Enterro e homenagem a vereadora assassinada reúnem multidões no Brasil

O enterro e os atos em homenagem à ativista dos direitos humanos e vereadora da Câmara Municipal do Rio de Janeiro Marielle Franco que estão a decorrer hoje em várias cidades do Brasil reúnem milhares de pessoas.

A ativista foi enterrada no início da noite de hoje no Cemitério São Francisco Xavier, localizado no bairro do Caju, na zona Portuária do Rio de Janeiro, onde uma multidão acompanhou o caixão para homenageá-la, gritando as palavras de ordem "Marielle presente".

Em frente à Assembleia legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), milhares de pessoas foram filmadas pela rede de televisão GloboNews durante em vigília.

Outra multidão concentrou-se também em frente da Câmara Municipal do Rio e Janeiro, local onde o corpo de Marielle Franco foi velado.

Em São Paulo, um ato organizado na Avenida Paulista, denominado "todas e todos nas ruas por Justiça e contra o genocídio da população negra", reúne desde às 17:00 (20:00 em Lisboa) milhares de ativistas e pessoas na frente do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Também aconteceram atos em Brasília, Belo Horizonte e outras capitais brasileiras.

A vereadora Marielle Franco, nascida e criada na favela da Maré militava em um partido de esquerda, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi assassinada, juntamente com o motorista Anderson Gomes, na noite da última quarta-feira, depois de participar num encontro com mulheres negras.

A vereadora foi atingida por quatro tiros na cabeça, dentro do carro em que viajava. O motorista do veículo também tem morte imediata. Uma assessora de imprensa que estava no carro ficou ferida por estilhaços de vidro, mas escapou com vida.

As autoridades brasileiras investigam a hipótese de que o crime ser uma execução, acreditando que o carro usado pela vereadora foi seguido durante quatro quilómetros até o crime ser cometido.

Os investigadores informaram, porém, que ainda não há nenhum suspeito.

O assassinato da vereadora Marielle Franco gerou grande comoção no Brasil e também no exterior.

O Presidente brasileiro, Michel Temer, usou a rede social Twitter para afirmar que o crime foi um "ato de extrema cobardia".

No Facebook, a filha de Marielle escreveu: "Mataram minha mãe e mais 46 mil eleitores! Nós seremos resistência porque você foi luta! Te amo!"

As reações viram-se nas ruas e também nas redes sociais. O humorista Gregorio Duvivier registou em vídeo as homenagens e partilhou-as no Twitter.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse, após uma reunião com o general Walter Souza Braga Netto, que comanda a intervenção federal na segurança pública do Rio e Janeiro, que irá acompanhar pessoalmente a investigação do caso até que ele se encerre.

"Nós vamos encontrar e vamos punir os responsáveis por este bárbaro crime. Pelo tempo que for necessário, pelo custo que for necessário, vamos fazer Justiça à vereadora que tombou por crime", declarou.

O deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo, que lançou e apoiou a candidatura de Marielle Franco na câmara municipal 'carioca', afirmou que o crime tem "características nítidas" de execução e que o assassinato dela foi "um crime contra a democracia".

A procuradora-geral da Republica do Brasil, Raquel Dodge, declarou que "não faltarão recursos e meios para o desvendamento deste crime contra uma importantíssima defensora dos direitos humanos no Rio de Janeiro".

Organizações internacionais que trabalham em prol dos Direitos Humanos também condenaram publicamente o assassinato da vereadora brasileira.

A organização não governamental Human Rights Watch (HRW) afirmou que "é preciso pôr fim, de uma vez por todas, ao clima de impunidade no Rio de Janeiro, que alimenta o ciclo de violência. Marielle e Anderson são as últimas vítimas, dentre muitas, de um sistema de segurança falido".

A porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Liz Throssell, também divulgou uma nota em Genebra na qual a ONU condena "o profundamente chocante assassinato no Brasil da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e de seu motorista".

Já a Amnistia Internacional destacou que "as autoridades [do Brasil] não podem aceitar e deixar que defensores e defensoras dos Direitos Humanos sejam mortos e os seus assassinos fiquem impunes."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.