Espanha vota à espera de saber quem fica em segundo lugar: PSOE ou Podemos?

Seis meses após as eleições de 20 de dezembro, a questão é saber que partidos vão chegar a acordo para ter maioria absoluta

Seis meses e seis dias depois das últimas eleições legislativas, os espanhóis voltam hoje às urnas. Uma situação inédita na história da democracia espanhola, provocada pela incapacidade de os partidos chegarem a um acordo sobre um novo governo para Espanha. Razão que levou o rei Felipe VI a dissolver as cortes e a convocar novas eleições.

Ao longo do dia podem votar ao todo 36 518 100 eleitores, 197 245 mais do que a 20 de dezembro. Seis meses parece um período demasiado curto para que ocorram grandes mudanças nos resultados eleitorais. Mas os partidos e os cidadãos esperam que pequenas alterações na repartição dos deputados permitam desbloquear a atual situação. Numa coisa parece que todos estão de acordo: deve evitar-se umas terceiras eleições.

As sondagens voltam a dar maioria ao Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, mas longe dos 176 deputados necessários para a maioria absoluta. A grande novidade pode estar na segunda força política mais votada. Em dezembro foi o PSOE que ficou em segundo lugar, mas agora pode ser ultrapassado pela candidatura conjunta Unidos Podemos. Em quarto lugar voltaria a estar o Ciudadanos.

É nestes quatro partidos, nos quais os espanhóis mais confiam, que vão estar centradas as atenções não só na noite eleitoral mas também nos dias a seguir ao voto. Conforme o número de deputados que obtiverem assim vão ter mais ou menos força para negociar uma futura coligação de governo, em princípio a única possibilidade viável para que Espanha possa vir a ter um novo governo. Tal como se viu nas eleições anteriores, o partido mais votado pode ficar de fora. Os populares não conseguiram um consenso para a tomada de posse de Mariano Rajoy, enquanto os socialistas, no segundo lugar, foram os que mais perto estiveram do acordo com outros partidos. Desta vez também existe incógnita sobre qual vai ser a principal força de esquerda em Espanha - PSOE ou Podemos, aliado à Esquerda Unida (IU). Isso poderá condicionar muito a formação de um futuro governo de esquerda.

O sociólogo e analista da consultora GAD3, Narciso Michavilla, espera "pouca mudança no voto" que possa representar "muita mudança nos deputados", explicou num debate organizado pela fundação Faes de José María Aznar. O Podemos pode perder votos mas manter o número de deputados depois da coligação com a IU, "mas não acredito que Pablo Iglesias consiga mais votos do que o PSOE". Tanto Michavilla como Francisco Llera, catedrático de Ciências Políticas da Universidade do País Basco, esperam uma desmobilização dos eleitores, "que afeta mais as opções de esquerda". Llera lembra que nestas eleições "não há incerteza sobre o vencedor, mas sobre a formação de um governo". É difícil perceber como vai reagir o eleitorado às negociações dos partidos. "A 20 de dezembro os eleitores do PSOE apoiavam o acordo com o Podemos e agora não. A IU não queria saber de Pablo Iglesias e agora estão juntos", sublinha Michavilla. "E não se sabe a evolução do voto do centro-direita depois da aproximação do Ciudadanos ao PSOE." Perante isto, os espanhóis vão exercer "um voto muito racional", que decidirão à última hora.

"Segundo o meu grupo de amigos, a grande maioria vai decidir o voto no próprio dia das eleições", afirma ao DN Laura Domínguez. "Também estou confusa, nem sei o que é melhor para o país. Todos queremos que formem governo, mas qual será a melhor coligação?", questiona esta mulher de 45 anos. "Não ligo muito à política, mas tento votar no partido que pode ajudar mais ao desenvolvimento do país e dos espanhóis em cada momento." Noutras eleições já votou nos socialistas, em 2011 votou no PP e em dezembro no Ciudadanos. "Agora, sinceramente, não sei, se calhar voto no Ciudadanos e formará governo com o PSOE, ou será que Pedro Sánchez acaba por se juntar à Unido Podemos? ", questiona-se Laura. Reconhece que não se lembra de tanta incerteza antes de uma votação. "E se houver muitos espanhóis como eu, que não sou fiel a um partido, neste domingo pode acontecer qualquer coisa". O seu amigo Luís González também não decidiu o voto, mas acha que nos últimos seis meses o partido mais coerente foi o Ciudadanos. "O acordo mais lógico seria PP-PSOE e Ciudadanos", diz a sua mulher Patrícia. "Enquanto Rajoy lá estiver não avançamos. Não percebo porque ainda não se foi embora", acrescenta Luis. Outro colega do grupo, Pedro Bermúdez, vai dar o seu voto à candidatura conjunta Unidos Podemos. "Gosto muito de Alberto Garzón, penso que é um jovem inteligente e coerente e pode trazer boas ideias para um provável governo de esquerda." Discutem muito por causa da política? "Não, nenhum de nós é fanático, respeitamos as ideias dos outros e debatemos sobre a situação política de Espanha", afirma Luis.

Segundo o Centro de Investigações Sociológicas, as posições dos espanhóis mudaram em alguns aspetos nos últimos seis meses. Agora, os cidadãos valorizam menos a situação económica e política do que antes de 20 de dezembro. Um em cada quatro cidadãos não se identifica com nenhuma formação política, enquanto há seis meses era um em cada cinco.

Madrid

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.