Entre a geringonça à italiana e a fé (ou ódio) em Berlusconi

Quase todos acreditam que a coligação de direita, que junta Força Itália, Liga Norte e Irmãos de Itália, vai ganhar. Mas também duvidam que consiga a maioria. O DN foi ouvir cinco italianos que vivem em Portugal sobre as eleições de hoje. As respostas incluem sempre a desilusão com Matteo Renzi e a inevitabilidade de Berlusconi ter uma palavra a dizer,

O consulado de Itália no número 409 da rua da Restauração no Porto é como uma segunda casa para o general Angelo Arena. Cônsul Honorário entre 2004 e 2012, ainda hoje passa muito do tempo ali, na Associação Sócio Cultural Italiana de Portugal Dante Alighieri. Entre concertos, exposições e conferências, a associação oferece ainda cursos de italiano e, claro um sítio para as suas duas centenas de sócios (30% deles portugueses) conviverem. É ali, onde as paredes do gabinete forradas de fotografias de aviões - tema que se repete na gravata vermelha - recordam o passado de piloto de caça e a longa carreira na Força Aérea, que o general Arena fala com o DN sobre as eleições de hoje em Itália. E depois de sublinhar como o seu é "um grande país" e de se mostrar otimista quanto ao futuro, lá admite que a situação política " é complicada".

Para o militar, a vitória da coligação de direita que junta o Força Itália de Silvio Berlusconi, a Liga Norte de Matteo Salvini e os Irmãos de Itália de Georgia Meloni não deixa grandes dúvidas. O que parece certo também é que dificilmente conseguirá uma maioria capaz de garantir um governo estável. "Depois das eleições vai ser difícil para o presidente" Sérgio Mattarella, afirma Arena. O general está convencido que uma das soluções possíveis passa por uma aliança entre a direita e o Livres e Iguais do ex-juiz Pietro Grasso. "Ele já disse que tem disponibilidade para se aliar com Berlusconi ou com Renzi", explica.

Chegado a Portugal em novembro de 2001 por amor - conheceu a mulher, Maria do Céu Pinto, professora na Universidade do Minho, em 2000 em Paris -, o general Arena confessa hoje a admiração pela pátria de adoção, destacando as "pessoas acolhedoras" e, claro, a comida. Mas nada chega à sua "amada Itália", garante este homem nascido na Sicília. E se hoje não acredita na vitória do Partido Democrático, o general Arena confessa ter gostado da forma como Matteo Renzi, quando chegou ao poder em 2014 " apresentou Itália à Europa como uma potência". "Gostava do Renzi, era jovem, tinha energia. Pensei que era bom uma mudança", confessa, destacando como a Itália como um todo viveu um "momento de entusiasmo" quando Renzi substituiu Enrico Letta à frente do executivo. Mas, admite, "algumas coisas não funcionaram". E destaca a reforma constitucional que teria preferido mais radical: "Na minha opinião era melhor ter cortado logo o Senado".

Neste momento, o general Arena mostra-se mais convencido com o atual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni. O antigo chefe da diplomacia, que sucedeu a Renzi quando este se demitiu após o referendo de dezembro de 2016, é de longe o líder mais popular nas sondagens. Talvez porque, afirma o militar, "é uma pessoa com uma postura mais tranquila. Mas ao mesmo tempo é eficiente. Está a continuar o programa de Renzi mas com decisão". E não exclui ver o atual chefe do governo manter-se no cargo se o PD ganhar, apesar de oficialmente ser Renzi o candidato.

Entre um telefonema e o outro, o general Arena intercala a sua visão sobre as eleições com uma avalanche de informações sobre a associação. "Ah, também temos um curso de cozinha", lembra-se de repente, antes de falar no concerto dos irmãos Stefano e Francesco Parrino a 23 de março no Ateneu Comercial. Um evento que a ASCIP também ajudou a organizar.

De volta à política, uma área, lembra, em que a lei italiana não permite aos militares envolver-se ativamente, confessa que em caso de vitória da direita o mais inaceitável seria ter Salvini como primeiro-ministro. Um cenário que parece afastado caso o Força Itália seja o partido mais votado dentro da coligação de direita, com Berlusconi (impedido pela justiça de ser o candidato) a ter escolhido António Tajani, o atual presidente do Parlamento Europeu, para chefiar um seu governo. Mas se a Liga for a mais votada, o que algumas sondagens admitiam, ter Salvini como primeiro ministro "seria um passo atrás para a nação. É muito radical. Não é possível em 2018 assumir aquelas ideias", diz o general.

O Movimento 5 Estrelas também o deixa cético. Partido mais votado - fora de uma coligação -, o movimento criado em 2009 por Beppe Grillo tem em Luigi Di Maio o candidato a primeiro - ministro. Mas com apenas 31 anos, o general admite que lhe pode faltar a experiência necessária para governar Itália. E os exemplo de governação do 5 Estrelas, por exemplo à frente de cidades como Roma ou Turim, não foram muito positivos. Talvez por isso, lembra o militar, Di Maio esteja agora a ir buscar "pessoas competentes nos vários sectores" para fazer "um governo de técnicos". A ideia até pode ser "não ser um mau princípio", mas para o general, um ministro "tem de ter uma visão mais abrangente". E dá o exemplo da Defesa: "não acho que o ministro deva ser um militar. Por vezes os técnicos gostam demasiado da própria técnica. O ministro tem de ser uma pessoa de bom senso, equilibrada, capaz e refletir sobre os prós e os contras".

Seja qual for o resultado quando as urnas fecharem, hoje às 23.00 (menos uma hora em Lisboa), Arena sublinha a capacidade do povo italiano para funcionar no meio das crises. "Itália tem os recursos humanos e materiais para encontrar, depois destas eleições, a melhor solução para os vários problemas do país", garante.

Mais complicado que um labirinto

Nos últimos anos a comunidade italiana em Portugal viu os seus números explodir. Muito graças à vinda de pensionistas atraídos pelos benefícios fiscais oferecido pelo Estado português, mas também de jovens empreendedores. Mas é outra a história de Francesco Franco. Ele veio para Lisboa em 2004, depois de conhecer a mulher, portuguesa, nos Estados Unidos, enquanto estudava no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Sentado no seu gabinete na Faculdade de Economia da Universidade Nova, o professor não consegue olhar para as propostas dos três principais partidos italianos sem invocar a palavra "surreais". Afinal os peritos calculam que o défice de Itália dispararia para os 56 mil milhões de euros se o PD cumprisse o programa mas poderia chegar a uns astronómicos 310 mil milhões - ou 17% do PIB - se fosse a coligação de direita a vencer. Em caso de vitória do 5 Estrelas, que apresentou contas próprias com défice zero, os cálculos apontam que este poderia chegar aos 68 mil milhões. "É assustador", admite. E recorda quando há cinco anos foi à televisão comentar as eleições da altura: "Usei a a palavra labirinto, mas desta vez é mais complicado do que um labirinto".

Passados quase 14 anos sobre a sua chegada a Portugal, é num português quase perfeito que Francesco confessa não estar a pensar regressar definitivamente ao seu país. Nascido em Milão, onde a mãe estava a estudar, entre os oito e os 18 anos viveu em Genebra na Suíça e depois da passagem pelos EUA confessa que a adaptação a Portugal não foi fácil. Sobretudo a língua. "Temos de desmistificar o facto de o italiano ser muito parecido com o português. Não é verdade. Ler o português era fácil, falar foi uma complicação", ri-se agora. E agradece o facto de na Nova o inglês ser a língua de trabalho.

Quanto a Itália, para já fica-se pelas visitas frequentes à casa de família em Veneza. Mas segue a política e garante que há no seu país "um clima quase anestésico", no sentido, explica "em que não há verdadeiramente vontade que uma parte ganhe". O resultado, diz, pode ser "um governo pseudo técnico, do presidente. Estou a falar do atual primeiro-ministro ficar, com apoio parlamentar heterogéneo. Que no fundo é um pouco o que se passa em Portugal". Ou seja, uma geringonça à italiana? Sim, diz o professor, "uma geringonça diferente" mesmo se em italiano "não temos uma palavra com uma sonoridade tão simpática".

Ora olhando para as últimas sondagens - a lei italiana proíbe estudos de opinião 15 dias antes das eleições - se a coligação de direita deve vencer, dificilmente chegará aos 40% que permitiria um governo estável de acordo com a nova lei eleitoral. O PD, mesmo com os aliados de esquerda deve ficar longe da maioria. E o Movimento 5 Estrelas, que até agora tem recusado qualquer coligação, apesar de ser o partido mais votado, também deve ficar longe.

Para Francesco, a aliança mais provável caso ninguém consiga a maioria, seria entre Força Itália e PD "que no fundo é o que está a sustentar o governo agora".

Sobre as principais figuras destas eleições, Francesco admite que Renzi "fez um bom trabalho no início do mandato", mas, sublinha, "tem o seu caráter, tem uma personalidade que puxa ser protagonista e não deixou muito espaço aos outros". Quando ao futuro, vê mais facilmente Gentiloni à frente da tal geringonça do que Renzi. Mas falar de Itália nos últimos 25 anos é inevitavelmente falar de Berlusconi e aqui Francesco não esconde o desagrado. "É uma personagem inacreditável. Mas neste momento é quase indispensável", admite. Por fim, o 5 Estrelas que confessa não saber exatamente como classificar. "Não há uma matriz ideológica. Isso pode ter um poder de atração", explica o académico.

A força de Meloni

Teresa Lancia também acha que o 5 Estrelas é a grande incógnita hoje. E admite ser "assustador", até porque "este Di Maio, não tem espessura", explica. A advogada nascida em Roma está convencida que a direita vai ganhar e que a esquerda vai sofrer "uma derrota histórica". No seu gabinete da Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, cujas imagens nas paredes prestam homenagem à sua cidade natal, Teresa define-se como uma mulher "mais de esquerda". E confessa a sua profunda desilusão com Matteo Renzi. "Os italianos acreditaram nele de boa-fé. Depois foi esta mistura com os bancos, uma situação pouco transparente. Mas deve haver alguém por trás dele. Que tutela e protege o menino", afirma.

Chegada a Portugal em finais dos anos 90, depois de conhecer "um rapaz português", numas férias em Sevilha, Teresa estranhou muito. E diz que ainda hoje está a aprender "o código social muito complexo" que diz ser o dos portugueses. Não foi só a língua que lhe provocou dificuldades, foram muitas daquelas convenções sociais que para um português são implícitas mas que um estrangeiro tem de aprender para não cometer erros. E até as relações entre homens e mulheres são diferentes, garante. "Os homens italianos gostam de mimar as mulheres, têm mais conversa. São mais sedutores. Gostam de seduzir. Os portugueses dão como jogo já feito".

Há uns anos, a advogada chegou a regressar a Itália, quando a relação acabou, mas razões profissionais trouxeram-na de volta e hoje diz não ter planos para voltar a viver no seu país. Criada numa família que, como a larga maioria no pós-II Guerra Mundial em Itália, votava na Democracia Cristã, Teresa confessa que para ela Berlusconi é "o anticristo". "É voltar à estaca zero. Todo o trabalho feito em Itália pelas feministas foi completamente anulado através de Berlusconi. E a imagem que transmitia da mulher era terrível", exclama.

Esse lado feminista talvez explique porque, apesar de se definir como de esquerda, não esconda a admiração por Giorgia Meloni. Aos 41 anos, a líder dos Irmãos de Itália "tem uma força, uma energia, uma vontade diferentes", explica Teresa Lancia. E lamenta que por ser de direita ninguém fale nela e tenha a imprensa contra. "Eu acredito muito nesta Meloni. Embora de direita. Tem programa, ideias claras. E transmite claramente o que quer. Algo terá de mudar e espero que a mudança seja feita por pessoas novas", remata.

Voltar a poder dizer-se de esquerda

Portugal nunca tinha estado nos planos de Massimo Mazzeo. O próprio o confessa sentado a uma mesa do Instituto Goethe no Campo Mártires da Pátria em Lisboa, não muito longe da embaixada de Itália. Nascido em Trento - "Bela terra alpina. Muito rica, onde tudo corre bem. É como a Suíça só que mais simpática", brinca - mas filho de pai siciliano e mãe natural de Pisa, o músico gosta de dizer que afinal "é italiano". Foi a música que o trouxe a Portugal. Primeiro tentou o Norte da Europa onde "as condições de trabalho são melhores, onde residem as grandes orquestras" mas o homem que se define como "cidadão do mundo" depressa percebeu que "sempre que lá ia, ao fim de um mês queria voltar para casa". Mas regressar a Itália não foi então, como continua a não ser hoje, uma opção. Por isso em 1998 decidiu finalmente aceitar os repetidos convites dos amigos portugueses para os visitar. Era o ano da Expo e aproveitou o facto de haver mais oportunidades profissionais. "Como se vê, ainda estou de visita", continua na brincadeira, com esse sentido de humor que confessa lhe ter valido algumas críticas quando chegou.

Hoje o maestro, fundador com a mulher, a violinista búlgara Iskrena Yordanova, da orquestra barroca Divino Sospiro, olha para as eleições no seu país com alguma desilusão. "Costumo dizer que gostava mesmo com toda a sinceridade e coração de voltar a dizer que sou de esquerda. A esquerda em Itália é uma das anedotas mais incríveis", explica. Destacando que Itália "sempre foi o país do compromisso, do bloco central", Massimo confessa ainda a sua desilusão com Renzi. "Ele queimou por completo um património que tinha nas mãos", afirma o maestro, antes de acrescentar que o agora candidato do PD: "Teve boa atitude, boas ideias. Era dinâmico, jovem. Depois foi completamente desfeito por si próprio e pela máquina do poder que começou a trabalhar contra ele".

Admirador declarado do ex-primeiro ministro Romano Prodi, cujos filhos, também músicos, conhece pessoalmente, e que garante ser "uma pessoa muito honesta", Massimo lamenta que nos últimos anos em Itália os chefes de governo se sucedam, muitas vezes sem haver eleições pelo meio. "Berlusconi só pode ganhar. Um país que tem três governos sem eleições! Governo técnico com Mário Monti, depois Letta, depois Renzi. Não houve eleições. É o país do inenarrável!", exclama.

Aos 81 anos, Berlusconi pode não ser candidato mas é a ele que todas as conversas vão dar. "Berlusconi é um senhor que podia ter ido para a prisão várias vezes. Não foi. Mas tinha ideias, tem uma política. Está sempre rodeado de pessoas com uma visão política", admite Massimo. E até confessa ter chegado a pensar votar nele. Mas não conseguiu. E acabou por pender para o lado oposto, dando o voto - por correspondência, como o resto da diáspora italiana - a Emma Bonino e ao seu +Europa. "Dentro desta loucura toda, a única que teve sempre uma vida coerente foi Emma Bonino. Como comissária europeia, como ministra, foi sempre fiel aos seus ideais. Os mesmos há 50 anos. Que tenham sido demasiado utópicos, tudo bem. É uma radical. Mas lutou por coisas que hoje para nós são dados adquiridos", sublinha.

Pouco convencido com o 5 Estrelas, crítico de Di Maio - "tem uma mão do Beppe Grillo atrás das costas, do ventríloquo. Imagina se o primeiro ministro fosse ele? Seria o delírio completo!" -, Massimo admite que com Gentiloni começou a ver "uma pequena renovação". E não descarta a hipótese de o atual primeiro-ministro ficar à frente do governo se ninguém tiver maioria. Mas "não resolve o problema".

Sem alternativa a Berlusconi

Marco Mussini gosta de dizer que nasceu a "respirar pó de cerâmica". Natural de Sassuolo, na província de Modena, capital mundial da cerâmica, foi precisamente o negócio da família que o trouxe a Portugal. "O meu pai fundou o grupo onde eu trabalho agora. Comecei a trabalhar na empresa da família, a cerâmica Panaria, logo depois de terminar os estudos em Economia na universidade de Modena", conta, sentado na esplanada do Caffé Bar Garibaldi, em Campo de Ourique. Marco está de passagem por Lisboa, mas a sua vida é em Aveiro, onde preside à empresa Gres Panaria. Quando em 2002 o grupo da família fez a primeira aquisição de uma entidade industrial no estrangeiro foi em Ílhavo. E Marco decidiu tentar a sua sorte. Quando estavam a decidir quem devia liderar esse projeto, levantou o braço. Os irmãos, ri-se, aplaudiram. São quatro rapazes e uma rapariga. Só ela, apesar de sócia, não trabalha na empresa familiar.

Passaram mais de 15 anos e se no início foi um choque - "cheguei ao aeroporto com um dos meus irmãos. Ligámos a rádio e lembro-me de dizer: isto é polaco!", brinca - hoje gosta tanto do trabalho como do país. Foi cá que nasceram os dois filhos mais novos. Tem quatro: "dois rapazes e duas raparigas". E voltar é uma possibilidade, mas também não exclui ficar por cá.

Para já, aceitou falar com o DN sobre as eleições no seu país. E garante sem rodeios: "Sou um homem de centro-direita. Berlusconi". Admiração de empresário por outro empresário? Sim, "é um empresário. Um homem muito falado, que nem sempre fez tudo certo, mas fez muita coisa boa para Itália. Volto a votar em Berlusconi porque não vejo alternativas interessantes".

Também ele, como muitos italianos teve a "ilusão do Renzi". E a consequente desilusão. "Apesar de ele ser de esquerda, era uma esquerda moderada. Eu também poderia votar numa pessoa como Renzi, com os ideais dele. Mas foi uma desilusão. Sabe falar bem mas às vezes acho que não sabe o que diz. Não tem substância".

Sobre o 5 Estrelas, Marco Mussini lembra que "está a encontrar o apoio na insatisfação do povo. É um trabalho fácil de fazer. Mas quando é preciso dar provas e quando foi preciso governar uma cidade - no caso Roma - demonstraram não ser capazes de gerir nada".

A grande dúvida é se alguém vai conseguir os ambicionados 40% que garantem a governabilidade. O empresário admite que pessoalmente não está "à espera que as eleições tragam grandes soluções. Infelizmente, a política italiana mostrou não ser um bom exemplo. O nosso país funciona porque há um povo trabalhador, com bons empreendedores. Independentemente da política", diz. E deixa um desejo: "Gostaria que Itália voltasse a ter uma imagem diferente no mundo. Mais dinâmica, mais limpa, mais jovem". Um pouco, diz, como Portugal fez nos últimos anos.

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