África entre o desafio de segurança e o desejo de alcançar o seu potencial

Embaixadores africanos acreditados em Lisboa falam dos desafios e potencialidades dos seus países e do continente

"Estamos orgulhosos do que África conquistou e continuamos empenhados na nossa visão de uma África integrada, próspera e pacífica, liderada pelos seus próprios cidadãos e representando uma força dinâmica na arena internacional", defendeu a embaixadora de África do Sul em Portugal, Mmamokwena Gaoretelelwe. "Marrocos defende a emergência de uma nova África, que seja ela própria a gerir-se, explorando plenamente os seus recursos humanos", referiu a representante marroquina em Lisboa, Karima Benyaïch.

A África do Sul não é Marrocos assim como Cabo Verde não é a Nigéria ou o Egito não é Moçambique. Mas há desafios que têm em comum, seja a nível de segurança ou do desenvolvimento económico e social, e partilham todos o desejo de alcançar o potencial de cada país a nível individual, mas também continental. Um continente com 55 países espalhados por 30 milhões de quilómetros quadrados onde hoje vivem 1,2 mil milhões de pessoas. Um número que deverá mais do que duplicar até 2050.

"Na independência, o nosso continente e os nossos países individuais estavam profundamente divididos e incapazes de capitalizar a nossa própria riqueza. Durante décadas, a África parecia ficar cada vez mais para trás em relação ao resto do mundo", afirmou Paul Kagame, presidente do Ruanda, que este ano assumiu a presidência da União Africana - o Egito será o próximo líder. "Esses dias estão a chegar ao fim, e uma maior integração regional dentro de África é uma das grandes razões pelas quais isso está a acontecer", escreveu no relatório da Africa Growth Initiative (AGI), do Brookings Institute.

O DN, antecipando a celebração do Dia de África, convidou os 16 embaixadores de países africanos acreditados em Portugal a indicarem por escrito quais são os desafios e potencialidades das suas nações e do continente, tendo recebido respostas de 11 deles. "Uma tarefa difícil essa de fazer uma descrição das potencialidades e desafios que enfrenta o continente africano, visto por um africano, uma vez que a imagem que foi projetada sobre este continente é da pobreza, desolação, guerras, conflitos e doenças, ao oposto das suas riquezas, atraente e rica cultura e civilização desconhecida", escreveu o embaixador da Guiné Equatorial, Tito Mba Ada Nsue.

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Segurança
Apesar dessa visão que pode ser redutora, vários diplomatas enumeraram a segurança como um dos desafios dos seus países. É o caso, por exemplo, do primeiro-secretário da embaixada da Líbia, Elhassan Rabha: "O maior desafio que enfrenta a Líbia atualmente consiste na segurança. A comunidade internacional tem a obrigação de prestar apoio ao Estado líbio a fim de estabelecer a segurança, controlar a proliferação de armas e ajudar na realização de eleições legislativas e presidenciais antes do fim deste ano e apoiar o plano do enviado da ONU para a Líbia."

Os líbios estão ainda a recuperar da guerra civil e há conflitos noutros pontos do continente, como no mais jovem país, o Sudão do Sul, na República Centro-Africana (alvo de sanções da União Africana) ou na República Democrática do Congo. O terrorismo também deixa marcas, com o grupo al-Shabab na Somália ou o Boko Haram (que se juntou ao Estado Islâmico) na Nigéria.

"As principais restrições que impedem o desenvolvimento na Nigéria, como energia, infraestruturas desadequadas, corrupção e insegurança, especialmente no nordeste, estão a ser abordados através de um investimento massivo em infraestruturas, reconstrução, reabilitação e o aumento da capacidade energética. Além disso, o setor da segurança está a ser reformado para maior eficiência", disse a embaixadora nigeriana, Ngozi Ukaeje, referindo-se aos "bem conhecidos potenciais económicos" do seu país em África. Todos os países apostam no fortalecimento das relações com Portugal.

Eleições
A média de idades da população africana pode rondar os 19,5 anos, mas a dos seus líderes é de 65 anos. O tunisino Beji Caid Essebsi é o mais velho, tem 91 anos, e Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, o presidente há mais tempo no poder em África (quase 39 anos), tem 75 anos. O líder mais jovem, com 46 anos, é Joseph Kabila, na República Democrática do Congo. Tendo assumido o poder após o assassinato do pai, em 2001, foi eleito em 2006 e reeleito em 2011. O seu segundo mandato devia ter terminado em 2016, mas as eleições não chegaram a ocorrer, estando marcadas para este ano.

"A democracia está a ganhar raízes em África, mas os desafios mantêm-se, particularmente autocracia e o recurso a uma liderança forte acima da confiança nas instituições. Apesar de as eleições se estarem a tornar a norma no continente africano, são muitas vezes contestadas e por vezes acabam em violência", indicou o diretor do Centro para a Democracia e Desenvolvimento de África Ocidental, Idayat Hassan, num relatório do Centro Europeu para a Gestão de Políticas de Desenvolvimento. "Hoje, a maioria dos regimes não é claramente democrática nem totalmente autoritária. Habitam uma zona ampla e ambígua entre a democracia liberal e o autoritarismo fechado", acrescentou.

Transição económica
"Envolvida desde a revolução de 2011 num processo democrático, a jovem democracia tunisina alcançou progressos consideráveis no plano político, nos Direitos Humanos e nas liberdades", disse a embaixadora da Tunísia, Saloua Bahri. "A Tunísia empenha-se em apressar a aceleração da sua transição económica para enfrentar os desafios do relançamento económico através do desenvolvimento de investimentos, da criação de emprego e do desenvolvimento regional."

"Libertar as forças internas de África" é o primeiro de seis grandes desafios para o continente descritos no relatório da AGI, publicado no início do ano, falando na necessidade de mais integração regional. O segundo desafio é o "financiamento sustentável para o desenvolvimento económico", lembrando-se, por exemplo, que quase 40%, ou mil milhões de pessoas, da África subsariana vivem hoje em áreas urbanas. Nos próximos 25 anos, esse número deverá duplicar, trazendo desafios sem precedentes para a região.

Ninguém fica para trás
O terceiro desafio prende-se com "a necessidade de alargar os benefícios do crescimento", para garantir que ninguém fica para trás. Apesar de a percentagem de pobres ter caído de 55% em 1990 para 43% em 2012, por causa do crescimento populacional, o número absoluto de pobres tem aumentado, segundo o Banco Mundial. "Em 2018, celebramos o centenário de um dos grandes filhos de África, Nelson Mandela, que lutou pela nossa liberdade na África do Sul e no resto do nosso continente. Contudo, não nos podemos esquecer que a liberdade continua incompleta sem a libertação económica da maioria do nosso povo", disse a embaixadora sul-africana.

O quarto desafio é "repensar a transformação estrutural de África", com o nascimento de novas indústrias. "A África deve produzir estratégias de desenvolvimento inovadoras, bem como medidas cuidadosamente desenhadas para atrair investimento estrangeiro; investir em áreas primordiais como na educação, formação e treino de habilidades para facilitar uma industrialização bem-sucedida e duradoura", indicou o embaixador da Guiné Equatorial.

Potencial digital
O quinto desafio da AGI é "aproveitar o potencial digital" de África. "A Argélia está empenhada em enfrentar os seus próprios desafios de maneira a preservar a sua segurança num ambiente perturbado, manter o crescimento e o desenvolvimento graças à diversificação da sua economia para além dos hidrocarbonetos e dominar as novas tecnologias do conhecimento a fim de garantir ao povo argelino bem-estar, justiça social e solidariedade nacional", indicou a representante argelina em Lisboa, Fathia Selmane.

"Moçambique encara com otimismo e determinação os desafios da afirmação da sua identidade, constituindo desafios prementes a infraestruturação em quase todos os domínios económicos e sociais e a formação do capital humano, daí a forte aposta na sua juventude", indicou o embaixador moçambicano, Joaquim Bule. O último desafio da AGI é "reavaliar as parcerias globais", com o foco na China.

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