Embaixada dos EUA em Jerusalém traz alegria e desespero

Israelitas e palestinianos extremam posições. Dezenas de mortos e milhares de feridos junto à fronteira de Gaza com Israel

Bilal Fasayfes pegou na mulher e dois filhos e viajaram num dos autocarros fretados na cidade de Khan Yunis para os manifestantes se deslocarem até junto da fronteira. "Não nos importamos se metade das pessoas morrer, continuaremos a ir para que a outra metade viva com dignidade", afirma o palestiniano de 31 anos à AFP. A família Fasayfes fez parte da multidão de palestinianos (35 mil, segundo o exército israelita) que se juntou nas imediações da fronteira com Israel no dia mais sangrento desde o início da "marcha do regresso": pelo menos 55 mortos, dos quais oito com menos de 16 anos, e cerca de 2700 feridos. Na mesma cidade de onde partiu Bilal Fasayfes, as mesquitas debitavam mensagens em que instavam os fiéis a manifestarem-se. Em dia de greve geral em Gaza, nas ruas, homens mascarados e armados de bastões forçaram os comerciantes a fechar os negócios. O protesto foi intensificado por coincidir com o dia da inauguração da embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém.

"Que dia glorioso para Israel", exclamou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no discurso que proferiu nas novas instalações diplomáticas norte-americanas. Depois de agradecer aos "melhores amigos do mundo" e em particular ao presidente Donald Trump - "ao reconhecer a História, fez história" - o governante israelita evocou as memórias de quando tinha três anos e passeava nos campos onde se ergue agora o edifício diplomático dos EUA. "A minha mãe dizia que não podíamos passar a fronteira porque estávamos expostos aos tiros dos franco-atiradores. E hoje a embaixada abriu aqui. Que diferença!".

Netanyahu referia-se à linha traçada em 1949 após o armistício israelo-árabe. Ontem, a dezenas de quilómetros de distância, os papéis inverteram-se. Soldados do exército israelita mataram dezenas e feriram milhares de palestinianos que se encontravam junto à fronteira. Tiros, gás lacrimogéneo, drones contra pedras, pneus a arder e papagaios de papel com explosivos. Do lado israelita não há notícia de ferimentos.

O exército alega que a aviação tinha distribuído panfletos na véspera a avisar para ninguém se aproximar da vedação e acusa terroristas de usar civis e crianças como escudos para as suas ações. Na mesma linha reagiu a Casa Branca. "A responsabilidade por essas trágicas mortes cabe ao Hamas", disse o vice-secretário de imprensa Raj Shah. "O Hamas está intencional e cinicamente a provocar essa resposta. Como o secretário de Estado [Mike Pompeo] disse, Israel tem o direito de se defender", afirmou Shah.

Para o governo de Netanyahu, o número elevado de vítimas palestinianas não é uma questão. "Não indica nada, tal como o número de nazis que morreram durante a guerra não faz do nazismo uma coisa que se possa explicar ou compreender. Só existe uma verdade", afirmou o ministro da Segurança Pública Gilad Erdan, citado pelo Haaretz.

MNE quer defesa proporcional

A comunidade internacional reagiu de outra forma. O governo português, através de um comunicado, vê "com grande alarme" os acontecimentos em Gaza. Embora, "sem colocar em causa o direito de autodefesa de Israel", apelou a que se respeite "o princípio da proporcionalidade pelo uso da força", e ao mesmo tempo lembrou o "direito a protestar pacificamente".

A Amnistia Internacional insurgiu-se contra a "violação abjeta" dos direitos humanos por parte do exército israelita e apelou para um embargo de armas. O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, quer que os EUA saiam de cena enquanto negociadores e diz que Israel cometeu um "massacre". Mais duro, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusou Israel de "genocídio" e de ser um "estado terrorista". Ancara pediu uma reunião de emergência da Organização para a Cooperação Islâmica.

O secretário-geral das ONU, António Guterres, lembra que só pode haver uma solução política: "Não há plano B à solução de dois Estados na qual israelitas e palestinianos possam viver em paz". Com uma garantia dada por Netanyahu: "Estamos em Jerusalém e estamos para ficar."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

Premium

Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.