El Gordo ficou em Madrid e até saiu ao PSOE

Uma casa da sorte da capital espanhola vendeu os 660 milhões de euros do primeiro prémio da Lotaria de Natal. A sorte chegou a reformados, idosos e, ainda, a alguns políticos

Considerado por muitos como um número que traz má sorte, o 13 repartiu ontem em Madrid os 660 milhões de euros do prémio extraordinário da Lotaria de Natal. A casa da sorte número 32 mudou de mãos há quatro meses e os atuais gerentes, Agustín e María José, eram ontem o espelho da felicidade de muitos espanhóis. Eles venderam integralmente o número premiado: o 66 513. "Estamos muito contentes pelas pessoas que compraram, quando soubemos explodiu-nos o coração", disse com lágrimas nos olhos María José, perante o alvoroço mediático. O Paseo de la Esperanza, a rua onde se encontra este local, foi ontem invadido por vencedores e curiosos que quiseram testemunhar um dia tão especial como este.

Aos pulos em cima da cama

O primeiro prémio (El Gordo) foi conhecido às 11.57 (menos uma hora em Lisboa), quando Lorena Stefan e Nicole Valenzuela, as mesmas meninas que "o cantaram" no ano passado, tiraram o número sorteado do globo. "Não queria acreditar, pois achas impossível o teu número ser o premiado. Depois de confirmar comecei aos gritos", explica Alicia. A filha ouviu um barulho em casa e encontrou a mãe aos saltos na cama. "É uma felicidade enorme, ainda nem sabemos o que vamos fazer com o dinheiro", confessa a mulher que comprou três décimos e agora tem 1,2 milhões de euros para partilhar com a família depois de deixar 20% da quantia ganha nas Finanças.

Ao longo do dia foram conhecidas algumas das histórias das pessoas sorteadas. Entre elas, os 200 trabalhadores e os 200 idosos de um lar em Peñuelas, Madrid, que compravam o número há 14 anos. Pelo menos 90% das pessoas do lar adquiriram um décimo e por isso foi dia de festa. Pepa, de 93 anos, repartiu muitos euros "entre filhos, netos e bisnetos", afirmou perante os microfones. "Não sei por que as pessoas choram, eu só rio", sublinha, dizendo-se feliz. Martim nem ouve nem fala, mas todo contente mostrou o seu décimo premiado aos jornalistas presentes.

O 66 513 também chegou à política porque foi vendido entre os trabalhadores da sede do PSOE, na Rua Ferraz. No Twitter, o partido socialista felicitou os premiados afirmando que foi "um grande final para um ano difícil". Mas este prémio criou mal-estar entre os socialistas porque tratou-se de cinco décimos oferecidos pela casa da sorte do Paseo de la Esperanza, onde o PSOE compra o seu número oficial. Dois décimos foram divididos em participações, mas não para todo o partido, e outros três ficaram nas mãos de trabalhadores da administração, um deles o gerente do partido, Goyo Martínez.

500 habitantes com 300 décimos

Trezentos décimos foram vendidos numa aldeia de 500 habitantes chamada Brea de Tajo, a 75 quilómetros de Madrid, muito perto de Guadalajara. A associação de mulheres desta localidade foi a responsável pela compra do número que todas as famílias da aldeia compraram. "É fantástico que uma aldeia tão pequenina possa receber um prémio como este", disse o presidente da câmara municipal. O que vão fazer com o dinheiro? A maior parte será para "tapar buracos" como o pagamento de dívidas ou o empréstimo da casa e depois realizar alguma viagem.

O El Gordo saiu pouco fora de Madrid, mas houve alguns sorteados de outros pontos de Espanha. Os donos da casa da sorte premiada trocaram 50 décimos com uma outra casa da sorte, em Biscaia, onde ontem também se festejou esta chuva de euros. Também em Almendralejo (Extremadura) chegou alguma sorte através de um cliente de uma fábrica que levou o primeiro prémio até lá. E perto de Portugal, em Olivença, também se festejou o primeiro número da Lotaria de Natal porque um habitante adquiriu alguns décimos durante uma visita ao País Basco.

Outros prémios

O segundo prémio, o 04536, foi mais distribuído na geografia espanhola. Em Pinos Puente (Granada), o Partido Comunista repartiu mais de 56 milhões de euros. "Gostamos do número", explicam Rocío Olmos e Carmen Capilla, deputadas da província que adquiriram a lotaria. Uma comunidade cigana desta vila de 20 mil habitantes está entre os vencedores.

Paloma de Marco, gerente de uma casa da sorte na Puerta del Sol, voltou ontem a dar dois prémios. Quase dois milhões de euros entre os décimos vendidos do segundo e um quinto prémio. "Há dois anos demos três prémios e há um mês o primeiro prémio da lotaria nacional", diz ao DN, confessando que não podia estar mais contente. É uma das casas da sorte que mais vende em Espanha e é conhecida por ser "a lotaria dos gordos" pelas numerosas vezes que deu o primeiro número. Como todos os anos, a sua casa enche-se de curiosos, jornalistas e premiados. Ela esteve a vender lotaria até à meia-noite de dia 21 e todos os décimos premiados foram vendidos ao balcão. "Não devolvemos nada e foi tudo muito repartido." Ontem foi dia de se formarem filas "para receber o dinheiro".

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