Etarras pedem perdão mas não convencem vítimas

Organização terrorista basca deverá anunciar dissolução a 5 de maio. Governo espanhol atribui derrota dos etarras a "força do Estado de direito" e "armas da democracia"

A ETA reconheceu ontem em comunicado os danos causados por mais de meio século de conflito com o Estado espanhol e pediu perdão às vítimas. Mas não a todas. Às "vítimas que não tinham participação direta no conflito", diz o comunicado divulgado pela organização terrorista basca .

Este surge um ano depois do desarmamento, cinco anos e meio após o anúncio do abandono incondicional da luta armada e quase sessenta anos após a criação da Euskadi ta Askatasuna. Dia 5 de maio, noticiaram os media, comunicará a sua dissolução. 859 mortos depois, o objetivo final, um Grande País Basco independente, não foi cumprido. E as feridas na sociedade permanecem por cicatrizar.

"Todas as vítimas são iguais, todas são inocentes, nenhuma pessoa assassinada tinha responsabilidade e culpa para ser assassinada", declarou ontem Maria del Mar Blanco, irmã do ex-vereador do PP por Ermua Miguel Ángel Blanco, sequestrado e assassinado por membros da ETA em julho de 1997. A sua morte gerou uma onda de grande comoção e indignação que levou milhões de espanhóis a sair às ruas para protestar. Basta Ya!, o lema histórico da luta contra o terrorismo, surgiu precisamente daí.

Presidente da Fundação das Vítimas do Terrorismo, Maria del Mar Blanco disse, à TVE, não acreditar que este pedido de perdão seja "sincero" e considerou "vergonhoso" que os etarras façam distinção entre vários tipos de vítima. A associação que dirige, em comunicado, criticou o facto de a organização terrorista "não fazer uma autocrítica em nenhum momento".
Para Rosa Rodero, viúva do sargente da Ertzaintza (polícia basca) Joseba Goikoetxea, morto em 1993, deu-se mais um passo para o fim. "O perdão serve", disse à rádio Ser, mas "não serve de compensação. O meu marido já não está cá e já não podem devolver-mo".

Gorka Landáburu, jornalista que foi vítima da ETA em 2001, afirmou que embora muitas vítimas achem insuficiente este comunicado, a verdade é que com este "a ETA desaparece definitivamente e isso é o que todos queriam há muito tempo". Landáburu sofreu ferimentos graves com um pacote-bomba. Nas declarações que fez, o jornalista instou a esquerda independentista basca a fazer "crítica política" agora.

Arnaldo Otegi, coordenador geral da EH Bildu, coligação da esquerda independentista, considerou que o comunicado "é um feito histórico sem precedentes e um contributo definitivo para a paz". Otegi é o ex-porta-voz do Batasuna, ilegalizado em 2003, depois de ser considerado pela justiça espanhola a ala política da ETA.

O presidente do governo autónomo basco, Iñigo Urkullu, do Partido Nacionalista Basco, considerou que os etarras devem aproveitar o anúncio da dissolução para "ter na mesma consideração todas as vítimas e reconhecer o dano causado pelas suas atividades". Além da ETA, também os bispos do País Basco e Navarra pediram ontem perdão por "cumplicidades e omissões" face ao terrorismo.

"Esta é apenas mais uma consequência da força do Estado de direito que derrotou a ETA com as armas da democracia", afirmou o governo espanhol em comunicado. Do lado do PSOE, Pedro Sánchez disse estar-se perante "um grande passo para a paz definitiva". No Podemos Pablo Iglesias considerou que "a dignidade das vítimas requeria este reconhecimento". E no Ciudadanos Albert Rivera lembrou que "não há vítimas de primeira e de segunda como diz a ETA".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.