Discípula de longa data de Gerry Adams é a nova líder do Sinn Féin

Natural de Dublin, educada em escolas privadas, Mary Lou McDonald, de 48 anos, vai continuar a lutar pela unificação da ilha

Gerry Adams e Sinn Féin tornaram-se praticamente sinónimos. Há três décadas e meia que o político - atualmente com 69 anos - é o rosto do partido. Agora decidiu finalmente abandonar a liderança e passar o testemunho. Mas não a uma pessoa qualquer: Mary Lou McDonald, de 48 anos, é há muito tempo sua discípula. O que poderá explicar o facto de mais ninguém se ter candidatado ao lugar.

Há nove anos era vê-la nas ruas de Dublin, capital da Irlanda, em campanha contra o Tratado de Lisboa. Este foi a referendo. Duas vezes. Uma em 2008. Em que foi chumbado pelos irlandeses. A segunda - quando foi aprovado - a 2 de outubro de 2009. Já McDonald tinha assumido a vice-presidência do Sinn Féin há oito meses. "O Tratado de Lisboa é um mau negócio", dizia um dos seus cartazes.

Ao contrário do que diziam os partidários do tratado na altura, não foi ele que salvou os irlandeses da crise, do desemprego, da pobreza, da imigração forçada, de um resgate da troika [FMI, BCE e Comissão Europeia] no valor de 64 mil milhões de euros e de toda a austeridade a ele associada. Mas isso são águas passadas e hoje a economia irlandesa prospera. Nesse contexto, a 10 de fevereiro, McDonald assumirá então a presidência do Sinn Féin.

"Sei que tenho uma tarefa difícil pela frente ao suceder neste cargo a Gerry Adams, mas eu tenho as minhas próprias capacidades e, com a ajuda dos militantes, caminharemos pela estrada que levará à unidade irlandesa. Unir esta ilha é o melhor para todos os cidadãos e é agora nossa tarefa convencer os nossos amigos unionistas e vizinhos disso e encorajá-los a ajudar-nos a construir uma nova Irlanda. Entramos numa nova era. Podemos olhar em frente com confiança", disse McDonald, ao ser confirmada, no domingo, como a próxima líder do Sinn Féin.

Eurodeputada de 2004 a 2009, McDonald é deputada no Parlamento da Irlanda desde 2011. Nas legislativas irlandesas de 2016, o Sinn Féin foi a terceira força política mais votada e conseguiu passar de 14 para 23 deputados. Reflexo da revolta dos eleitores contra os partidos do establishment, o resultado obtido pelo partido pode também ser explicado pelo facto de ter conseguido reinventar-se como partido antiausteridade. Durante muito tempo foi visto como a ala política dos separatistas do Exército Republicano Irlandês (IRA).

As raízes do Sinn Féin (expressão gaélica para Nós Mesmos) remontam a 1905. O partido atual resulta de múltiplas cisões. Além do Parlamento da Irlanda (em gaélico Dáil Éireann), há deputados do Sinn Féin no Parlamento da Irlanda do Norte (província autónoma do Reino Unido) e, como referido, no Parlamento Europeu. O partido também tem lugares de deputado na Câmara dos Comuns britânica (embora nunca os ocupe). Durante mais de três décadas, o Sinn Féin foi sinónimo de IRA, grupo armado que lutava pela força das armas contra o domínio britânico da Irlanda do Norte e defendia a união da ilha irlandesa. O conflito entre separatistas e unionistas fez mais de 3500 mortos.

Embora não se distancie declaradamente do passado paramilitar, Mary Lou McDonald espera agora poder levar o partido para além das gerações que estiveram mais ligadas ao IRA. E, para isso, conta com Michelle O"Neill, que é desde há um ano a líder do Sinn Féin na Irlanda do Norte. Sucedeu a outro histórico, Martin McGuinness, que morreu no ano passado. O desafio mais imediato parece ser o das negociações do brexit: se o Reino Unido sair da União Europeia haverá fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. A ideia não agrada a muita gente, sobretudo aos membros do Sinn Féin. O"Neill já chegou a defender um referendo sobre a unidade irlandesa, por causa das negociações do brexit.

McDonald tem tudo menos o perfil típico de militante de esquerda radical do Sinn Féin. Nascida numa família de classe média, estudou em escolas privadas e frequentou a conceituada Trinity College de Dublin. Começou na política como membro do Fianna Fáil (centro-esquerda), o qual abandonou em 1998. Casada e com dois filhos, é conhecida, sobretudo entre os jornalistas e os colegas no Parlamento, como uma pessoa assertiva, frontal, que diz o que tem a dizer, aquilo que pensa, doa a quem doer. E, por isso, é amá-la ou odiá-la.

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