Empresa acusada de provocar desastre ambiental tentou perturbar a investigação

A Vale alterou dados dos relatórios anuais, segundo a polícia brasileira, para "iludir as autoridades de fiscalização". O desastre em Minas Gerais matou 19 pessoas

Um relatório da Polícia Federal brasileira indicou que a empresa de mineração Vale adulterou dados para perturbar as investigações sobre o desastre nas barragens em Mariana, divulgou hoje a imprensa brasileira.

Segundo um relatório da Polícia Federal (PF), publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, a Vale mudou relatórios para perturbar as investigações sobre o desastre nas barragens em Mariana, no Estado de Minas Gerais, que ruíram em novembro de 2015, deixando 19 mortos.

O rompimento da barragem de Fundão provocou a saída dos detritos que passaram por cima da barragem de Santarém, que, entretanto, não se rompeu.

O acidente causou um grave problema ambiental no rio Doce, tomado por uma grande quantidade de lama contaminada com substâncias tóxicas que escorreram das barragens da empresa Samarco ('join-venture' das mineradoras Vale e da anglo-australiana BHP Billiton).

Os danos no vale do rio Doce ultrapassaram o Estado de Minas Gerais, atingindo ainda o de Espírito Santo e chegando até ao oceano.

A Vale gerava na região do desastre dois tipos de detritos: lama, que era destinada à estrutura da Samarco, e arenosos, que iam para o reservatório de Campo Grande.

No mês seguinte à rutura da barragem, a Vale modificou em documentos oficiais informações sobre o teor de concentração do minério que produzia em Mariana. Com isso, o volume de lama lançado em Fundão ficou abaixo do valor reportado inicialmente pela empresa.

A elevada quantidade de água presente nos detritos depositados na estrutura é considerada pela polícia como uma das causas da rutura.

A empresa alterou, segundo o relatório da PF, os últimos cinco Relatórios Anuais de Lavra (RALs) que havia enviado ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão do Governo. Os dados sobre a quantidade de minério produzido anualmente, porém, foram mantidos.

Num comunicado à imprensa, a Vale admite as alterações, mas diz que foram "correções" e que agiu com transparência nas investigações.

O objetivo das mudanças, porém, era "iludir as autoridades de fiscalização", segundo o documento da polícia brasileira.

"Tal fato (adulteração) tem ocorrido para que a Vale se exima de suas responsabilidades com relação aos rejeitos depositados pela mesma na referida barragem (Fundão)", diz a parte do relatório publicado pelo jornal.

As investigações apontam ainda que a Vale alterou ainda dados da barragem de Campo Grande.

Por seu lado, a empresa rejeitou todas as acusações e, num comunicado, referiu que realizou auditoria nos dados informados anteriormente ao Governo para "corrigir o que cabia" e que todas as alterações foram avisadas à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal.

"Em momento algum a Vale tentou atrapalhar ou confundir qualquer ato realizado pelo órgão fiscalizador; ao contrário, deu total transparência e conhecimento a quem de direito", disse a empresa, na nota.

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