Do Ku Klux Klan à alt-right, a nova vida dos supremacistas brancos

Se uns usam vestes brancas e chapéus bicudos, outros vestem calça de ganga e camisa. Mas todos concordam que a raça branca é superior às outras e deve dominar a sociedade.

Chamem-se Ku Klux Klan, alt-right, neonazis, movimento nacional socialista ou Partido Americano da Liberdade, todos partilham uma crença: a de que a raça branca é superior a todas as outras e, por isso, deve dominar a sociedade. Ao todo, a organização de defesa dos direitos humanos Southern Poverty Law Center contabiliza mais de 1600 grupos extremistas e supremacistas brancos nos EUA. Foram membros desses grupos que, no sábado, se reuniram em Charlottesville, na Virgínia, num protesto chamada "Unir a Direita" e que terminou em confrontos com a polícia e com contra manifestantes, fazendo três mortos e 19 feridos.

Nascido em meados do século XIX num Sul que não aceitava a derrota na Guerra Civil americana e o fim da escravatura, alguns membros do KKK mantêm a tradição de usar vestes brancas e chapéus bicudos. Mas hoje a maioria dos supremacistas brancos são millennials, de calça de ganga e camisa, e muito ativos nas redes sociais. Mais, a maior parte nem sequer pertence a nenhum grupo. "A ausência de filiação torna-os mais difíceis de identificar e faz com que qualquer grupo que surja tende a ser extremamente flexível e poroso", explicou à CNN Richard Spencer, presidente do National Policy Institute.

As críticas ao presidente Donald Trump multiplicaram-se após este não ter explicitamente condenado os supremacistas brancos, preferindo criticar "todos os lados". Se num segundo momento a Casa Branca veio esclarecer que as palavras de Trump se referiam também aos extremistas brancos, o próprio fez ontem uma intervenção a partir da Casa Branca em que garantiu que "o racismo é o mal - e aqueles que propagam a violência em seu nome são criminosos, incluindo o KKK, neonazis, supremacistas brancos e outros grupos de ódio são repugnantes para tudo o que nos é caro enquanto americanos".

Mas o facto de o presidente ter convidado Steve Bannon, cofundador do site de extrema-direita Breitbart News para estratega principal da Casa Branca alimenta a teoria de que o presidente está ligado aos extremistas. Próximo da alt-right, movimento da direita alternativa (alternative right, no original em inglês), Bannon é conhecido pelas declarações racistas e antissemitas.

Dois dias depois da violência ter chegado às ruas de Charlottesville, James Alex Fields, o simpatizante neonazi que lançou o carro contra a multidão, acabando por causar a morte a Heather Heyers (nos confrontos morreram ainda dois polícias), de 32 anos, viu o tribunal negar-lhe a libertação a troco do pagamento de uma fiança. O homem, de 20 anos, está detido por homicídio em segundo grau, três crimes de ferimentos com intenções criminosa e um de atropelamento e fuga.

Os críticos do presidente consideram que os supremacistas brancos ganharam novo fôlego na América durante a campanha para as presidenciais de 2016, considerada uma das mais feias dos últimos anos. Trump, sobretudo, foi acusado de veicular ideias racistas, antissemitas e anti-muçulmanas. Em novembro, o milionário criticou a extrema-direita, mas em julho a alt-right ganhou espaço nos media depois de Trump publicar no Twitter uma imagem da rival democrata, Hillary Clinton, ao lado de um monte de dinheiro e de uma estrela de David e com a frase: "Candidata mais corrupta de sempre". Mais tarde soube-se que a imagem já fora publicada num site da alt-right.

Reivindicando ter entre os seus seguidores "intelectuais, "conservadores naturais" e "a equipa dos memes" - expressões que constam de um guia do Breitbart -, a alt-right usa a internet e as redes sociais para defender a "identidade branca" e os valores da "sociedade tradicional ocidental", como escreveu Richard Bertrand Spencer, o homem que em 2008 criou o termo alt-right. Escudados na liberdade de expressão, os membros do grupo acham que a lei protege o seu direito a ofender os outros. Uma atitude que os críticos descrevem como racismo, misoginia e antissemitismo.

Identificados pelo Twitter

Mas se os grupos supremacistas brancos usam as redes sociais para espalhar a sua mensagem, depois dos incidentes de Charlottesville também foram vítimas delas. Depois de surgirem de rosto descoberto em fotos reproduzidas pelos jornais de todo o mundo e que circularam pela internet, vários manifestantes foram identificados pela conta de Twitter "Yes, You"re Racist". E alguns já começaram a sofrer as consequências. Cole White, da Califórnia, foi despedido do restaurante onde trabalhava. Já Peter Cvjetanovic, também identificado pela mesma conta, recebeu ameaças de morte depois de aparecer a gritar e a segurar uma tocha numa das imagens. O jovem veio a público garantir que não é o "racista zangado" que todos veem ali.

Se a alt-right é o nome mais sonante dos supremacistas brancos na atualidade, o KKK continua a ser o que mais marca o imaginário. Fundado por antigos soldados confederados após a guerra civil americana (1861-65), o primeiro grupo de Klansmen durou pouco, mas em meados dos anos 1910 o KKK ressurgiu, sobretudo nas áreas urbanas do Midwest e da costa ocidental dos EUA. Ali, no coração daquelas comunidades protestantes, perseguia não só negros, mas também católicos e judeus, queimando edifícios e atacando e matando quem se lhe opunha.

O terceiro grupo de Klansmen surgiu depois da II Guerra Mundial e está ativo até hoje. Segundo o Southern Poverty Law Center estamos a falar de cinco mil a oito mil indivíduos divididos em inúmeros subgrupos. O próprio KKK dava conta no ano passado de um aumento dos seus membros, sobretudo no Sul profundo dos EUA.

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