"É o grande choque quando aterram no que achavam ser a islamotopia e percebem que aterraram no inferno"

Entrevista com Ahmed Abbadi, secretário-geral da liga dos ulemas de Marrocos. Este sábio do islão está em Lisboa para uma conferência hoje às 17 horas na Academia de Ciências intitulada "A Desconstrução do Discurso Extremista". Diz que Daesh está desiludido "porque toda a gente sabe que não fala em nome do islão e dos muçulmanos".

Qual a sua reação como marroquino, como muçulmano, como ulema, quando ouve notícias sobre um atentado jihadista? Afeta-o pessoalmente?

Primeiro que tudo, a jihad no islão só pode ser declarado pelo chefe de Estado. Pelo comendador dos crentes, no islão. Por isso não cabe a um indivíduo declarar a jihad. Logo à partida é uma ação que é falsa porque é declarada por indivíduos que não possuem todos os dados que permitem tomar essa decisão que diz respeito à guerra e à paz de toda uma nação.

Não devemos falar em jihadismo, é terrorismo puro e simples?

Sim, é terrorismo. Porque a decisão da jihad, que é compulsiva por excelência, só pode ser tomada pelo comendador dos crentes no islão.

Segundo, há 36 tipos de jihad. São os três últimos, quando já não há alternativa, que são tipos de resistência e de repulsa dos ataques realizados contra uma nação. São os três últimos tipos que são de jihad armada. Quando passamos diretamente para o 34.º tipo de jihad, sem ter passado pelos 33 anteriores, é uma ação falsa.

Terceiro, a jihad, como definida no sagrado Alcorão, também nos ditos do profeta do islão, começa nos confins da psiché, das emoções humanas. Só atravessa para a realidade depois de ter concretizado a função dessa jihad interna. Contra a ignorância, contra as más intenções, contra as más ações e contra todas as coisas indesejáveis no ser humano ou na sociedade humana.

A jihad pode ser simplesmente um esforço pessoal para ser uma pessoa melhor?

Absolutamente. Porque a raiz da palavra significa fazer um esforço para ser melhor enquanto indivíduo e enquanto sociedade. No caso dos atos terroristas são interpretações, a priori, que estão erradas. Enquanto sábio do islão sei que a priori uma tal declaração de jihad não acontece, é uma falsa interpretação.

Mas para as sociedades não islâmicas, quando deparam com essa reivindicação jihadista pelos terroristas há automaticamente uma associação ao islão. Como defender o islão no geral, mais de mil milhões de muçulmanos, dessa conotação tão negativa?

É preciso, claro, interrogar os textos do islão antes de dizer que pertence ao fundo de compreensão islâmica. Para isso é preciso ter os instrumentos e as chaves canónicas e escolásticas de forma a poder interrogar esse texto. Qualquer associação que não faça o esforço de garantir que está ou não ligado ao texto assume posições de forma precoce. São posições e julgamentos sem fundamento e que exigem que nos afastemos antes de emitir esses julgamentos. Essas associações só podem acontecer se o esforço de interpretação justa e correta for realizado. Sendo assim é preciso garantir que explicamos isto às pessoas de uma forma que simplifique os textos canónicos e os torne acessíveis ao comum dos cidadãos. É o que tentamos fazer no reino de Marrocos. Emitimos muitos livretes para desmistificar estes conceitos e simplificá-los. Queremos que possam ser assimilados e compreendidos pelos cidadãos comuns.

Esse esforço de comunicação visa os muçulmanos, nomeadamente de Marrocos. Mas, insisto, como é que podemos explicar aos não muçulmanos essa violência associada de forma abusiva ao islão? Como explicar aos outros que estas pessoas que fazem terrorismo em nome do islão não são o islão?

As agendas destas pessoas dizem muito. Há quatro castas nestas organizações. A primeira é a casta dos iniciadores. São pessoas que não são conhecidas como autoridades em ciências do islão. Se olharmos para o caso de Abu Bakr al-Baghdadi é evidente. O líder do Daesh no Iraque e na Síria tem uma tese de doutoramento sobre a forma de pronunciar e de ler o sagrado Alcorão. Não são ciências essenciais, são ciências que tocam à forma de ler o texto e não à forma de o questionar e de o interpretar. Estes iniciadores são conhecidos, mas foram engolidos pela segunda casta, que é a casta dos mercenários. Estes podem ser mercenários que traficam antiguidades ou petróleo ou que fazem tráfico humano ou de narcóticos. São mercenários de comunicação, de armas, que recebem salários exorbitantes. Estas pessoas engoliram os iniciadores que desapareceram. As pessoas com que temos de lidar hoje são estes mercenários. A terceira casta são os ingénuos. Os que quiseram imigrar para a islamotopia para garantir o paraíso e para os próximos. Chegaram com toda a ingenuidade para viver um islão todo em pureza e perfeição. É o grande choque quando aterram no que achavam ser a islamotopia e percebem que aterraram no inferno. A quarta casta são a carne para canhão. Jovens que vêm para ser heróis depois de terem sido zeros à esquerda. Aos quais prometem o paraíso, a dignidade, a eternidade. Claro que vêm para morrer em combate. Sabemos à partida que estas pessoas a que chamamos jihadistas têm agendas totalmente diferentes. São bandidos que marcham sob uma capa religiosa. É preciso ser claros: ninguém os elegeu para serem os porta-vozes dos muçulmanos e do islão. São líderes autoproclamados que tentam ficar com uma autoridade que não merecem e é preciso ter consciência disso. Essa minoria barulhenta está hoje desiludida porque toda a gente sabe que não falam em nome do islão e dos muçulmanos. Sabemos que são pessoas que falam em nome próprio e das pessoas que enganaram.

O seu país tem uma tradição de islão muito tolerante. Marrocos está suficientemente defendido em relação a esta islamotopia?

Há todo um esforço que corresponde à parte visível do icebergue. É um esforço que deve ser feito de forma contínua, de forma perseverante. O islão como qualquer outra religião é uma estrutura. E toda a estrutura tem uma engenharia que é preciso explorar e redescobrir. Para ter abordagens teológicas no que se refere à explicação em torno desta matriz religiosa. Se esta engenharia não for entendida caímos na administração que inflige escolhas talismanizadas aos cidadãos. Por isso ao longo do ano há congressos, simpósios, encontros e workshops nos quais tentamos esclarecer mais este aspeto.

Segundo, há instituições que operam de forma complementar. A religião no reino de Marrocos estrutura-se em torno de seis pilares complementares. O pilar principal é a comendadoria dos crentes. Temos uma autoridade religiosa que, constitucionalmente falando, é representada por sua Majestade o Rei de Marrocos e esta representatividade da fé muçulmana tira a legitimidade do facto de a fatwa exigir acesso a dados que podem ser muito sensíveis. Quando falamos de guerra, por questões de segurança, é preciso autorização do chefe do Estado para termos acesso a esses dados. Para emitir uma fatwa que se refira a assuntos de paz, de segurança, de serviços secretos ou de economia, é preciso autorização do chefe do Estado para termos acesso a esses dados. A presença do Rei enquanto representante da fé, como Comendador dos Crentes - o que no reino de Marrocos inclui ainda os crentes judeus - esta representatividade tira a legitimidade do facto de termos acesso a esses dados sensíveis de que precisamos para construir uma opinião em torno destas questões sensíveis. O primeiro pilar é portanto a comendadoria dos crentes.

O segundo pilar é o conselho supremo dos ulemas, uma instituição que garante a proximidade com os cidadãos e cidadãs em termo de fatwas e de orientação. A terceira é a liga dos ulemas, a instituição que tenho a honra de moderar, e que se dedica à investigação - temos 15 centros de investigação e 15 centros de aplicação. Somos ao mesmo tempo um Think Tank e um Do Tank. A quarta instituição é a Al-Karaouine que é a mais antiga universidade do mundo, como gostamos nós marroquinos de dizer....

Em Fez?

Sim, a Al-Karaouine em Fez. Esta universidade ocupa-se da formação de recursos humanos de que tem necessidade o campo religioso para que tudo funcione bem. A quinta grande instituição são as confrarias sufis, que são entendidas no reino de Marrocos como instituições funcionais, porque essas confrarias preenchem o vazio que foi deixado pelo esvaziamento e afastamento da família alargada, ou seja, da falta de solidariedade. São também a garantia da vertente de beleza da religião muçulmana, porque é a vertente da alegria, não pode haver só a vertente do lícito e do ilícito, do que se pode fazer e do que não se pode fazer. Também há esta vertente da beleza e da alegria. O sexto pilar é a dimensão logística que é garantida pelo ministério dos assuntos islâmicos, que trata da construção de mesquitas, do salário dos responsáveis religiosos, que zela pelo bom funcionamento dos locais de culto, da preservação do património religioso, etc. Estas instituições funcionam de forma orgânica mas sob a presidência da comendadoria dos crentes. Assim, esta moderação que mencionou existir no Reino de Marrocos, deriva desta engenharia, desta arquitetura religiosa.

É uma fórmula exclusiva do Reino de Marrocos ou existe noutros países do mundo arabo-muçulmano?

Nunca tive conhecimento de uma estrutura similar, a não ser que possa existir nalgum país que não tenha visitado ainda.

De qualquer forma, é algo muito marroquino, até pela figura do rei como comendador dos crentes...

Sim, é uma especificidade marroquina, uma engenharia muito própria do Reino de Marrocos.

Existe algum laço entre a falta de desenvolvimento económico e a deriva terrorista em nome do islão, é a pobreza que leva ao extremismo ou o fator económico não é essencial?

Existe uma organicidade, com dimensões económicas, interpretacional, social, histórica. Uma análise do discurso usado para o recrutamento de jovens almas inocentes pelos terroristas mostra-nos que há magnetismos utilizados para convencer os recrutas a juntarem-se às redes terroristas.

O primeiro magnetismo é o que nós chamamos o da unidade, é o sonho de unidade, "da necessidade de se unir porque o Ocidente está unido, União Europeia, Estados Unidos, Benelux, Commonwealth e nós estamos fragmentados porque conspiraram para fazer de nós uma nação de fragmentados. É tempo de nos unirmos de novo para recuperar o orgulho e a força que foi a nossa no passado. E todos estes chefes de Estado são agentes do Ocidente", dizem eles, que não agem na direção certa. O segundo magnetismo é o da dignidade. "Não tens trabalho, junta-te a nós e faremos de ti o chefe da espionagem do Daesh, o ministro da defesa do Daesh, o diretor disto e daquilo. Não tens dinheiro? Vem ter connosco, estamos sentados num cofre forte com muitos milhões de dólares". Somos convincentes quando estamos sentados em cima de um cofre destes. "Não tem orgulho? Venha ter connosco e vamos dar o seu nome a ruas e até cidades, porque não? Venha ter connosco e vamos casá-lo com a mais bela, a mais piedosa das mulheres deste mundo. Se não estiver casada e for mulher, vamos casá-la com um jihadista que vai ser a alegria da sua vida. Venha ter connosco e estará habilitado a ser um guia internacional", dizem. É o magnetismo da dignidade. O terceiro magnetismo é o da pureza. "Venha e vai praticar a religião da forma mais pura. Da mesma forma que praticava o próprio profeta do islão". Quarto magnetismo é a salvação. "Estamos no fim dos tempos e é preciso garantir um lugar na Arca de Noé ou vai ser tarde demais. É preciso dar o passo". Quinto é o sonho de controlo. "Complicam" dizem, "o mundo para si, quando é um mundo muito simples. Há o lícito e o ilícito, o correto e o incorreto, o divino e o demoníaco, o aqui e o além, o paraíso e o inferno". É um sistema binário, fácil de apreender. E quando já interiorizaram estas chaves de análise vão poder classificar as pessoas e julgá-las enquanto que estas pessoas mistificam o mundo de forma a que a pessoa não tenha acesso ao segredo do que existe e que se deixe sempre ultrapassar e guiar por aqueles que detêm esse segredo que lhe estamos a tentar entregar de forma gratuita e benévola. "Juntem-se a nós para poder controlar o seu destino e o do resto do mundo". São magnetismos. A isto seguem-se os queixumes. A conspiração, o colonialismo, Israel, o dois pesos, duas medidas, a humilhação nos media, o cocktail iraco-afegano-bósnio-indo-centro-africano, a pilhagem das fortunas, o petróleo que aqui custa menos do que a água, a infiltração do sistema de valores, a falsificação da história e da geografia, o facto de terem insultado o profeta do islão e queimado o Alcorão sagrado. Segundo eles, os chefes do Estado não fazem nada para remediar a isto. São eles que oferecem as suas vidas, as suas carreiras, as famílias, as fortunas para retificar esta realidade e voltar a fazer dos muçulmanos uma nação orgulhosa.

É um trabalho de desconstrução que deve ser feito de forma quotidiana. É preciso seguir o que emitem no Youtube, no Twitter, Facebook, Vimeo, Snapchat, Instagram, etc. O que chamamos as redes sociais. É preciso ter células de vigilância. E estas têm de ter pessoas habilitadas a fazer esta desconstrução para preparar as narrativas que vão contrariar este discurso de ódio. Não só isso, mas no Reino de Marrocos até invertemos a tendência. Porque deixá-los produzir confortavelmente as suas narrativas enquanto nós só reagíamos para contrariar essas narrativas era dar-lhes o luxo de ficarem num lugar confortável. Por isso começámos a produzir nós um discurso que eles têm de contrariar. E funcionou. E estamos felizes.

Com as mesmas armas, as redes sociais?

Nas redes sociais temos jovens que fazem educação, peer education. As pessoas com discurso de ódio conseguem emitir alguns milhares de tweets por dia. A boa notícia é que temos cinco milhões de sábios do islão no mundo. Se estes sábios estão habilitados para emitir um tweet por dia serão cinco milhões de tweets e vão inundar os tweets deles. É uma questão de desenvolvimento de capacidades para contrariar estes discursos de ódio.

Qual a experiência em Marrocos com jovens que voltam da Síria?

Há um trabalho que se faz nas prisões com estas pessoas, Os regressados do Daesh. É um trabalho de desconstrução. Começamos por traçar o seu perfil, não só cognitivo, mas também psicológico. Estamos acompanhados por psicólogos, psiquiatras para ver as lacunas que temos de preencher. Há todo um trabalho de fundo que tem três entradas maiores. Uma entrada textual, o texto, as ferramentas de compreensão do texto. A segunda é a habilitação para uma boa integração - profissional e outra. A terceira é a dimensão jurídica que habilita estas pessoas a compreenderem a sua sociedade em termos de direitos e de direitos humanos e de deveres como cidadãos na sociedade. É um trabalho de habilitação que se faz e tivemos boas práticas neste aspeto porque houve no ano passado e no anterior perdões reais para muitas destas pessoas que deram provas de boa integração e boa assimilação destas três dimensões. Chamamos a esta iniciativa a Reconciliação. Não é a reconciliação da sociedade com estas pessoas, mas é a reconciliação deles com eles próprios, com os textos religiosos e com a sociedade.

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