Emigrantes portugueses e brexit: muitos receios e poucas certezas

Seis secretários de Estado portugueses em Londres. Theresa May faz discurso ao país na terça-feira sobre saída da UE

A sala da residência oficial do embaixador português no Reino Unido foi pequena para tanta gente e muitos assistiram de pé. Seis secretários de Estado vieram ontem a Londres para participar na iniciativa da secretaria de Estado das Comunidades portuguesas "Diálogos com a Comunidade". O principal objetivo era ajudar a esclarecer os emigrantes em relação às questões que mais preocupam a comunidade.

Para os portugueses em Londres a principal questão é a saída do Reino Unido da União Europeia. A primeira-ministra britânica está determinada a ativar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa no final de março e assim dar início formal às negociações de saída da UE. O aproximar da data aumenta a ansiedade dos emigrantes que continuam sem saber que futuro vão ter no Reino Unido.

Lourenço Sampaio veio do Porto para Londres há cinco anos e diz que, para já, continua na expectativa de saber o que vai acontecer. O músico, de 27 anos, confessa ao DN que "há algum receio em relação ao desconhecido, ao facto de não sabermos o que vai acontecer. Há pouco tempo falava-se de uma lei que obrigaria quem empregasse europeus a pagar mil libras por ano e é esse género de políticas que causam receio".

Sentado ao lado de Lourenço está Dinis Sousa. Também ele um músico vindo da cidade invicta. Ao DN o portuense que vive em Londres há dez anos diz-se convencido de que o tempo vivido na capital britânica será suficiente para lhe garantir o direito de permanência no Reino Unido. Ainda assim, assume que a sua principal preocupação é a eventualidade de o país se "tornar muito mais fechado porque nós, músicos, partimos do princípio que temos a liberdade para viajar, sobretudo na Europa, e para trabalhar noutros países e isso pode ter implicações mais diretas na minha vida".

Já Rita Pinho está mais preocupada com o impacto do brexit no financiamento da investigação científica do que propriamente na sua vida pessoal. Ao DN, a estudante do doutoramento em oftalmologia confessa que não pretende ficar no Reino Unido durante muito tempo pelo que o que gostaria de ver esclarecido é "se o Reino Unido vai continuar a fazer parte destes processos de financiamento ou será excluído?" A estudante questiona-se sobre a política do Reino Unido para as propinas. "Neste momento temos propinas mais baixas como todas as pessoas da UE e é uma diferença muito grande ter uma propina de nove mil libras por ano - que é o que têm os ingleses e os europeus - ou de 22 mil libras que é quanto pagam os alunos de fora da União."

Já António Cunha, conselheiro das comunidades portuguesas no Reino Unido, disse ao DN que o grande problema continua a ser a falta de informação e a incerteza quanto ao que aí vem. "Vamos perder as reformas? Vamos perder os nossos trabalhos? Temos compromissos de pagamentos de tudo, temos os nossos filhos que nasceram cá, que foram criados cá, que andam na escola cá. Muitos nem falam português, apenas inglês e o problema é não sabermos as respostas as estas perguntas".

Para terça-feira está agendada uma comunicação ao país por parte da primeira-ministra britânica. Espera-se que este tão aguardado discurso de Theresa May esclareça que planos tem o governo britânico em relação à saída da UE. A pressão sobre a governante tem vindo aumentar nos últimos tempos, já que, seis meses depois do referendo que deu a vitória ao brexit, pouco ou nada foi ainda revelado quanto aos planos e a estratégia negocial do governo.

Em Londres

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João Gobern

País com poetas

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