Duterte: da comparação a Hitler à visita ao museu do Holocausto

Presidente das Filipinas está numa visita histórica de três dias a Israel, um importante fornecedor de material de defesa do seu país.

"Hitler massacrou três milhões de judeus. Bom, há três milhões de drogados [nas Filipinas]. Ficaria feliz de os massacrar", disse Rodrigo Duterte em setembro de 2016, três meses depois de tomar posse como presidente das Filipinas. Hoje, dois anos depois, está em Israel e visitou esta segunda-feira à tarde o memorial Yad Vashem, dedicado às vítimas do Holocausto.

"Nunca mais. Que o mundo aprenda as lições deste período terrível e ignorado da história humana. Que os corações dos povos em todo o mundo permaneçam sempre abertos. E que as mentes de todos os homens e mulheres aprendam a trabalhar juntos para garantir um refúgio seguro para todos os que estão a ser perseguidos", escreveu Duterte no livro de visitantes do museu.

Apesar de Duterte ter pedido desculpas as judeus pelo comentário em que se equiparava a Hiteler, a sua presença no museu do Holocausto gera polémica em Israel. "Um admirador de Hitler no Yad Vashem", lia-se no editorial do jornal de esquerda Haaretz. "Israel prova, mas uma vez, que está disponível para ignorar as violações dos direitos humanos pela oportunidade de vender armas e assinar contratos de defesa", refere o texto.

Só no ano passado, a indústria de defesa e segurança de Israel exportou um total de 9200 milhões de euros em armas, sendo que cerca de 60% vão para a região da Ásia-Pacífico. Nesse mesmo ano, Manila comprou 21 milhões de dólares (18 milhões de euros) em equipamentos antitanque e sistemas de radar a Israel

"Esta visita é de grande importância" e "simboliza as fortes e calorosas relações entre os nossos dois povos", afirmou em comunicado o ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. As Filipinas acolheram um milhão de judeus que fugiram do Holocausto e votaram, em 1947, a favor da resolução das Nações Unidas sobre a criação do Estado de Israel (foi o único país asiático a fazê-lo).

"Lembramos os nossos amigos e essa amizade floresceu ao longo dos anos e especialmente nos últimos anos", disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, após o encontro com Duterte.

O presidente filipino, por sua vez, defendeu que Israel e as Filipinas "partilham a mesma paixão pela paz. Partilhamos a mesma paixão pelos seres humanos. Mas também partilhamos a mesma paixão por não deixar que uma família seja destruída por aqueles que têm ideologias corruptas".

Segundo os media israelitas, Duterte estava a referir-se às críticas à forma como tem lidado com o problema das drogas no seu país. As organizações de defesa dos direitos humanos acusam-no de inúmeras "execuções" na sua "guerra às drogas", que já fez milhares de mortos.

À porta fechada

Duterte, de 73 anos, está numa visita oficial (não de Estado), a primeira de um presidente das Filipinas a Israel. A oposição ao governo de Benjamin Netanyahu, assim como os defensores dos direitos humanos, criticam a visita de três dias do Duterte, que tem o hábito de usar linguagem forte e insultuosa. Talvez por isso, a maioria dos eventos durante a sua viagem são à porta fechada.

Mesmo antes de partir para Israel, Duterte voltou a causar polémica, dizendo que o aumento dos casos de violações e agressões sexuais em Davao se deve ao facto de a cidade (onde foi autarca durante mais de duas décadas) ter "muitas mulheres bonitas".

Num evento para trabalhadores filipinos, fechado aos media israelitas mas não aos jornalistas que viajaram com ele desde Manila, Duterte terá defendido as suas declarações polémicas sobre violações. Segundo a jornalista Pia Gutierrez, do canal filipino ABS-CBN News, Duterte disse que era uma piada, dizendo que tinha direito a fazê-la devido à liberdade de expressão e a democracia. Segundo os jornalistas presentes, os assessores de Duterte terão também tentado que este contivesse a sua linguagem.

Atualizado às 16.30 com a mensagem de Duterte no livro de visitantes do museu

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?