É só em 2024, mas a guerra pela sucessão de Putin já começou

Analistas apostam que Putin não repetirá a troca de lugares com Medvedev. Mas são prudentes a avançar nomes.

Impedido pela Constituição de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo como presidente, Vladimir Putin já provou em 2008 que tenciona obedecer à lei. Na altura, a solução passou por uma troca de lugar com o seu primeiro-ministro, Dmitri Medvedev: Putin assumiu

a chefia do governo, Medvedev a chefia do Estado. Durou quatro anos, até voltarem a trocar em 2012. Agora, com Putin garantido no Kremlin até 2024 (quando voltou, garantiu a passagem do mandato presidencial de quatro para seis anos), poucos acreditam numa nova troca com Medvedev. E a grande incógnita é quem se vai perfilar como sucessor de Putin.

Em 2024, o presidente russo estará prestes a fazer 72 anos. Jovem demais, acreditam os analistas, para se retirar de vez para a sua dacha junto à fronteira com a Finlândia. Por isso, para conciliar o seu desejo de sair na altura certa, evitando uma perpetuação no poder que o deixaria à mercê de um eventual afastamento pela força, Putin poderá criar (ou adaptar) um cargo à sua medida. O The Guardian avançava a hipótese de o antigo agente do KGB deixar a presidência a um fiel aliado e assumir a presidência da Duma - a câmara baixa do Parlamento russo, enquanto o Financial Times admitia a possibilidade de Putin transformar o Conselho de Estado no principal órgão de governação, colocando-se na sua liderança e evitando assim os limites de mandato.

Com a popularidade em queda nos últimos meses - perto dos 40%, enquanto a de Putin anda pelos 80% - e a posição enfraquecida, Medvedev pode parecer agora uma carta fora do baralho para suceder a Putin. Mas a verdade é que poucos se atrevem a avançar nomes para 2024. O The New York Times aposta que nos próximos anos vamos ver as lutas de bastidores entre membros do que chama "a Corte de Putin" passar dos corredores do Kremlin para as primeiras páginas dos jornais à medida que os membros da elite que rodeiam o presidente se concentram menos em servi-lo e mais em preservar o seu poder na era pós-Putin.

Na verdade, já houve exemplos dessas batalhas internas que se tornaram públicas. Foi o caso do julgamento por corrupção de Aleksei V. Ulyukayev, um ex-ministro da Economia condenado a oito anos num campo de trabalho por aceitar um suborno de dois milhões de euros para aprovar um negócio que prejudicava a petrolífera estatal russa Rosneft, liderada por Igor Sechin. Ulyukayev diz-se inocente e acusa Sechin, um antigo agente secreto militar e próximo de Putin, de estar por detrás da sua detenção.

Além de Sechin, uma análise às opiniões disponíveis em inglês sobre a sucessão de Putin revela ainda outros nomes. Um deles é Alexei Kudrin, conselheiro económico do presidente que defende o aumento da idade da reforma. Uma medida à qual Putin tem resistido. E, por fim, Elvira Nabiullina. A governadora do Banco Central russo recebeu carta-branca do Kremlin para gerir os problemas crescentes de liquidez no sistema bancário russo. E em finais de dezembro, no seu Guia Pessimista para 2018, a Bloomberg previa mesmo que Putin ia nomear Nabiullina como sua sucessora em 2024. Meses antes, a agência financeira americana já avançara que a economista de 54 anos podia assumir a chefia do governo após as eleições de ontem, substituindo Medvedev.

Menos provável - pelo menos neste momento - do que qualquer um destes cenários parece a hipótese de em 2024 ser uma figura da oposição a vencer as eleições. Mas, nesse caso, é impossível não falar de Alexei Navalny. O advogado e ativista foi impedido pelos tribunais de se apresentar a estas presidenciais mas já mostrou que nem a prisão o cala, tendo estado atrás das graves em várias ocasiões nos últimos meses. Neste momento, Navalny é a principal figura da oposição, mas, num artigo de opinião no The New York Times, a diretora do Le Monde, Sylvie Kauffmann, alertava para a necessidade de não menosprezar Xenia Sobtchak. Acusada de ser uma candidata-fantoche do Kremlin, a ex-apresentadora de televisão e socialite é vista por Kauffmann como "ousada e articulada", tendo questionado a anexação da Crimeia e chamado a atenção para os presos políticos.

Teremos de esperar seis anos para saber se vamos ter a primeira mulher no Kremlin.

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