"Em parte incerta", dono da Fosun colabora com a polícia

Guo Guangchang tem investimentos em Portugal e é o 11.º homem mais rico da China.

O multimilionário e presidente do grupo de empresas Fosun, Guo Guangchang, que se encontrava "ausente em parte incerta" e "incontactável" desde a madrugada de quinta-feira, está a colaborar com as autoridades chinesas numa investigação sob possíveis casos de corrupção, que poderiam envolver o próprio ou a multinacional que dirige.

Guo Guangchang, de 48 anos, foi considerado a 11.º pessoa mais rica na China pela revista Forbes, detentor de uma fortuna avaliada em 6,9 mil milhões de dólares (6,2 mil milhões de euros), e desde quinta-feira deixara de atender o telemóvel, segundo nota divulgada pela Fosun. Nesta podia ler-se que o empresário, que gosta de se comparar ao multimilionário americano Warren Buffet, estava "em parte incerta" e "incontactável" por telemóvel. Ontem, num novo comunicado, o grupo de Guo revelava que o empresário estaria em Xangai, onde está a baseado a Fosun, e a "colaborar com as autoridades numa investigação em curso". Insistia-se ainda que o presidente do grupo "continua a participar nas principais decisões através dos meios apropriados".

Um título chinês online, Sohu.com, referia ontem que a investigação estaria relacionada com um antigo responsável da Câmara de Xangai, Ai Baojun, a ser investigado por corrupção desde novembro.

O mesmo comunicado garantia "ser opinião dos diretores da empresa que a presente investigação não constitui qualquer risco material adverso para o grupo nem para a sua situação financeira. As operações decorrem de forma normal". As ações da Fosun e das empresas em que esta detém participações foram suspensas na bolsa de Hong Kong e nas duas da China continental, Xangai e Shenzhen. Ainda na quinta-feira, as ações da Fosun caíram 11%. Mas foi anunciado que a negociação dos títulos será retomada na segunda-feira.

Desde quinta-feira que circulavam nas redes sociais chinesas rumores de que Guo fora detido pela polícia no aeroporto de Xangai, à chegada de um voo proveniente de Hong Kong. O facto foi também referido pela publicação online Caixin, título de informação económica. Após a divulgação do segundo comunicado, jornalistas da Caixin tentaram contactar Guo por telefone, mas estava desligado. Esta situação e a referência a uma investigação das autoridades levou a especulações de que o cofundador da Fosun seria o mais recente alvo da campanha contra a corrupção prosseguida pelo presidente Xi Jinping desde a chegada ao poder em 2012 (ver pág.6). A confirmar-se esta versão, Guo é o mais importante empresário chinês, até agora, a ser investigado no quadro da campanha.

Desde 2013 que o dirigente da Fosun estaria a ser investigado por corrupção, lembravam ontem diferentes media, sublinhando que aquele sempre negara essas notícias. A Caixin escrevia ontem que, em agosto, um tribunal de Xangai estabelecera que um importante empresário desta cidade, Wang Zongnan, proprietário de uma rede de lojas e supermercados, teria beneficiado a Fosun. Esta e o grupo de Wang teriam estabelecido uma joint venture em 2000. Três anos depois, os pais de Wang adquiriram duas moradias de luxo ao ramo imobiliário da Fosun por um valor inferior em mais de 50% do seu valor de mercado - 2,08 milhões de yuans (cerca de 290 mil euros) em vez de 4,77 milhões de yuans. Posteriormente, ambas as propriedades foram vendidas por 14, milhões de yuans. O ramo imobiliário da Fosun justificou o baixo preço da primeira vez pela conjuntura negativa do setor em 2003. Wang acabou condenado a 18 anos de prisão em agosto.

A Fosun - presente em Portugal através da seguradora Fidelidade, do grupo Luz Saúde e que chegou a apresentar uma proposta para a aquisição do Novo Banco - é detentora a nível internacional, por exemplo, do Club Méditerranée e teve, recentemente, luz verde do Banco Central Europeu para avançar com a aquisição do grupo financeiro BHF Kleinwort Benson, baseado na Bélgica e cotado na Euronext.

Desde o início da campanha anticorrupção de Xi, mais de dez outros importantes empresários ou altos dirigentes empresariais desapareceram do olhar público para ser anunciada, posteriormente, a sua detenção ou, nalguns casos, estarem até hoje em parte incerta. Houve ainda, pelo menos, um caso de um destes detidos ter sido libertado ao fim de alguns meses sem lhe ser deduzida qualquer acusação.

Esta forma de detenção aplica-se particularmente às pessoas que não são membro do Partido Comunista Chinês, embora o seja também em algumas circunstâncias para membros e dirigentes do partido. As pessoas podem ser detidas mesmo que não sejam elas o alvo direto da investigação.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.