EUA. As estrelas em ascensão na nova vaga dos democratas

Uns ganharam, outros perderam - e uma ainda pode vencer. Na derrota ou na vitória estes políticos norte-americanos marcaram pontos e o futuro do partido democrata passa por eles.

Ayana Pressley, a primeira negra eleita no Massachusetts

A grande vitória de Ayana Pressley, de 44 anos, deu-se em setembro, quando derrotou nas primárias democratas o veterano Michael Capuano, congressista há dez anos. Nas eleições de 6 de novembro Pressley não tinha adversário no 7.º distrito. ​​​​​​Pressley não é uma novata. Foi autarca da cidade de Boston há quase uma década e foi a primeira mulher negra a ser eleita.

Durante a campanha para as primárias, Pressley defendeu os cuidados de saúde para todos e rejeitou o financiamento de empresas. Agora vai ser a primeira congressista negra de Massachusetts.

"Não estou aqui para fazer um discurso de vitória. O que tenho a partilhar é uma visão em que juntos possamos romper o ciclo de pobreza, reparar o sistema criminal para que possa de facto fazer justiça, que reafirme os direitos dos nossos amigos transgénero, numa economia na qual basta ter um emprego", afirmou ontem perante apoiantes.

Ocasio-Cortez, a mais nova congressista de sempre

Quem diria que há um ano trabalhava num bar? Alexandria Ocasio-Cortez é hoje um caso de popularidade. Teve um resultado mais consonante com uma democracia musculada do que outra coisa: uns retumbantes 78% perante mais três adversários na corrida ao congresso pelo 14.º distrito de Nova Iorque. Nascida no Bronx há 29 anos, filha de uma porto-riquenha, é uma ativista da autointitulada socialista democrata que se envolveu na campanha de Bernie Sanders.

"Estas lutas que levamos por diante são de uma geração, estas lutas vão demorar, não se vão resolver em dois anos ou quatro anos. Vai durar as nossas vidas, mas vai ser a luta das nossas vidas", afirmou no discurso de vitória a dirigente formada em economia e relações internacionais.

Beto O'Rourke, o homem que fez sonhar (parte) do Texas

Já foi comparado a Robert Kennedy e a Ronald Reagan e fez para muitos analistas uma das campanhas mais inspiradoras. Beto (como é conhecido) tentou desalojar o republicano Ted Cruz no Senado, no que seria inédito nos últimos 30 anos. Urnas apuradas, o antigo baixista de uma banda punk ficou a 2,6% de Cruz e no discurso largou uma palavra normal na música alternativa mas proibida na TV ("fucking" no meio de uma frase em que se dizia "orgulhoso de vocês").

Orgulhoso de quê, explicou depois este homem descendente de irlandeses: "Pessoas de todas as esferas da vida uniram-se, condenando as diferenças e decidindo que o que nos une é muito mais forte do que a cor da pele, de quantas gerações podemos considerar-nos um americano ou se acabámos de chegar cá, quem amamos, a quem rezamos, se rezamos, em quem votámos na última vez. Nenhuma dessas coisas pequenas importa agora. É a grandeza a que aspiramos e o trabalho a que estamos dispostos a colocar para alcançá-lo, pelo qual seremos conhecidos daqui para a frente e esta campanha ocupa um lugar muito especial na história deste país."

Andrew Gillum, o mayor com a Casa Branca no horizonte

O mayor de Tallahasee recebeu o apoio de pesos-pesados. Nas primárias democratas foi Bernie Sanders. Durante a campanha contra DeSantis teve ao seu lado Barack Obama. Mas não chegou para ser eleito o primeiro governador negro da Florida (ficou a 0,7% do objetivo). Como promessas eleitorais tinha o aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora e cuidados de saúde para todos os cidadãos.

Apesar de ainda ser novo (tem 39 anos), está na política local desde os 23 anos. E a sua campanha chamou de tal forma a atenção em termos nacionais que há quem já o ponha na lista de possíveis candidatos a concorrer com Trump em 2020.

Stacey Abrams, a amiga de Oprah

Se Gillum ficou a menos de 60 mil votos da vitória, Stacey Abrams está a 75 mil votos de diferença para o republicano Brian Kemp na eleição para governador da Geórgia. Mas este, secretário de Estado estadual, tinha a seu cargo o dossiê eleitoral. A Geórgia tem 32% de negros e Stacey Abrams poderia fazer história ao ser eleita a primeira governadora negra, mas Kemp terá usado várias táticas para que isso não aconteça.

Choveram queixas sobre a forma como o processo eleitoral se desenrolou: desde 53 mil eleitores a quem foi negado o direito de se registar a filas de mais de quatro horas em certos círculos eleitorais. Na noite eleitoral, Stacey Abrams não deu o braço a torcer.

"Numa nação civilizada o sistema eleitoral devia funcionar para todos e em todos os sítios e não apenas em determinados locais e em certos dias", disse. "Há votos que ainda não foram contados. Vozes que estão à espera de ser ouvidas nos boletins do voto por correspondência e pensamos que podemos chegar lá", afirmou.

Antes de terminar em modo gospel "Nós somos Geórgia", afirmou que se está "à beira de fazer história", e que "o melhor está para vir".

Segundo a lei eleitoral da Geórgia não basta ter mais votos: há que ter mais de 50%, pelo que as hipóteses de uma segunda volta no dia 4 de dezembro são fortes.

Stacey Abrams contou com o apoio de Oprah Winfrey na campanha. "Ela é uma mulher que ousou acreditar que podia mudar o estado da Geórgia. Ela é dinâmica, inspirada e inspiradora, ela é ambas as coisas, disse Oprah. "É uma mulher guerreira da Geórgia", concluiu a estrela da TV sobre a advogada e política de 44 anos.

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