ETA entrega armas no sábado. Governo espanhol desconfia

Separatistas vão revelar onde estão os depósitos de armamento secretos

A ETA vai revelar este sábado os locais secretos onde ainda tem armas, numa cerimónia simbólica em Baiona, França, mantendo o Governo espanhol a desconfiança em relação à organização que considera terrorista e responsável por centenas de mortes.

O desarmamento vai ser assinalado com a entrega da localização dos depósitos de armas, que a ETA afirma ainda possuir, a um Comité Internacional de Verificação.

A operação de desarmamento "legal, completo, verificado e sem contrapartidas", como define o Governo do País Basco, será uma cerimónia privada e unilateral, sem a presença de membros dos Governos espanhol ou francês.

A localização dos últimos depósitos de armamento não será tornada pública pelo Comité Internacional de Verificação e o seu conteúdo, o inventário das armas, só será conhecido posteriormente.

No centro da cidade francesa de Baiona, que faz fronteira com a Espanha, os autoproclamados "artesões da paz" organizaram às 15:00 locais (14:00 em Lisboa) uma "grande concentração" de pessoas que esperam que seja "maciça, plural e digna", apelando à participação "em família".

Desde que foi conhecida, em 17 de março último, a intenção da ETA de entregar as armas de uma forma definitiva, os dois maiores partidos políticos espanhóis, PP (Partido Popular, direita) e PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), coincidem na desconfiança que têm em relação a mais este anúncio.

"A ETA é uma organização terrorista e não se negocia com ela. [...] Se quer um desarmamento, que o faça sem mais atrasos", disse o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, esta semana no parlamento, acrescentando que "o único desarmamento foi o que conseguiram as forças de segurança do Estado espanholas e francesas.

Rajoy instou a organização a revelar onde estão as armas e a dissolver-se, para assim se "fechar definitivamente a etapa de morte e sofrimento, recordando as vítimas" mortais que fez.

O líder parlamentar do PSOE assegurou, por seu lado, que "a ETA quis recuperar protagonismo com esta entrega de armas".

"Não se trata de comunicar a sua dissolução, trata-se de propaganda daqueles que não assumem a sua derrota, porque não tiveram a atitude e a coragem de se arrepender das mortes, nem pedir perdão às vítimas", declarou António Hernando.

Um grupo de intelectuais e familiares de vítimas mortais dos atos praticados pela ETA apresentou na quarta-feira em São Sebastião (Espanha) o manifesto "Pelo fim da ETA sem impunidade".

O filósofo Fernando Savater, em nome da "sociedade civil que enfrentou e sofreu com a ETA", rejeitou que o grupo terrorista "troque as armas de matar pelas armas de mentir" e defendeu que se obtenha uma "derrota política" da organização", para além da "derrota militar" já alcançada.

A ETA (Euskadi Ta Askatasuna, que em português significa "País Vasco e Liberdade") lutou durante décadas pela independência do País Basco (Espanha), tendo anunciado em 20 de outubro de 2011 o fim definitivo das suas ações violentas, com as quais se estima tenha morto nos últimos 50 anos cerca de 850 pessoas.

O desarmamento do grupo encontrava-se paralisado porque os Governos espanhol e francês recusavam participar no mesmo.

Até agora, a ETA tentou realizar esse processo de desarmamento através da chamada Comissão Internacional de Verificação, um grupo de especialistas internacionais, e posteriormente com pessoas da sociedade civil do País Basco francês.

A maior parte dos observadores está convencida de que o arsenal atual já é muito reduzido, tendo este desarmamento um caráter simbólico.

A última apreensão de armamento da ETA por parte da polícia francesa, em dezembro passado, limitou-se a 21 espingardas, 25 armas curtas e duas granadas e na altura especulou-se que se tratava de 20% do arsenal total ainda existente.

Depois de cessar definitivamente com as suas ações violentas, a ETA pretendeu negociar com o Governo Espanhol o seu desarmamento.

Uma delegação do seu "braço" político foi à Noruega e esperou pela presença de representantes do Governo espanhol para realizar essas negociações.

Esta delegação da ETA acabou por ser expulsa daquele país nórdico em fevereiro de 2013, depois de pressões desenvolvidas por Madrid.

A seguir ao desarmamento realizado este sábado, a ETA deverá abrir um debate interno sobre se o seu braço político deve ou não dissolver-se definitivamente.

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