Depois do Irma, o Jose: "Já nos estamos a preparar para o próximo"

Portugueses na rota dos furacões relatam o que estão a viver. Pelo menos dez pessoas morreram devido à tempestade

"Horrível." Foi assim que a portuguesa Sónia Teixeira, que vive há dez anos em Saint Barts, descreveu a situação nesta ilha nas Pequenas Antilhas após a passagem do furacão Irma. "Tivemos que segurar portas e janelas com as mãos, entrava água por todo o lado", relatou ao DN, explicando que resolveu ficar em casa com o marido e os filhos, um de 3 anos e outro de 18 meses, e com a irmã e o cunhado, e não ir para um abrigo. Agora, enquanto nas ruas ainda se procede à limpeza, falta luz e água e a comida já é pouca, a atenção vira-se para o Jose. "Já nos estamos a preparar para o próximo pois dizem que está na nossa direção."

O Irma, o furacão mais forte alguma vez registado no Atlântico (categoria 5, a máxima), atingiu Saint Barts na quarta-feira com ventos de quase 300 km/h. "Fiquei com muito medo. Por momentos pensei que podia acontecer o pior", conta Sónia. Um dos filhos só lhe perguntava se ia morrer. "Foi horrível", disse, indicando que já tinha passado por outra tempestade, há três anos, mas nessa altura não tinha sido "nada de especial". Desta vez, "houve pessoas que tiveram que fugir para a cisterna, que é a reserva da água da chuva, porque a casa foi pelos ares".

O Irma deixou um cenário de destruição por onde passou: o primeiro-ministro de Antigua e Barbuda, Gaston Browne, disse que 90% dos edifícios desta última ilha ficaram em escombros e houve pelo menos um morto; em Saint-Martin, 95% da ilha está destruída, segundo o deputado Daniel Gibbs, havendo relato de cinco mortos; em Anguilla, há uma vítima mortal a registar e os danos são "severos e, em alguns pontos, críticos"; em Porto Rico, além de três mortos, um milhão de pessoas (quase 70% da população) estavam ontem sem eletricidade e meio milhão sem água.

Todas estas ilhas, em especial Antigua e Barbuda, estão agora no caminho do furacão Jose (categoria 2). Mesmo que o olho da tempestade, em redor do qual os ventos são mais fortes, não atinja diretamente estas ilhas, o mau tempo irá dificultar as limpeza e o auxílio às populações. O Reino Unido e a França, que administram vários territórios nas Caraíbas, estão atentos à situação. Londres já desbloqueou 13 milhões de euros e enviou um navio militar para ajudar as zonas afetadas, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, irá viajar até lá "o mais depressa possível". Até ao princípio da tarde de sábado, quando chegar às pequenas Antilhas com ventos superiores a 180 km/h, o Jose ainda poderá mudar de rota.

Foi uma mudança na rota do Irma que "poupou" Punta Cana, na República Dominicana, segundo Helder Vilas Boas. O português, agente do artista Juan Magán, optou por trocar o condomínio fechado onde vive há nove meses pelo hotel Four Points by Sheraton, mais afastado da costa. "Tínhamos tirado os colchões das camas para nos protegermos e planeado ir para a casa de banho, que não tem janelas, mas não foi necessário", explicou ao DN. No condomínio onde vive, houve ordens para retirar ares condicionados e todo o tipo de objetos que pudessem ser levados pelo vento. Ontem, Helder ainda não tinha voltado a casa - "o exército está à porta do hotel, ainda não fui lá" - mas os vizinhos já lhe tinham dito que não houve problemas. O plano era deixar o hotel e viajar para a Europa, onde o artista que representa tem espetáculos marcados.

Em Cuba, vários turistas portugueses que estavam na zona de Cayo Coco foram ontem levados para Havana e Varadero, antes da passagem do Irma. "As autoridades cubanas pediram-nos para transmitir que todos os cidadãos que se encontram em turismo naquela região serão deslocalizados para outros locais onde se prevê que não haja consequências de maior com a passagem do furacão", disse à Lusa o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro. Vera Costley-White, uma de cem turistas que estava em Cayo Coco e que ia seguir de autocarro para Havana, disse à agência que o ambiente entre todos era calmo.

O Irma devia passar entre a ilha de Cuba e as Bahamas, a caminho da Florida. O luso-venezuelano Alberto Ippolito vive em Miami há cinco anos e não está a pensar deixar a casa, num edifício de 43 andares, apesar de admitir que "não são brincadeira" ventos de 300 km/h. "Estou confiante de que perto das escadas e elevadores estarei bem. Resta saber o que acontecerá depois: as cheias, a falta de eletricidade, água..." O Irma deverá atingir a Florida no fim de semana, mais fraco (categoria 4). Segundo Ippolito as autoridades estão desta vez mais preocupadas do que noutras tempestades. "As pessoas não estão alarmadas mas compraram muita água e comida em lata. Os supermercados ainda têm produtos e existem filas para pagar mas nada demasiado caótico", explicou.

Com Jéssica Lucas

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