Premium Mussolini concede ao Diário de Notícias uma notável e impressionante entrevista

Primeiro-ministro de Itália desde 1922, autodesignando-se Duce desde 1925, Benito Mussolini deu uma entrevista ao jornalista António Ferro, publicada no DN de 6 de dezembro de 1926. Fascista, vivia uma época de apoio popular por causa das obras públicas. Estava longe de se imaginar que um dia levaria a Itália para o Eixo, fazendo-a aliada da Alemanha nazi. Mussolini esteve no poder até 1943 e foi executado por resistentes antifascistas italianos em abril de 1945, já perto do final da Segunda Guerra Mundial.

A Sala da Vitória

Dia vitorioso, dia feliz, diz de bom humor, dia em que o sol não é violento, mas aquece, dia em que Roma, a Roma triste e severa, é a gata borralheira num grande baile, no grande baile da Luz... São quatro e meia da tarde. A sala de espera do Palácio Chigi, contra o seu costume, está deserta. Não há os relâmpagos habituais, os braços que se levantam, as saudações fascistas que se cruzam. Mussolini vai receber-me. Dá-me a boa nova o capitão Mamelli, o mesmo que me introduziu junto do Duce há três anos, numa tarde sombria, ameaçadora, numa tarde de chapéu-de-chuva... A atmosfera, hoje, é outra. Bom tempo. Há oiro lá fora. A natureza, a natureza italiana, fascista, subscreve, com a grande libra esterlina dum sol puro e claro, para o "Prestito del Littorio". Mas, ainda assim... Apesar de tudo, apesar do céu sem nuvens, vivo, como há três anos, a impressão de que não vou examinar, de que vou ser examinado... Quando me encontro à porta do gabinete de Mussolini, a porta da grande Sala da Vitória, sinto-me perdido, derrotado... Na sala enorme, na sala onde me falta a coragem a cada passo, na sala dos passos quase sempre perdidos, na sala onde se enjoa como no alto-mar, Mussolini lá está ao longe, como um farol, como um farol que não evita, certamente, o meu naufrágio...

O perfil do ditador

Mussolini, que está mais gordo sem estar inchado, apresenta-se como nos seus retratos mais conhecidos: um fraque bem talhado, um colarinho de bicos, uma gravata discreta. Na lapela, o emblema dos fascistas. A correção de Mussolini, no vestuário, vê-se que foi conseguida, estudada, artigo por artigo, como um decreto. Mussolini não tem, como muitos pensam e alguns telegramas fazem crer, uma aparência fraca, doentia. Não. Mussolini é um homem forte, de ombros largos, de perfil dominador e firme. A cor não é muito saudável. Mas a sua cor é a patine habitual de todos os homens que viajam para a imortalidade, a patine das noites em claro, das noites mal dormidas, das vidas sem horário... Ao lado de Mussolini uma máquina de escrever, fábrica da sua ação. Por toda a sala tapeçarias guerreiras, estátuas aladas, heroísmo e vitória...

- O jornalista António Ferro?

- O mesmo que o visitou há três anos, o mesmo que levou, para a sua terra, a imagem de um grande chefe, a imagem do salvador da sua pátria!

Mussolini pergunta-me com indiferença, certo de que me faz uma pergunta ociosa:

- O que o trouxe, de novo, a Itália?

- Vê-lo e ouvi-lo...

O Ditador fita-me, com a máscara mais severa que tem ali, ao alcance dos olhos, e responde-me com fadiga, com uma ponta de enfado:

- Uma entrevista? Não... De modo nenhum. Impossível... Estou cansado, estou saturado... Há duas semanas que falo a jornalistas, a jornalistas americanos, ingleses, alemães. Tenha paciência. As entrevistas começam a mexer-me com os nervos. Fale-me de tudo, mas não me faça perguntas sobre a Itália, sobre a Europa, sobre o mundo, sobre a Lua...

Mau princípio. Olho Mussolini como olho, às vezes, a página em branco onde tenho de escrever, forçosamente, uma entrevista, uma entrevista que se nega a tomar forma...

Digo, timidamente, como quem pede esmola:

- Desejava fazer-lhe algumas perguntas que dizem respeito a Portugal...

Um raio de sol entra, como um pássaro de oiro, pela janela entreaberta e dá os bons-dias a Mussolini...

- A respeito de Portugal tem carta-branca... Pergunte o que quiser...

- Para maior precisão, eu trouxe um questionário.

- Deixe ver...

Estendo um papel a Mussolini. Mussolini agarra-o e lê-o, num relâmpago... Nesse papel escrevi as seguintes perguntas e observações:

- Apesar do seu claro desmentido, continua a afirmar-se, em Portugal, que a Itália tem pretensões ocultas sobre Angola. Gostaria de transmitir algumas palavras suas, a esse respeito, ao povo português.

- O coronel Gray acaba de fundar o fascio em Lisboa. Há quem tema a ação desse fascio. Quer dizer-me algumas palavras sobre a significação das Camisas Negras no estrangeiro?

- Há nuances doutrinárias no fascismo?

- O fascismo pode marchar sem o seu chefe?

- O fascismo é um movimento popular ou intelectual?

- A revolução não foi suficientemente violenta para inutilizar os seus adversários?

- O fascismo encontrou a sua fórmula definitiva?

Mussolini repele, com energia, os boatos relativos às inverosímeis pretensões da Itália sobre Angola

Mussolini, depois de ler este programa, este programa que sempre contou ser alterado por motivos previstos, dobra-o pela altura da primeira pergunta e restitui-mo com estas palavras desanimadoras, com este "indeferido" que parece sem apelo:

- Só posso responder-lhe à primeira pergunta. Diga a Portugal, através do Diário de Notícias, que tudo quanto se tem dito acerca das absurdas pretensões da Itália sobre Angola é fantástico e ridículo!!! Acentue bem: fantástico e ridículo! Os inimigos do fascismo empenham-se, constantemente, em provocar mal-entendidos entre a Itália e as nações que ela mais estima. Umas vezes é com a França, outras vezes com a Inglaterra, outras vezes com a Turquia, etc. Agora é com Portugal. Já alguém me ouviu uma palavra a respeito das colónias portuguesas? Já disse ou escrevi alguma coisa onde se possa ver ou adivinhar um pensamento menos claro, menos sincero, sobre Portugal e as suas possessões?... Então para que insistem, para que me fazem perder tempo?

Respiro... A entrevista está salva. Estas palavras desassombradas e leais, ditas com vibração, com indignação, podiam bastar-me, podiam justificar o enviado especial... Mas o Sol é meu cúmplice, o Sol é camarada, o Sol, que enche de sorrisos a máscara de Mussolini, ensina-me todas as audácias...

Declarações sobre o fascio de Lisboa

Frente a frente ao Ditador, de pé, sempre na atitude de quem vai retirar-se, atiro, sobre a secretária de Mussolini, esta lamentação hipócrita:

- Tenho pena de que não queira dizer-me nada sobre o fascio de Lisboa... Gostaria de desmanchar uma campanha que se esboça...

Mussolini, que não abandona a posição de combate, que, tal como eu, se mantém de pé, na ameaça constante de me pôr na rua, começa a falar, primeiro com indiferença, depois com interesse, por fim com entusiasmo.

- A instituição dos fascios, nas grandes cidades do mundo, foi decidida numa grande conferência que se realizou em Roma e onde compareceram fascistas de toda a parte. Até vieram da China... As bases, com que se organizaram esses núcleos, foram redigidas pelo meu punho. A primeira dessas bases, justamente, é o máximo respeito pelos costumes e pelas leis de cada país. Os fascios, instalados aqui e além, nada têm que ver com a política da nação onde vivem. É o seu primeiro dever e a sua primeira condição de existência. O seu principal fim é fazer conhecer a Itália aos estrangeiros... Todos sabem de cor o nosso passado. Todos, ou quase todos, ignoram o nosso presente. Pensarão acaso - e Mussolini aponta-me com um dedo imperioso uma tapeçaria que eu não chego a ver - que nós perdemos tempo a olhar para as tapeçarias, a olhar para trás... Em Itália, a começar por mim, trabalha-se, trabalha-se a valer, pela família e pela pátria. Pois ignora-se ainda que nós possuímos uma das maiores fábricas de automóveis do mundo, com uma produção diária de trezentos carros, fábricas de sedas, como não há outras, uma hidráulica que o mundo, se a visse, nos invejaria? Se o esforço da Itália fosse reconhecido, em todos os seus arrancos, talvez não houvesse tantos preconceitos, tantas calúnias, tanta má vontade contra nós, talvez se convencessem de que a Itália tem de ser olhada a sério, de que a Itália é uma pátria viva, uma pátria que marcha. Outra intenção das Camisas Negras de Lisboa, das Camisas Negras de todo o mundo, é criar um espírito fascista entre os italianos que vivem longe da sua terra. É preciso opor uma força nacional, verdadeiramente nacional, uma força calma e serena, à força dos traidores que nos insultam, constantemente. Os fuoroseiti causam-nos, por vezes, bastantes embaraços, não ao regime, que nada sofre com as suas miseráveis campanhas, mas às boas relações da Itália com a Europa, com o mundo... A terceira intenção dos fascios, que se estão erguendo no estrangeiro, é uma intenção de beneficência, de caridade. Procura-se ajudar os italianos desamparados, necessitados... Só isto. Não tenham medo, portanto. Os americanos, ao princípio, quando apareceram as primeiras Camisas Negras, não esconderam a sua inquietação, o seu receio. Essa inquietação era justificada numa pátria onde há sangue de todas as raças e onde um movimento, de carácter nacionalista, pode constituir uma ameaça... Mas todas as apreensões desapareceram perante a disciplina, a ordem e o espírito pacífico dos fascistas. Hoje, as bandeiras americanas vão sempre ao lado das nossas bandeiras... Ainda, há pouco, a municipalidade de Filadélfia passou revista a uma grande parada de fascistas. Que Portugal, que todos os países, se tranquilizem. As Camisas Negras não podem nem querem assaltar o poder das terras hospitaleiras onde vivem...

Federzoni

Instintivamente, dobro o papel, que amachuco, pela altura da segundo pergunta a que Mussolini já respondeu, largamente... E digo a seguir, com o melhor sorriso, com o sorriso mais "fascista" que eu posso arranjar:

- Para a sua defesa, para defesa da Itália nova, gostaria bastante que me dissesse se há nuances doutrinárias no fascismo...

Mussolini não resiste, não tem coragem, como bom fascista, de me deixar com essa dúvida...

- Não! Não há nuances! Nunca as houve! Quer uma prova? Estamos constituídos há oito anos e nunca tivemos necessidade de congressos para discutir as nossas opiniões...

- Não há nuances, mas há individualidades...

- Diga antes: não há nuances, mas há temperamentos... Uns são moderados, outros contemplativos, outros mais calorosos... Mas nem podia ser de outra maneira. Os fascistas, que formam um milhão, vieram de toda a parte, do comunismo, dos partidos políticos, da indiferença... Há ainda os que vieram da guerra e não sabem mais nada... São, talvez, os melhores... É preciso contar, também, com as formações diferentes, com as educações diversas. Mas todos nos entendemos sobre seis ou oito palavras: Estado, Nação, Autoridade, Igreja, Rei, Disciplina, Trabalho, Família... Não, não confiem, para nos vencerem, nas nossas falsas discordâncias. Federzoni, por exemplo...

Apuro o ouvido. Tenho a impressão deslumbrante de que me saiu a sorte grande do Natal num bilhete, num bilhete-de-visita...

- ... que, lá fora, pretendem apontar como um moderado, como um homem que está à margem do fascismo, foi, e continuará a ser, um dos meus colaboradores mais valiosos. Tive, tenho e terei sempre a maior confiança nele. As melhores leis do fascismo pertencem-lhe. No dia em que me entregou a pasta do Interior, entregou-me, também, alguns diplomas, que ficarão ligados, para sempre, à vida do fascismo... Não, não tenham essa esperança... Não há dissidências entre nós. E mesmo que as houvesse, quando eu digo "É assim!", ninguém mais discute...

O fascismo é imortal

Mussolini põe uma grande força, uma grande violência, nas últimas palavras. É o Ditador, é o chefe que eu tenho diante de mim, neste momento. É toda a história do fascismo que eu folheio no olhar agudo e penetrante de Mussolini. É toda a sua autoridade que eu respiro, que eu sinto sobre mim, nos dedos vagamente separados, inteiriçado, na mão espalmada, que baixa como um cutelo, que cai sobre a secretária, como uma ordem seca... Não se pode escapar à fascinação, ao prestígio deste homem raro, desta força da Itália, desta força da natureza, esculpida por si própria. A cabeça de Mussolini, voluntariosa e firme, cabeça de selo ou de moeda, cabeça modelar de César e de chefe, vê-se, no entanto, que saiu da terra, que saiu do povo, que foi trabalhada - a escopro, a martelo, pelas mãos hercúleas de Mussolini, ditador da Itália, ditador de si próprio, ditador do seu corpo e da sua alma!

Mussolini escolheu já os seus sucessores

A terceira pergunta do questionário, do questionário que Mussolini desprezou, que me devolveu, feito bola de papel, está respondida. Passo, habilidosamente, à terceira:

- Começa agora a dizer-se que o fascismo é um regime artificial, que depende da vida do seu chefe, que desaparecerá quando ele desaparecer...

Mussolini indigna-se. Os seus olhos enormes, violentos, que sobem e descem, que ficam, por vezes, desnivelados, cercam-me, atacam-me, caem sobre mim como pedras...

- Quem o pode afirmar, com sinceridade? É preciso não conhecer a organização formidável do fascismo, é preciso ignorar que temos um milhão de alistados, que o nosso exército tem seis mil oficiais, para sustentar essa monstruosidade... Tudo isso desaparecia de repente, por um alçapão? E o ideal que nós criámos? E a mística que entrou, para todo o sempre, na alma da nação? O prestígio é meu, só meu? Pois bem. Ele se manterá depois da minha morte!... Tudo está combinado. Os meus sucessores estão escolhidos! E quando se souber que fui eu que os designei eles serão obedecidos como eu tenho sido... Descansem! Ninguém pensará em contrariar a minha última vontade...

A ditadura do Além

Mussolini proclama a sua ditadura para além da morte, com um gesto largo e firme, com o gesto de uma estátua, com o gesto eterno do comando... Belo espetáculo, espetáculo emocionante, cheio de beleza e de força, o de Benito Mussolini a preparar, a traçar a sua ditadura do Além...

Mussolini já não se defende de mim. Continua de pé porque o momento é um momento de ascensão, porque as suas frases voam, porque as suas frases altivas o obrigariam a levantar-se se já estivesse sentado...

- Alguns fascistas pensam que a revolução não foi suficientemente cruel para destruir os seus adversários. Que lhe parece?

- Uma grande revolução, uma revolução nacional, não deve fazer-se contra os indivíduos, que nada são, mas contra certos preconceitos, contra uma determinada atmosfera política, contra instituições, contra sistemas. Nesse ponto, a revolução fascista foi violenta, bastante violenta. E mesmo no combate, no corps-à-corps, o sangue, de parte a parte, não deixou de correr, mais, talvez, do que era necessário. Agora estou tranquilo. Quase não há antifascistas na Itália. Os poucos que ficaram por cá exteriorizaram-se, às vezes, em manifestações ridículas, como essa dos soldi, que consistia em trazer, na lapela, uma moeda de cinco cêntimos. Mas tudo isso se desmancha com algumas medidas de polícia...

Durar!

- Quem viaja, efetivamente, tem a impressão de que só há fascistas na Itália. O exílio dos antifascistas tem, porém, os seus inconvenientes. São os antifascistas que desacreditam o fascismo na Europa, são eles que fazem o barulho, que formam e mantêm uma atmosfera de desconfiança em volta da Itália...

Mussolini responde-me, com tristeza:

- Tem razão, mas que fazer?

Há um momento de silêncio, um momento em que Mussolini me esquece, em que eu desapareço e ele fica só, como na proa dum barco, em frente da Europa, em frente do mundo. Sem olhar para mim, com os punhos cerrados, com uma atitude clara de desafio, Mussolini exclama:

- Só há uma solução e uma resposta: durar! Durar! Durar eternamente! E já há muito - é isso que lhes dói - que nós duramos! Sobrevivemos a MacDonald, a Lenine, aos socialistas alemães, ao parlamentarismo espanhol, ao Cartel! E havemos de continuar, estejam certos! Tudo cairá por terra! Tudo beijará o pó! O fascismo será eterno, eterno como a Itália, eterno como um monumento, como uma pirâmide!

A grandeza de Mussolini

Ah! perdoem-me o entusiasmo - o entusiasmo indispensável ao jornalista que deseja empolgar os seus leitores -, mas eu não posso deixar de dizer a verdade, a verdade que me corre dos bicos da pena como a água duma fonte... Mussolini é grande, seja qual for a sua grandeza, seja qual for o seu orgulho!

Riam à mesa dos cafés, sobre esta crónica, húmida de emoção, os céticos, os desdenhosos, os que não sabem admirar porque não sabem ter fé! Mas façam as malas, venham a Roma, falem a Mussolini, e lembrem-se, depois, das minhas palavras. Seja qual for opinião que se tenha sobre Mussolini, seja qual for o culto ou o ódio com que ele for olhado, não se pode deixar de ter um frisson perante a sua figura de animador, perante o arcaboiço deste homem do povo que encontrou, um dia, à sua porta, a Itália caída, a Itália desmaiada, e a ergueu, bem alto, nos braços, nos seus braços possantes, musculosos, que não a largaram mais...

Uma tentativa falhada

Depois do voo, a aterrissagem. Mussolini, que falou mais para si do que para mim, repara, bruscamente, que eu tenho ouvidos e que já me respondeu a quase todo o questionário... Quer emendar a mão, voltar a trás:

- Para a entrevista é só o que eu lhe disse a respeito de Portugal... O resto é para seu uso próprio...

Que Mussolini, que já foi jornalista, me perdoe. Assim como ele só se lembrou, no final, de me pedir segredo, assim eu, só depois de ter escrito a crónica quase toda, me lembro da sua recomendação... Mussolini, que é um construtor, não deseja, com certeza, que eu destrua, num momento, o trabalho de algumas horas...

O amor do Duce por Portugal

Mussolini repete-me, agora, batendo as sílabas, olhando-me bem, procurando transmitir-me, letra a letra, vírgula a vírgula, a sua convicção, a sua sinceridade, o que já me tinha afirmado, no começo da entrevista, a respeito de Portugal:

- Diga, no Diário de Notícias, que eu estimo, sinceramente, o povo português, que compreendo a sua língua, como o italiano, que conheço muito bem, em todas as suas páginas, a brilhantíssima história de Portugal, que admiro, profundamente, a sua literatura... Tudo quanto se insinue sobre as intenções da Itália a respeito das colónias portuguesas, intenções claras ou disfarçadas, repito, é fantástico e ridículo! Nem compreendo esse temor. As colónias não se apanham assim facilmente...

E Mussolini tem um gesto circular, o gesto, por exemplo, de quem apanha moscas...

A colonização da Tripolitania

Insisto, para que o assunto fique esclarecido, de uma vez para sempre:

- Mas não há nada sobre emigração italiana, sobre possíveis explorações agrícolas em Angola?...

Mussolini responde-me com desassombro e franqueza, sem o menor embaraço, sem a menor confusão:

- Efetivamente, pensou-se em tentar uma exploração agrícola nos planaltos de Angola. Dirigíamo-nos às colónias portuguesas como nos podíamos dirigir às colónias belgas, francesas ou inglesas. As autoridades portuguesas deram-nos todas as facilidades. Mas desistimos. Angola é uma colónia riquíssima mas está muito longe. As despesas seriam enormes. Voltámo-nos para a Tripolitana, que será desenvolvida e colonizada, vertiginosamente. Quer ver?

O arquiteto

Mussolini, neste momento, deixou de ser o chefe, o ditador. É um homem do mundo, amável, íntimo, sorridente, sem atitude. É um camarada que fala a outro camarada, é o jornalista, que mostra a sua última crónica ao jornalista, o dramaturgo que revela, ao dramaturgo, o seu último ato. Dirige-se para uma pequena mesa que está perto da sua secretária e descobre um rolo atrás duma pilha de livros. A descoberta faz cair alguns papéis. Vou levantá-los... Mussolini quebra-me o gesto e é ele próprio que se baixa. Este homem, afinal, também sabe baixar-se... Todo o homem forte, na verdade, deve saber levantar o que deixou cair.

Desdobra, agora, o grande rolo sobre a secretária, um rolo que gera vários rolos... São plantas, cartas, projetos, é o sonho da Itália...

- Veja! Todas essas casas, todas essas plantações, começam a germinar. Não é o desejo. É uma certeza. O homem, que está à frente de tudo isto, que tem o volante desta iniciativa, fez construir, há pouco, em Tiaregio, um grande hotel, em cento e quarenta dias...

O gesto de Mussolini é a apoteose da entrevista. Depois do combate, depois do temporal, a manhã que rompe, a Itália nova que se levanta, pedra a pedra, flor a flor, árvore a árvore... Mussolini debruçado sobre os mapas, ausente de mim, perdido na estrada do futuro, deixou de ser o demolidor, o demolidor de ruínas. É o arquiteto, o arquiteto duma grande pátria, um arquiteto que passa a vida nos andaimes...

Sentido!

Mussolini senta-se, finalmente, vencido, para autografar dois retratos, um para mim, outro dirigido a Portugal, através do Diário de Notícias. Eu continuo de pé, heroicamente. A minha entrevista com Mussolini, onde procurei não perder uma palavra, um ponto, uma expressão, foi uma entrevista de calcanhares unidos, uma entrevista em sentido!

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Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.