"É preciso dar conteúdo ao mito do meu irmão Che"

O irmão mais novo de Ernesto Guevara, em Lisboa para promover o livro sobre o revolucionário cubano-argentino que escreveu com a jornalista francesa Armelle Vincent, recorda-o 50 anos após a sua morte, na Bolívia.

Em O meu irmão Che, Juan Martín Guevara tem como missão humanizar o ícone, para que as ideias continuem vivas. Ao DN, fala de Cuba, das lutas e de como o mundo mudou para pior.

Quando nasceu, o Che tinha 15 anos. Quais são as memórias que tem dele?

Sou irmão de sangue de Ernesto e companheiro de ideias de Che. As recordações de criança misturam-se, mas são as recordações de família. De um irmão brincalhão. Estar com ele era divertido, não era um irmão mais velho autoritário, que queria fazer de pai. Era alegre quando me encontrava com ele. Foi alegre em 1959, em Havana, ou em 1961, em Punta del Este, no Uruguai. Toda a dureza que precisou para passar anos nas montanhas ficava de lado quando estávamos juntos, nas nossas conversas, brincadeiras, nas discussões.

Esteve oito anos preso, a maior parte na ditadura argentina de 1976-1982. Foi um problema ser irmão do Che?

Fui preso não por ser irmão do Che mas pela militância política, até porque estava clandestino, ninguém sabia. Souberam depois. Na prisão fui um número, o 449, não um nome. Na repressão, nunca soube se o que me acontecia era pior ou melhor que aos outros. A diferença é que alguns foram mortos.

O seu irmão era um herói para si?

Nunca o vi como um herói. Era um revolucionário. Alguém que pôs a sua vida à disposição dos outros.

Neste livro o objetivo parece ser acabar com o mito de Che, mostrar o lado mais pessoal de Ernesto e recuperar o pensamento dele. Porque é que teve a necessidade de fazer isso?

O livro surge uns anos depois de ter saído do silêncio mediático, durante o qual não falei, não dei entrevistas. Desde 2009 isso mudou. E cada pergunta trazia informação. E a informação que chegava era precisamente a desinformação, a manipulação, a ignorância sobre o Che, que eu precisava de reverter. Quando Armelle Vincent me contactou propôs fazer um livro e como não sou escritor, pareceu-me boa ideia. A ideia fundamental é humanizar o Che. Já que existe a imagem, pôr-lhe conteúdo. Filosófico, económico, ideológico, etc.

É contra a forma como é aproveitada a imagem do seu irmão?

No livro falo na situação na Bolívia. Porque o lugar exato onde foi assassinado, onde foi cortada a possibilidade do desenvolvimento revolucionário na América Latina, está dedicado ao comércio. Uma mistura de misticismo, do San Ernesto de La Higuera, com as vendas. Não me parece que fosse o que merecia. De resto, em qualquer lugar onde há uma T-shirt, o que digo é que tem a ver com o facto de um comerciante procurar sempre um bom produto para vender. Porque o Che continua a ser algo que as pessoas querem, um referente. Então mudei a ideia de destruir o mito, pela de dar conteúdo ao mito. É preciso dar conteúdo ao mito do meu irmão Che.

Porque é importante fazer isso?

Em primeiro lugar porque desde 1967, quando foi assassinado, o mundo não melhorou, mas piorou. Em todos os sentidos, mas principalmente no sentido em que ele lutava: a desigualdade, a injustiça, a discriminação, as guerras... É óbvio que se isto aconteceu é por uma razão, que acho que é a mesma de antes. Os grandes grupos económicos concentraram mais poder e quem está debaixo está sempre à espera que caia alguma gota. E não cai. O Che está mais presente, é mais fácil humanizá-lo do que a Marx ou Lenine. É necessário que os seus valores estejam presentes.

Se fosse vivo, qual seria o seu combate?

Como é uma pergunta metafórica, a minha resposta é metafórica. Se Che fosse vivo e não tivesse sido assassinado em 1967, a América seria livre, soberana, independente e socialista porque ele cumpria sempre com o que metia na cabeça. Passando a algo não metafórico, diria que estaria num lugar de luta.

Estaria ao lado de Nicolás Maduro na Venezuela? Ou de Bashar al-Assad na Síria? No combate ao imperialismo?

Há duas coisas a ter em conta. Primeiro, o imperialismo continua a existir. E conseguiu objetivos muito importantes, como a queda da União Soviética ou que a China seja uma das potências capitalistas mais importantes... Que tenha conseguido isso, não quer dizer que seja bom. Agora, não significa que os outros que o imperialismo está a castigar sejam solução para todos. Este é o meu pensamento. Não posso dizer que seja o de Che. Não vou entrar em Maduro ou em Assad, porque falamos de países onde a conflitualidade está na ordem do dia.

No livro fala em "capisol", junção de capitalismo e socialismo. Hoje talvez já não haja um capitalismo puro, como não há um comunismo puro...

O que acontece é que não se sabe o que é comunismo. Porque o que se tentou fazer, esse socialismo real que ia até ao comunismo, não chegou a lado nenhum. Alguns podem dizer que são mais de direita ou mais de esquerda, mas é capitalismo. Como é na China, como está a começar a ser no Vietname, como é em Cuba. O "capisol" é cada vez mais "capi" do que "sol".

Que diria o Che da Cuba de hoje?

Diria que a sua derrota levou a isto. Em 1967 foi derrotado um importante projeto revolucionário latino-americano e mundial. E seguiram-se outras derrotas. O Che vaticinou em 1966 a da União Soviética. Era um tipo visionário. Acreditava na necessidade de se fazer a revolução noutros locais não porque fosse louco, mas porque dizia que era a única maneira de as revoluções se sustentarem. Num só lugar não, que era a ideia da URSS, socialismo num só país. Não é o que ele ou Fidel entendiam.

No sábado assinala-se o primeiro aniversário da morte de Fidel. Mudou alguma coisa em Cuba?

Cuba está sempre em mudança. Nunca está igual. Mas as mudanças, para mim, não são positivas. O que digo muitas vezes sobre Cuba é não criticar tanto. Façamos a revolução nós nos nossos países que assim damos folga à ilha. E não posso pedir a Cuba que seja o rebocador do socialismo no mundo quando o mundo está a recuar, cada vez mais capitalista, mais mercantilista. Eles defendem a revolução que fizeram, precisamente porque fizeram uma revolução profunda têm a capacidade de defendê-la, mas defendem-na recuando, não indo em frente. O capitalismo vai entrando por ali dentro. Há 125 voos diários dos EUA, chegam cruzeiros....

O presidente Trump quer mudar a política de abertura de Obama...

Sim, mas é meio maquilhagem. Porque não toca nas grandes empresas que começaram a enviar navios, que começaram a mandar aviões. Diz que não podem fazer negócios com o exército cubano ou os serviços de informação, mas negoceiam com outras empresas, obvio. Mas que negoceiem.

Quem pode ser o novo Che?

Um Che ou uma Chea. Homem ou mulher. Não quero dar nomes. O que está claro é que o mundo assim não anda bem. Mas já começa a haver forças que caminham para o centro, não de dispersão como nos últimos anos. O que não pode é haver desconfiança. Por isso digo que é diferente um dirigente de um político. Um dirigente vai à frente e dá confiança. Pode haver perigo, mas eu sigo-o, porque ele vai. Um político está sempre atrás, deixa outro ir e logo vê. Não quero dar nomes, mas têm que surgir e necessariamente dentro da juventude. Os jovens foram sempre a massa dura das mudanças, sem jovens não há mudança. Os velhos podemos assessorar, mas são os jovens que têm que fazer coisas. É o objetivo, chegar aos jovens.

Num mundo com tantas distrações, tão rápido, não é difícil chegar aos jovens?

Não digo que seja fácil, mas ninguém imaginava a revolução russa em 1918, a longa marcha na China, que em Cuba os 12 que subiram a montanha iam triunfar... não é impossível. A energia atómica serve para fazer bombas e matar, mas também serve para curar pessoas. A tecnologia serve para distrair, mas também tem que servir para o conhecimento. As pessoas não estão conscientes e é preciso saber como romper essa não consciência. É possível.

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