EUA aprovam sanções contra a Venezuela em dia de greve geral

Treze altos funcionários do governo, militares e dirigentes da estatal PSVSA são os alvos. Um morto nas primeiras horas do protesto

A presidente do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela, Tibisay Lucena, responsável pela organização da eleição para a Assembleia Constituinte de domingo, é uma das 13 pessoas ligadas ao governo de Caracas que tem desde ontem congelados os eventuais bens que tenha nos EUA e está ainda impedida de fazer negócios com norte-americanos. O anúncio de novas sanções por parte de Washington surgiu no primeiro dia de 48 horas de greve geral, que tal como na semana passada voltou a deixar zonas de Caracas paralisadas. Pelo menos uma pessoa morreu nas primeiras horas de protestos.

"Como o presidente Donald Trump disse claramente, os EUA não vão ficar sem fazer nada diante das tentativas do regime de Nicolás Maduro para minar a democracia, a liberdade e o Estado de direito", indicou o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin. "Quem for eleito para a Assembleia Constituinte deve saber que o seu papel prejudicial ao processo e às instituições democráticas na Venezuela o deixará exposto a sanções americanas", afirmou.

Sob anonimato, outros responsáveis foram mais longe: "Todas as opções estão sobre a mesa." Nas últimas semanas chegou a falar-se da hipótese de os EUA, principal mercado do petróleo venezuelano, poder suspender as importações. Uma hipótese que afetaria diretamente a economia venezuelana - totalmente dependente das vendas de "ouro negro" - mas que deixaria ainda mais vulneráveis os venezuelanos, que já enfrentam a escassez de alimentos e medicamentos e uma inflação que, segundo o Fundo Monetário Internacional, pode chegar aos 720% este ano.

"As sanções do império são um reconhecimento dos meus 34 anos de luta pela soberania nacional, pelos pobres desta terra. Venceremos", escreveu no Twitter o ex-vice-presidente e atual ministro da Educação, Elías Jaua, outro dos alvos das sanções. Apesar da pressão externa e interna, Maduro mantém os planos para a eleição, no domingo, dos 545 membros da Assembleia Constituinte, que irão reescrever a Constituição de 1999.

Os EUA são um dos 13 países da Organização de Estados Americanos que apelaram à não realização da Constituinte. Para Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru e México a realização desta eleição "implicaria o desmantelamento definitivo das instituições democráticas e seria contrário à vontade popular expressa na consulta de 16 de julho". Num referendo simbólico organizado pela oposição, votaram 7,5 milhões de venezuelanos e a grande maioria disseram "não" à Constituinte. Cuba rejeitou entretanto os rumores de que poderia atuar como mediador para resolver a crise e apelou ao respeito pela soberania da Venezuela.

Na União Europeia, a chefe da diplomacia Federica Mogherini defendeu que é hora de pôr termo à violência. "O grande número de relatos de casos de violações dos direitos humanos, de uso excessivo de força, de detenções em massa e de julgamentos de civis em tribunais militares é motivo de preocupação", acrescentou, lembrando que a convocação da Constituinte é contestada pela sociedade e "corre-se o risco de polarizar ainda mais o país e exacerbar o risco de confrontação". E exorta "o governo e a oposição a reabrir os canais de diálogo e a retomar negociações políticas sérias, no interesse de todo o país".

Nas primeiras horas da greve geral, pelo menos um homem morreu no estado de Mérida, depois de ter sido alegadamente atingido a tiro quando participava numa manifestação - são mais de cem desde o início dos protestos, em abril. Segundo a Reuters, menos pessoas pareciam estar a participar na greve geral desta semana, em comparação com a paralisação de 24 horas da semana passada, durante a qual cinco pessoas acabaram por morrer.

"Quero dizer aos venezuelanos que esta luta que começou nas ruas, que esteve nas ruas e que continua nas ruas, tem que ser mantida até conquistarmos a liberdade, a democracia e a paz para todos os venezuelanos", disse um dos líderes da oposição, Leopoldo López, atualmente em prisão domiciliária após mais de três anos atrás das grades da prisão militar de Ramo Verde. Num vídeo no YouTube, apelou aos militares para não serem "cúmplices da aniquilação da República, de uma fraude constitucional e da repressão". Outro dirigente opositor, o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, apelou aos venezuelanos para que "deem o tudo por tudo" na greve de 48 horas e na grande manifestação em Caracas prevista para amanhã.

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