nucleares, dando um ultimato até 7 de julho às potências europeias e restantes signatários do acordo nuclear para apoiarem financeiramente Teerão.

Dias depois, os media iranianos anunciam que a produção de urânio usado para uso civil quadruplicou, o que poderá levar a exceder os limites estabelecidos pelo acordo nuclear.

4. Ataques aos primeiros petroleiros

A 12 de maio, quatro petroleiros - dois sauditas, um dos Emirados Árabes Unidos e um último da Noruega - são atacados junto ao estreito de Ormuz, em águas dos Emirados, que falam em "sabotagem".

As investigações revelam que os ataques foram perpetrados por mergulhadores que colocaram minas nos cascos dos navios para causar danos, mas não causar uma grande explosão. Não apontaram diretamente o dedo ao Irão, mas os EUA acusaram Teerão, que negou o seu envolvimento.

5. Ataque a oleoduto na Arábia Saudita e embaixada dos EUA em Bagdad

A Arábia Saudita, aliada dos EUA, acusa o Irão de estar por detrás do ataque com um drone a um dos seus oleodutos, a 14 de maio, alegadamente perpetrado pelos rebeldes houthis do Iémen (alinhados com Teerão).

Cinco dias depois, um rocket cai próximo da embaixada dos EUA em Bagdad, sem fazer feridos, com Trump a escrever no Twitter que "Se o Irão quer lutar, isso será o fim oficial do Irão. Não ameacem os EUA outra vez." O pessoal não essencial da embaixada tinha tido ordens de partir dias antes.

A 24 de maio, Trump anuncia o envio de mais 1500 militares para a região, alegando que terão um papel "principalmente protetor".

6. Mais dois petroleiros atacados

A 13 de junho, mais dois petroleiros são atacados no estreito de Ormuz, desta vez um japonês e um norueguês, com a marinha norte-americana a ir em socorro de 44 marinheiros que ficam à deriva e precisam de ser retirados dos navios.

Os EUA acusam o Irão do ataque, mostrando um vídeo de segurança no qual se vê uma embarcação acostada ao petroleiro japonês e vários homens em movimento. Alegam que as imagens mostram Guardas da Revolução a retirar uma mina que não explodiu do casco.

Os Guardas da Revolução, soldados de elite das Forças Armadas iranianas que dependem diretamente do ayatollah, estão desde abril na lista de organizações terroristas dos EUA.

O ataque decorreu quando o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, estava ainda de visita ao país, numa tentativa de mediar o diálogo entre Teerão e Washington.

7. Irão anuncia que ultrapassa limite de reservas em dez dias

Na segunda-feira, 17 de junho, Teerão anunciou que vai ultrapassar o limite de reservas de urânio enriquecido, previsto no acordo nuclear, no prazo de dez dias.

"Hoje começou a contagem regressiva para ultrapassar os 300 quilos de reservas enriquecidas de urânio e daqui a 10 dias, ou seja, em 27 de junho, vamos ultrapassar esse limite", afirmou o porta-voz da Organização iraniana de Energia Atómica, Behrouz Kamalvandi em conferência de imprensa emitida pela televisão estatal iraniana.

8. Irão abate drone norte-americano

Os Guardas da Revolução do Irão anunciaram esta quinta-feira terem abatido um drone norte-americano, em violação do espaço aéreo no sul do país, numa nova escalada de tensão entre Washington e Teerão. Os EUA confirmaram ter perdido o avião não-tripulado, mas alegam que esteve estava em espaço aéreo internacional, sobre o estreito de Ormuz.

O comandante dos Guardas da Revolução, Hossein Salami, alega que as fronteiras da República Islâmica são a "linha vermelha" do Irão. "É uma mensagem clara e precisa: os defensores das fronteiras vão ripostar a todas agressões estrangeiras e a nossa reação é e será categórica e absoluta", indicou.

Exclusivos

Premium

Adriano Moreira

Navegantes da fé

Este livro de D. Ximenes Belo intitulado Missionários Transmontanos em Timor-Leste aparece numa época que me tem parecido de outono ocidental, com decadência das estruturas legais organizadas para tornar efetiva a governança do globalismo em face da ocidentalização do globo que os portugueses iniciaram, abrindo a época que os historiadores chamaram de Descobertas e em que os chamados navegantes da fé legaram o imperativo do "mundo único", isto é, sem guerras, e da "terra casa comum dos homens", hoje com expressão na ONU.