Trump felicitou Erdogan após vitória no referendo que deu mais poderes ao presidente turco

Observadores internacionais concluíram que a votação no referendo decorreu com liberdades fundamentais reduzidas

Poucas horas depois de começarem a ser conhecidos os resultados na Turquia, esta segunda-feira, o presidente norte-americano telefonou ao seu homólogo turco para o felicitar pela vitória, embora estreita (51,4%), no referendo que lhe deu mais poderes. A iniciativa de Donald Trump acontece depois de o relatório preliminar dos observadores internacionais, que acompanharam o processo eleitoral, ter indicado que aquele referendo decorreu num clima em que "as liberdades fundamentais para um processo genuinamente democrático, estavam reduzidas".

Segundo noticia o The Guardian, na edição desta terça-feira, a mensagem de Trump denota, no entanto, um tom diferente da declaração emitida pelo Departamento de Estado dos EUA no mesmo dia, que pediu a Recep Tayyip Erdogan para respeitar os direitos fundamentais de seus cidadãos e registou as conclusões do relatório preliminar em relação a "irregularidades no dia do voto e um período de campanha difícil".

O resultado do referendo, favorável a Erdogan, permitirá aprovar um pacote de emendas constitucionais que redimensionarão drasticamente o sistema de governo do país. A proposta substitui o sistema parlamentar do país por uma presidencial e suprime o papel do primeiro-ministro. A tendência para o surgimento de um poder ditatorial está à vista.

Questionado durante o briefing diário da Casa Branca sobre a acumulação de poder de Erdogan, o secretário de imprensa Sean Spicer repetiu a declaração do departamento de Estado e remeteu a reação até que um relatório final dos observadores internacionais seja publicado.

Segundo um comunicado da Casa Branca, os dois líderes discutiram os recentes acontecimentos na Síria, a resposta dos EUA ao ataque químico naquele país e "concordaram com a importância de responsabilizar o presidente sírio Bashar al-Assad".

Trump também tinha falado com Erdogan no início de fevereiro. Na altura, reafirmou a Turquia como um forte aliado da NATO e um parceiro na luta contra o Estado Islâmico. Os líderes voltaram a discutir a campanha contra o grupo de terroristas na chamada na segunda-feira e concordaram na "necessidade de cooperar contra todos os grupos que usam o terrorismo para alcançar seus fins", disse a Casa Branca.

As duas nações discordam, porém, do plano americano de combater o Isis na Síria. Erdogan tem profundas reservas sobre o plano americano de armar as forças curdas, que a Turquia considera terroristas. A questão tem sido um ponto crítico nas relações EUA-Turquia, e esteve na agenda durante uma visita a Ancara no mês passado pelo secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson.

O movimento de Erdogan para consolidar o seu poder, potencialmente até 2029, chega apenas oito meses depois de ter sobrevivido a uma tentativa fracassada de golpe no verão passado. Erdogan respondeu declarando um estado de emergência e reprimindo os opositores. Com o objetivo de "limpar todas as instituições estatais", o presidente suspendeu ou demitiu cerca de 120 mil pessoas, incluindo funcionários do Estado, professores, burocratas e detidos 47 mil em acusações relacionadas a golpes.

O aparente apoio de Trump a Erdogan contrastou com as respostas cautelosas de vários líderes europeus. Alguns chefes de Estado e governo pediram contenção e um compromisso com os valores democráticos. Outros foram mais diretos e declararam o voto de domingo como o fim da tentativa de dez anos da Turquia para se unir ao bloco de 28 membros da Europa. "Com o que aconteceu ontem, as perspectivas de adesão (da Turquia) estão enterradas, em termos práticos", disse o chanceler austríaco, Christian Kern, em um comunicado. "Estamos a entrar numa nova era", declarou.

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