Erdogan usou em comícios vídeo de ataque terrorista na Nova Zelândia

AKP de Erdogan e seus aliados arriscam-se a perder controlo de grandes cidades, como Istambul e Ancara, nas eleições locais turcas deste domingo. Na campanha, tudo tem servido ao presidente, desde o vídeo dos atentados contra as mesquitas islâmicas neo-zelandesas de 15 de março, a ameaças aos australianos, passando por culpar os EUA pela desvalorização da lira turca, prometer ir ao terreno na Síria e ameaçar transformar em mesquita a Basílica de Santa Sofia

Este domingo, 57 milhões de turcos vão votar nas 81 províncias, para elegerem os autarcas de 30 áreas metropolitanas e 1351 distritos municipais, após uma campanha centrada no desemprego e na crise económica provocada pela forte queda da lira turca. Mas também pelo sucessivo uso em comícios de um vídeo com as imagens dos ataques de 15 de março nas mesquitas islâmicas da cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, por parte do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP).

Mark Lowen, correspondente da BBC em Istambul, relatou assim o ambiente vivido num dos comícios: "Tudo começa com uma música dramática, editada e com efeitos. Depois aparece o manifesto publicado pelo atirador [terrorista supremacista branco australiano] antes do ataque na Nova Zelândia. Traduzindo e realçando as passagens em que há referências à Turquia. Depois seguem-se as imagens do vídeo transmitido em direto na internet pelo atirador, quando entrou a disparar por uma mesquita de Christchurch, com imagens desfocadas e o som da arma automática. Em seguida o vídeo passa para o líder da oposição na Turquia, Kemal Kilicdaroglu, a dizer que 'o terrorismo está enraizado no mundo islâmico'. A multidão assobia, galvanizada pelo presidente, Recep Tayyip Erdogan, o qual já exibiu este vídeo em pelo menos oito comícios".

Nos vários comícios, refere o jornalista, o chefe do Estado já acusou "o senhor Kemal de andar de mãos dadas com os terroristas", já instou a Nova Zelândia a reintroduzir a pena de morte e já insinuou que o ataque em que morreram 50 muçulmanos "não é um ato isolado, mas algo organizado", acusando o Ocidente de "preparar o manifesto do assassino" e depois "o ter entregado a ele". Desagradado com a atitude do presidente da Turquia, país que tem o segundo maior exército da NATO, o vice-primeiro-ministro da Nova Zelândia, Winston Peters, considerou "injustas" estas referências feitas por Erdogan e alertou que podem prejudicar os cidadãos neo-zelandeses que vivem no estrangeiro.

No dia 18 de março, num cerimónia para assinalar os 104 anos da campanha de Gallipoli, Erdogan declarou que os "australianos hostis ao Islão" poderão ter o mesmo destino que os soldados australianos mortos pelas forças otomanas na batalha de Gallipoli durante a I Guerra Mundial. "Se os vossos avós vieram aqui e voltaram em caixões, não tenham dúvidas, iremos mandar-vos da mesma forma do que os vossos avós". O primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, protestou de imediato e disse esperar que as declarações "ignóbeis, desprezíveis e irrefletidas" por parte do presidente turco fossem "rapidamente esclarecidas e retiradas". O embaixador turco na Austrália foi chamado.

Nas eleições locais deste domingo não é Recep Tayyip Erdogan que vai a votos mas, para muitos analistas, estas são eleições que testam a sua popularidade, após uma apertada margem de vitória no referendo de 2017, que aprovou 18 emendas constitucionais, apresentadas pelo seu AKP. Nesse referendo, Erdogan também usou países estrangeiros, desta vez a Alemanha e a Holanda, como alvos. Por terem banido comícios de ministros turcos no seu território alemães e holandeses foram apelidados de "nazis" e "fascistas" por Erdogan. Outros alvos habituais são os EUA e Israel, para além dos inimigos internos, como os rebeldes curdos e o clérigo Fethullah Gülen, autoexilado nos EUA e acusado por Erdogan de estar na origem do golpe de Estado falhado contra si em julho de 2016.

O partido de Erdogan participa nas eleições locais deste domingo aliado ao Movimento Nacionalista, de extrema-direita, na coligação Aliança do Povo, mas as sondagens indicam que nem assim irá manter o controlo político de cidades como Istambul e Ancara. O principal adversário do partido do poder é a Aliança Nacional, que junta um partido de centro-esquerda, o Partido Republicano do Povo, e um partido de direita, o Partido Bom, e que promete enfraquecer a posição maioritária da Aliança do Povo e fragilizar a legitimidade de Erdogan.

O tema central da campanha foi a economia e, em particular, os elevados níveis de desemprego, que a oposição a Erdogan atribui à má gestão do governo e ao progressivo isolamento político do regime. Em resposta, Erdogan diz que a crise económica tem uma base financeira, provocada pela vertiginosa queda da moeda, a lira turca, que chegou a ficar a valer menos 50% face ao dólar, num período de 12 meses, no início de 2018. Erdogan atribui essa queda da moeda à estratégia dos Estados Unidos que, na sua versão, pretendem desestabilizar a economia turca. Na passada quinta-feira, Erdogan disse que a perda de valor de 5% da lira turca face ao dólar e ao euro, registada na passada semana, é, de novo, resultado da ação concertada dos EUA e de países europeus, na véspera das eleições locais de domingo, para tentarem derrubar o seu regime.

No comício deste sábado, Erdogan promete resolver, no terreno, a guerra na Síria. "A primeira coisa a fazer depois das eleições deste domingo é resolver a questão da Síria, se possível no terreno, não à mesa", prometeu o presidente da Turquia, em Istambul. Na véspera, na mesma cidade, o chefe do Estado turco prometera transformar a famosa Basílica de Santa Sofia, que hoje funciona como museu, numa mesquita. "Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, declara Jerusalém como capital de Israel e os Montes Golã como território israelita, a Turquia, como presidente da Organização para a Cooperação Islâmica, dará uma resposta adequada", afirmou o chefe de Estado.

A Basílica de Santa Sofia foi construída no século VI, durante o Império Bizantino, para servir como catedral de Constantinopla (antigo nome de Istambul), sendo transformada em mesquita no ano de 1453, quando a cidade foi conquistada pelo Império Otomano. Em 1931, já na Turquia, a construção foi secularizada, se tornando um museu quatro anos depois. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), uma nova mudança no estatuto da catedral dependeria de uma aprovação prévia da organização, já que a basílica é considerada parte do Património Mundial da Unesco.