Encontros secretos de Temer levantam suspeitas em Brasília

Depois de conversar às escondidas com empresário corrupto no escândalo que quase o derrubou, presidente reincide nas reuniões clandestinas. Com políticos, juízes e até a futura chefe da Lava-Jato.

Uma câmara da TV Globo apanhou o momento, para lá das 22.00 de dia 9, em que Raquel Dodge, futura procuradora geral da República e por isso próxima chefe da Operação Lava-Jato, entrou no Palácio do Jaburu, onde mora o presidente da República Michel Temer. Confrontada com a imagem, Dodge disse que discutiu se a sua tomada de posse dali a 40 dias seria de manhã ou à tarde. Como um detalhe dessa natureza poderia tratar-se numa troca de emails entre os múltiplos assessores de um e de outra, o encontro adensou as suspeitas em torno do real teor dessa e de outras reuniões não divulgadas na agenda oficial, ao contrário do que a lei determina, do chefe de estado.

"A procuradora-geral terá de ser cobrada por isso pela sociedade", disse Carlos Lima, um dos procuradores do núcleo duro da Lava-Jato. "Eu também fui convidado, em maio do ano passado, a reunir-me fora da agenda com Temer e recusei", concluiu.

Raquel Dodge, tida como próxima do partido do governo, o PMDB, foi escolhida para a procuradoria-geral da República por Temer, apesar de ter sido apenas a segunda mais votada entre os seus pares, contrariando uma tradição de décadas no Planalto de se nomear o vencedor da eleição. E essa nomeação surgiu no dia seguinte a mais um controverso encontro do presidente fora de horas e fora da agenda dessa vez com Gilmar Mendes, um dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal, que teria, segundo a imprensa, aconselhado a Temer o nome da procuradora.

Temer e Mendes, aliás, reuniram-se também sem informar a agenda oficial às vésperas do julgamento do presidente da República no Tribunal Superior Eleitoral por irregularidades nas eleições de 2014. Esse tribunal é presidido por Mendes, a quem coube o voto de Minerva que absolveu Temer no julgamento. "Esses encontros são inadequados", disse à BBC Brasil o jurista Oscar Vilhena Vieira. "Muito suspeitos", acrescentou Estefania Barboza, professora de direito.

Apenas por uma vez o presidente se referiu em público ao tema. "Confesso que oiço à noite empresários, políticos e intelectuais no Planalto [local de trabalho do presidente], no Alvorada [residência oficial do presidente] ou no Jaburu [residência oficial do vice-presidente onde a família Temer prefere morar]". A declaração foi proferida em maio, como justificação para a mais controversa de todas as reuniões clandestinas - com Joesley Batista, o empresário do setor das carnes que gravou o presidente, a comprar o silêncio do ex-deputado hoje detido na Lava-Jato Eduardo Cunha, segundo o entendimento do Ministério Público.

Após o escândalo que fez a procuradoria-geral denunciar Temer por corrupção ativa, o primeiro presidente brasileiro a ter de responder por um crime comum no exercício da sua função não só manteve o hábito das reuniões clandestinas como as aprimorou. Primeiro, ao mandar colocar vegetação alta à porta da sua residência para as câmaras de TV terem mais dificuldade em distinguir quem entra. E depois instalando um misturador de voz no seu gabinete para que gravações como a de Joesley não se repitam.

Temer teve ainda mais duas reuniões fora de agenda só confirmadas oficialmente depois de apuradas pela imprensa. Com Valdemar Costa Neto, um ex-deputado condenado no Mensalão que ainda exerce influência sobre o Partido da República, para garantir apoio na votação sobre a denúncia de corrupção na Câmara dos Deputados. E com Tereza Cristina, líder parlamentar do Partido Socialista Brasileiro, com quem discutiu transferência de deputados para o seu partido. Contrariando o hábito noctívago do presidente, esta reunião foi de manhã, na casa da deputada, ainda antes de iniciado o expediente no Planalto, e aquela, com Costa Neto, durante a tarde.

São Paulo

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