Efeito Catalunha empurra Ciudadanos para a liderança

Sondagem Metroscopia põe o partido de Rivera mais de seis pontos percentuais à frente do PP de Rajoy. Vitória nas autonómicas foi importante mas não é a única explicação

O Ciudadanos, que nasceu em 2006 em Barcelona como oposição ao crescente nacionalismo catalão e sob a bandeira da luta contra a corrupção, entrou pela primeira vez no Congresso dos Deputados espanhol após as eleições de 2015. Menos de três anos depois e à boleia do sucesso eleitoral nas autonómicas da Catalunha de 21 de dezembro, a sondagem Metroscopia indica que seria o partido mais votado se os espanhóis fossem agora às urnas.

Segundo a sondagem publicada no El País, o partido de Albert Rivera conquistaria hoje 28,3% dos votos (as eleições estão previstas para 2020), deixando a 6,4 pontos percentuais o PP de Mariano Rajoy (21,9%) e a 8,2 o PSOE de Pedro Sánchez (20,1%). Em quarto lugar surge o Unidos Podemos (aliança do Podemos e da Izquierda Unida) de Pablo Iglesias com 16,8%. Antes das eleições de 2015, em que o Ciudadanos acabou em quarto, a Metroscopia punha o partido em segundo. Esta é a segunda sondagem do El País que lhes dá a vitória após as eleições catalãs, ganhas por Inés Arrimadas, a líder do Ciudadanos na Catalunha, que não tirou contudo a maioria aos independentistas.

"Do ponto de vista estrutural há um cansaço do eleitorado de centro-direita e de direita espanhol com o PP, que já se verificou nas últimas eleições de 2015 e 2016, quando perdeu a maioria absoluta. Estes sintomas de cansaço têm vindo a acentuar-se sobretudo por causa dos escândalos de corrupção e o eleitorado vê no Ciudadanos uma alternativa que se consolidou graças à Catalunha", explica ao DN o especialista em relações internacionais Filipe Vasconcelos Romão. "Neste momento, o objetivo de Rajoy e dos seus quadros políticos vai ser levar a cabo um bombardeamento sem tolerância contra o Ciudadanos. E já começou com a Catalunha e a pressão para que Inés Arrimadas se apresente como candidata", disse.

"Não acho que os eleitores do Ciudadanos estejam muito satisfeitos com a atitude do seu partido, que deixa o campo todo aos independentistas e não mostra colaboração com os constitucionalistas", disse precisamente o porta-voz do governo, Íñigo Méndez de Vigo, numa reação aos números. O responsável relativizou os dados da sondagem, lembrando que na segunda-feira foram publicados os do Centro de Investigações Sociológicas, nos quais o PP continua como a força mais votada. "As sondagens são uma foto de um momento", explicou, acrescentando que o trabalho do executivo "dará os seus frutos".

A líder do Ciudadanos na Catalunha reagiu com "prudência e muito respeito" à sondagem Metroscopia, lembrando contudo que o partido se consolida "como uma alternativa de governo que dá estabilidade e que também empreende as reformas necessárias". Já Rivera escreveu no Twitter: "Continuamos a trabalhar para oferecer um novo projeto nacional."

Além da questão catalã e da capacidade de atrair os eleitores de centro quer do PP quer do PSOE e até do Podemos, a sondagem Metroscopia revela que existe a ideia entre os eleitores de que o Ciudadanos é o único partido que tem um projeto claro para Espanha, sem concretizar contudo o que isso significa. E que, se em 2015 e 2016 muitos eleitores conservadores tiveram receio de não votar no PP para evitar a chegada ao poder do Podemos, agora já não temem esse cenário e optaram por passar para o partido de Rivera.

"Resta saber, e as próximas semanas e meses são importantes, ainda mais se a situação catalã acalmar, se esta tendência vai continuar e consolidar-se até às eleições europeias, municipais e regionais de 2019 ou não", acrescentou Filipe Vasconcelos Romão. A subida do Ciudadanos nas sondagens já levou vários filiados e pesos-pesados locais do PP a abandonar o partido de Rajoy, com o intuito de aderirem ao de Rivera, que tem carência de candidatos fora das grandes cidades e procura poder a nível local.

Sobre a possibilidade de outro nome à frente do PP poder inverter a tendência negativa nas sondagens, Vasconcelos Romão duvida. "Está tanta gente envolvida nas questões de corrupção, é um problema tão sistémico e foi durante tantos anos que é muito difícil", disse, lembrando que não é hábito haver lutas internas pelo poder no PP. "É um partido de caudilhos, em que o líder aponta o sucessor. Foi assim com Fraga, Aznar, Rajoy. Ele será de novo candidato se quiser ser", disse.

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