Ela esteve no ground zero, ele viu pessoas saltar das Torres: Hillary e Trump no 11 de Setembro

Ela era senador por Nova Iorque e esteve no ground zero logo um dia depois dos ataques que fizeram quase 3000 mortos em 2001. Ele, nova-iorquino, diz ter visto da sua janela na Trump Tower pessoas a saltar das Torres Gémeas. Nos 15 anos dos ataques, candidatos presidenciais suspenderam campanha.

A batalha para as presidenciais de 8 de novembro entre Hillary Clinton e Donald Trump promete ser dura até ao último momento. Mas hoje é dia de trégua. A candidata democrata e o rival republicano aceitaram ambos suspender as campanhas no dia em que se assinala o 15.º aniversário dos atentados do 11 de Setembro. Neste domingo é tempo de celebrar a memória das quase três mil vítimas dos ataques às Torres Gémeas de Nova Iorque, ao Pentágono, em Washington, e da queda do voo 93 da United Airlines num campo da Pensilvânia. Por isso, nada de comício e nem os anúncios de campanha irão passar nas televisões.

Em dia de abertura da liga de futebol americano, a NFL, as cerimónias do 11 de Setembro neste ano irão incluir a tradicional leitura dos nomes das vítimas em Nova Iorque. O presidente Barack Obama irá, por seu lado, estar presente no Pentágono. Em 2008, a campanha presidencial também foi suspensa no dia 11 de setembro, com Obama e o rival republicano, John McCain, a surgirem juntos no ground zero. Quatro anos depois, Obama e Mitt Romney estiveram em eventos separados. Neste ano ainda não se sabe.

A então senadora por Nova Iorque Hillary Clinton no ground zero dias depois da queda das Torres

Do ground zero à situation room na morte de bin laden

Hillary Clinton com a mão à frente da boca e em choque enquanto assistia em direto à operação dos SEAL que resultaria na morte de Osama bin Laden a 2 de maio no Paquistão. A imagem da então secretária de Estado sentada numa Situation Room cheia dos mais altos responsáveis dos EUA, entre eles o presidente Barack Obama, ficou para a história como símbolo da luta da América contra o líder da Al-Qaeda e cérebro dos piores atentados terroristas no seu solo. "Aqueles foram os 38 minutos mais intensos. Não faço ideia para o que estávamos a olhar naquele preciso momento", contou pouco depois à Forbes a agora candidata democrata às presidenciais de 8 de novembro.

Quase uma década antes, a mulher que após oito anos na Casa Branca como primeira-dama fora eleita senadora por Nova Iorque, assistia também em choque à queda das Torres Gémeas em Nova Iorque, ao ataque ao Pentágono e à queda do avião da United Airlines na Pensilvânia. Na altura, ainda com a América a avaliar estragos e tentar perceber quem a atacara, Hillary falou à CNN em Washington, onde se encontrava, horas depois dos atentados que fariam perto de três mil mortos. Nesse dia garantia que o país tinha de estar "ao lado do presidente", o republicano George W. Bush, e apoiar "os passos que ele considere necessários tomar em termos de retaliação e reconstrução".

Um dia depois do ataque, Hillary fez no Senado um discurso muito semelhante às declarações da véspera e deixou um recado para fora: "Ou estão com a América neste momento de necessidade, ou não estão." E voltou a sublinhar: "Manifestei o meu apoio total ao presidente. Não só como senadora por Nova Iorque, mas como alguém que durante oito anos teve perceção do fardo e das responsabilidades que pesam sobre o presidente." Mas se o ataque ao Afeganistão em outubro de 2001 em retaliação contra a recusa dos talibãs em entregarem Bin Laden teve o apoio unânime do Congresso e do mundo - até o jornal francês Le Monde escreveu em editorial "Nous sommes tous américains" (Somos todos americanos) - menos pacífica foi a invasão do Iraque proposta pelo presidente Bush. E o voto de Hillary em 2002, um dos 29 entre os senadores democratas a favor da intervenção militar que começaria em março do ano seguinte, apesar de não ter a aprovação da ONU, continua a assombrá-la até hoje. Em 2008, durante a sua primeira campanha presidencial - quando perdeu as primárias para Obama -, Hillary explicara que o seu voto foi uma forma de dar a Bush a autoridade necessária para a usar no Iraque. O que ninguém sabia na altura é que as armas de destruição maciça que a administração Bush garantia estarem na posse de Saddam Hussein nunca chegariam a ser encontradas. E no ano passado, já lançada a sua segunda candidatura à Casa Branca, Hillary admitiu que votar a favor da intervenção militar fora "um erro puro e simples". Já no seu livro Escolhas Difíceis, publicado em 2014, a ex-secretária de Estado escrevera que na altura "não percebeu as coisas de forma correta".

Apesar da sua mudança de opinião em relação à Guerra do Iraque, o voto de 2002 serviu de munição aos rivais na corrida à nomeação democrata. Sobretudo Bernie Sanders, o senador do Vermont que pressionou a ex-primeira-dama até ao fim, usou o assunto para garantir que Hillary não tem discernimento para ser presidente. "Não é qualificada se votou a favor desta guerra desastrosa", garantia em abril.

Como senadora por Nova Iorque, Hillary teve oportunidade em 2001 de ver em primeira mão a destruição deixada pela queda das Torres Gémeas do World Trade Center depois de terem sido atingidas por um avião cada uma. De máscara no rosto para se proteger do pó, a ex-primeira-dama percorreu os destroços no ground zero, como ficou conhecido o local do impacto, a sós ou muitas vezes ao lado de Rudy Giuliani, o então presidente da Câmara de Nova Iorque, hoje um dos mais fiéis conselheiros de Donald Trump, o rival republicano de Hillary nas presidenciais. Passados 15 anos, muitos recordam o apoio da senadora às equipas de emergência. O seu trabalho para garantir fundos federais para a reconstrução do ground zero e para os cuidados de saúde a todos os que trabalharam no local foi elogiado por vários nova-iorquinos no mês passado na convenção que a confirmou como nomeada democrata para as presidenciais.

Mas o 11 de Setembro também foi usado na campanha para a atacar. Como quando num debate disse que os atentados de 2001 tinham Wall Street por alvo e enquanto senadora exigiu fundos federais para a reconstrução, acrescentando: "Isso foi bom para Nova Iorque. Foi bom para a economia." Palavras que levaram os rivais a acusá-la de usar o 11 de Setembro para justificar as suas relações com Wall Street.

Hoje Hillary regressa ao local do ground zero para assistir à homenagem às vítimas na sua Nova Iorque.

Donald Trump junto a Wall Street uma semana depois do 11 de Setembro

Ver pessoas a saltar e festejos de muçulmanos

Tem 202 metros, 58 andares e fica no número 725 da Quinta Avenida. Foi do topo da Trump Tower, das janelas da penthouse, que Donald Trump assistiu ao 11 de Setembro, vendo as Torres Gémeas arder e cair, lá ao longe. "Muitas pessoas saltaram e eu testemunhei-o. Tenho uma vista - uma vista do meu apartamento virada para o World Trade Center", garantia o milionário em novembro, já em campanha para a nomeação republicana às presidenciais. Na altura não faltou quem pusesse em causa tais declarações, recordando que seria preciso olho de lince para avistar uma pessoa a saltar de uns edifícios que ficavam a 6,5 quilómetros. Ou uns binóculos, coisa que Trump nunca refere.

Nova-iorquino de gema, nascido há 70 anos no bairro de Queens, o magnata do imobiliário foi ainda mais longe em relação ao que viu naquele dia. Num comício também em novembro garantiu ter visto "milhares de muçulmanos" a celebrar a queda das torres em Nova Jérsia. Uma afirmação que repetiu no dia seguinte a George Stephanopoulos, na ABC: "Hey, eu vi o World Trade Center desmoronar-se. E vi em Jersey City, Nova Jérsia, milhares e milhares de pessoas que celebravam a queda dos edifício. Milhares de pessoas." Questionado sobre o facto de a polícia não ter registos de quaisquer celebrações, apesar de este ser um boato que circula na internet desde o dia dos ataques, Trump insistiu ter visto os festejos "na televisão", acrescentando que o caso "teve muita cobertura mediática". Perante tanta certeza do candidato à Casa Branca, Glenn Kessler, responsável pela rubrica Fact Checker no Washington Post, decidiu averiguar a veracidade dos factos. O resultado: quatro pinóquios, o máximo na escala de Kessler para avaliar o nível de mentiras dos políticos. O jornalista encontrou de facto referências a celebrações em Nova Jérsia, mas sobretudo em sites de teorias da conspiração. Steven Fulop, mayor da cidade em que residem 15 mil muçulmanos, apressou-se a negar os factos. E os únicos vídeos de celebrações que Kessler encontrou foram filmados em Gaza e mostram palestinianos a festejar a queda das Torres Gémeas.

Com fortuna feita no imobiliário - negócio que herdou do pai - e uma das personalidades mais conhecidas de Nova Iorque, Trump deu uma entrevista a uma televisão alemã dias depois dos atentados de 2001 em que admite que tem vários imóveis na zona do impacto, mas que "felizmente não foram afetados". Diz então ter acabado de voltar do ground zero e garante "nunca ter visto nada assim: a devastação, a perda de vidas", mas sublinha que Nova Iorque é "forte e resiliente e vai reconstruir-se rapidamente". Quanto à resposta ao ataque, defende que deve ser "rápida e efetiva", adiantando que é preciso descobrir quem o fez e "ir atrás dessas pessoas". Garantindo ter "pessoas no terreno", o milionário promete envolver-se numa reconstrução que estima que irá custar entre "15 e 20 mil milhões de dólares".

Passados 15 anos, não há provas de que Trump - cuja fortuna a Forbes avalia em 4,5 mil milhões de dólares, mas que o próprio garante ser o dobro - tenha feito qualquer doação para ajudar na reconstrução do ground zero. Um facto que Rudy Giuliani, na altura presidente da Câmara de Nova Iorque e hoje fervoroso apoiante e conselheiro de Trump, explica com a "modéstia" do candidato que preferiu "manter o anonimato" quando doou dinheiro.

Certo parece ser que as empresas de Trump situadas na Baixa de Manhattan receberam 150 mil dólares de um fundo federal criado para ajudar as pequenas empresas a recuperar do impacto económico provocado pelos atentados, como revelou há dias uma investigação do New York Daily News. Apesar de os inimigos terem aproveitado esta notícia para atacar o candidato republicano, a verdade é que as suas empresas não cometeram qualquer irregularidade, uma vez que cumpriam os critérios fixados pelo governo.

Depois de ter confundido o 9/11 (como os americanos se referem aos atentados de 2001) com a 7-Eleven (a cadeia de lojas de conveniência), uma das gafes mais marcantes desta campanha, Trump voltou a falar do 11 de Setembro em agosto para garantir que os atentados que mataram quase três mil pessoas nos EUA nunca teriam acontecido se fosse ele o presidente. Tudo, explicou, porque a sua política de imigração nunca teria permitido a entrada no país dos piratas do ar muçulmanos. "Aquelas pessoas que mandaram o World Trade Center abaixo, com as políticas Trump não estariam cá para mandar o World Trade Center abaixo."

Se o 11 de Setembro tem estado no centro de algumas polémicas de Trump, também lhe deu um dos momentos altos na campanha. Atacado pelo rival Ted Cruz pelos seus "valores nova-iorquinos" serem pouco conservadores, Trump usou a resposta ao ataque para defender o espírito da cidade. "Após a queda do World Trade Center, vi algo com que nenhum outro local no mundo teria lidado de forma mais bela e mais humana do que Nova Iorque", sublinhou.

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