ETA perde sétimo líder desde 2011 e é aconselhada a autodissolver-se

Mikel Irastorza, de 41 anos, estava à frente da organização terrorista há cerca de um ano e não tem crimes de sangue no currículo

Com a detenção ontem em França de Mikel Irastorza, a ETA viu o seu sétimo líder ser preso desde 2011, ano em que a organização terrorista basca anunciou que iria renunciar à violência. Para o executivo de Mariano Rajoy este é um "duro golpe" para o grupo. Mas o recado mais importante para os etarras veio de Iñigo Urkullu, presidente do governo basco e líder do Partido Nacionalista Basco: autodissolvam-se.

"A ETA deve saber (sabe-o) que a ação policial é imparável num Estado de Direito na Europa e no século XXI. A ETA está a dilatar o seu final de uma maneira incompreensível e deveria dar de uma vez por todas os passos unilaterais que a sociedade basca espera que dê para o seu desarmamento e dissolução definitiva", pode ler-se numa nota divulgada ontem pelo governo de Iñigo Urkullu.

O líder basco refere ainda que a ação policial é necessária, mas "não é suficiente para o desaparecimento definitivo da ETA". "Do ponto de vista do seu impacto na normalização política e da coexistência, é altamente desejável que haja uma decisão de autodissolução", reforçou.

Numa operação conjunta das polícias francesa e espanhola ontem de manhã em Ascain, no sul de França, foi detido Mikel Irastorza, de 41 anos, o atual líder da ETA. Um casal, um espanhol e uma francesa, em cuja casa o dirigente da ETA estava alojado, foram também detidos.

Natural de San Sebastián, Irastorza estava desaparecido desde 2008 e é tido pelas autoridades como um "desconhecido" sem crimes de sangue no seu currículo. Foi sim responsável nacional da EKIN, a estrutura que a ETA usava como instrumento para aplicar a sua estratégia político-militar e exercer a direção política do grupo.

Era o responsável máximo dos etarras há cerca de um ano, desde a detenção de David Pla e Iratxe Sorzábal, em setembro de 2015, também em França. Dois meses antes destes, a polícia havia capturado, igualmente em território francês, Iñaki Reta de Frutos e Xabier Goienetxea, responsáveis pela logística da organização.

O ano de 2012 foi essencial para o desmantelamento da liderança da ETA - a 27 de maio foi detido o alegado número um do aparato militar, Oroitz Gurruchaga Gogorza, e a 28 de outubro Izaskun Lesaka, considera a responsável pelas reservas de armas e explosivos, foi capturada. As duas operações tiveram lugar em França.

A ETA anunciou a 20 de outubro de 2011 que renunciava à violência na luta pela independência do País Basco, mas ainda não concluiu o seu desarmamento. Nos 50 anos que antecederam o anúncio fez 859 mortos. Estima-se que hoje não tenha mais de 20 membros, inexperientes.

Críticas aos dois lados

O Ministério do Interior espanhol considerou a detenção de Mikel Irastorza um "duro golpe" para a ETA. Esta detenção "pressupõe a perda de liderança dentro da organização terrorista e a eliminação da sua estrutura de direção encarregada da gestão do arsenal de armas e explosivos que a organização ainda tem em seu poder", lê-se num comunicado. "A sua detenção enfraquece a ETA no seu conjunto e faz com que volte a perder o seu ponto de referência no prazo de um ano, o que lhe torna difícil alcançar qualquer dos seus objetivos", acrescenta o texto.

O líder parlamentar do Partido Nacionalista Basco no parlamento regional, Joseba Egibar, deixou críticas tanto ao governo de Mariano Rajoy - dizendo que esta detenção insere-se na estratégia de "derrota policial" e acusando o executivo de "inação" em avançar com o "fim ordenado da violência" - mas também à ETA, que mantém a atitude "patética" de não desarmar.

Também crítico, o líder parlamentar do EH Bildu, Arnaldo Ortegi, afirmou que a detenção do líder etarra se insere na "lógica de guerra" do governo, a quem acusou de não estar "interessado na paz".

A presidente da Fundação Vítimas do Terrorismo, María del Mar Blanco, congratulou-se com "a boa notícia" que fez deste "um dia especial", mas apelou às autoridades para que não baixem a guarda, "ainda que só restem cinco" membros da ETA. E para que continuem a "ser usados todos os meios do Estado de Direito" para "dissolver a ETA de modo incondicional".

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