ETA desiste da luta pelas armas mas não da independência basca

Personalidades internacionais reúnem-se hoje em Cambo-les-Bains, sul de França, para confirmar dissolução da organização terrorista, anunciada ontem, num comunicado sem qualquer referência às vítimas

A ETA confirmou ontem que chegou "ao fim do seu trajeto" e que "desmantelou totalmente o conjunto das suas estruturas", num comunicado lido pelo líder histórico José Antonio Urrutikoetxea. Fugido à justiça espanhola há 15 anos, Josu Ternera, como é conhecido, foi a voz que leu o anúncio do fim da organização terrorista basca. Hoje, na localidade de Cambo-les-Bains, no País Basco francês, um grupo de personalidades internacionais irá confirmar o fim da ETA. Mas o governo espanhol não está impressionado e o primeiro-ministro Mariano Rajoy já avisou: "faça o que fizer e diga o que disser, a ETA não vai encontrar nenhuma oportunidade para tornar impunes os seus crimes". Nas 378 palavras do comunicado não houve lugar para um pedido de perdão a todas as vítimas. Em 59 anos de luta armada, a ETA fez 853 mortos e 6389 feridos, segundo o Ministério do Interior espanhol. Apesar de se estar perante o fim da luta armada na Europa Ocidental com a dissolução da ETA, a reconciliação no interior da sociedade basca e espanhola será ainda um longo caminho a percorrer.

Classificando o anúncio feito ontem como uma "sequência lógica depois da decisão de abandonar definitivamente a luta armada, adotada em 2011", a ETA dá "por concluída a sua atividade política" e aponta o dedo à violência dos Estados (Espanha e França). Reafirmando a defesa do objetivo de um Euskal Herria (Grande País Basco que inclua partes bascas de Espanha e França e ainda Navarra), a organização passa a responsabilidade para a esquerda independentista para que seja ela a conduzir "a Constituição do Estado Basco" e refere ainda a materialização "do direito a decidir para conseguir um reconhecimento nacional". A Declaração Final da ETA ao Povo Basco, assim se intitula, termina dizendo: "A ETA surgiu deste povo e agora dissolve-se nele".

No dia 20 de abril, a organização que nasceu durante o franquismo divulgou uma mensagem preparatória desta em que reconheceu os danos causados e pediu perdão às vítimas. Mas não a todas. Apenas às "que não tinham participação direta no conflito". Algo que caiu muito mal entre os familiares e os amigos dos que morreram. O governo espanhol lembrou que esta é uma derrota dos etarras por via do Estado de Direito. E sublinhou que não haverá cedências. "Não lhe devemos nada e não lhe reconhecemos nada", afirmou ontem o primeiro-ministro espanhol. Mariano Rajoy classificou como "ruído e propaganda" as iniciativas da ETA e frisou que a política antiterrorista não vai mudar. "A única política futura em matéria antiterrorista, como sempre, é aplicar a lei", garantiu o chefe do governo, reiterando a manutenção de medidas aplicadas à ETA, como a dispersão dos presos. Há 279 etarras presos, a maioria em Espanha, mas também em França e em Portugal (Andoni Fernandez cumpre pena cá). Patxi López, ex-presidente basco, secretário de política federal do PSOE, pediu que não se misture política penitenciária com o anúncio de dissolução da ETA. E defendeu que haja uma concentração dos presos etarras num único sítio "sem calendário e com discrição".

O comunicado final da ETA teve a aprovação dos membros da Fundação Henri Dunant, organização suíça com sede em Genebra, especializada na resolução de conflitos. Em Cambo-les-bains, sul de França, estarão hoje, entre outros, o ex-líder do Sinn Féin Gerry Adams, o ex-chefe de gabinete de Tony Blair Jonathan Powell, o ex-primeiro-ministro da Irlanda Bertie Ahern, o ex-candidato presidencial no México Cuauhtémoc Cárdenas e o ex-líder da Interpol Raymond Kendall. Está prevista a leitura de novo comunicado que dará pelo nome de Declaração de Cambo. Os presidentes dos governos autónomos do País Basco e de Navarra, Iñigo Urkullu e Uxue Barkos, remeteram para hoje uma reação. O Podemos País Basco e o Podemos Navarra reagiram ontem à noite à ETA, dizendo que o anúncio da dissolução "chega tarde e chega mal" pois a decisão de abandonar as armas "devia ter nascido de uma reflexão ética e não meramente tática". Os seus governos não estarão presentes em Cambo-les-Bains. Estarão sim representantes dos partidos bascos PNV, Podemos e EH Bildu, com exceção, óbvia, para o PP e para o PS de Euskadi. O EH Bildu, que nas eleições regionais bascas de 2016 teve 21% dos votos, enviará o seu responsável máximo, Arnaldo Otegi. "Continuamos sendo um povo que ainda não conhece nem a paz, nem a liberdade. Não vamos parar de procurá-las até alcançá-las, com nosso trabalho e nossa atividade diária", garantiu o ex-porta-voz do Batasuna (ilegalizado por ser a ala política da ETA).

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.