Depois de ajudar à paz, Papa vai à Colômbia pedir a reconciliação

Francisco chega a Bogotá para uma visita de cinco dias que o levará a Villavicencio para falar com vítimas do conflito, Medellín e Cartagena das Índias. Governo assinou trégua com ELN

"Não temos direito a permitir mais outro fracasso neste caminho de paz e reconciliação", disse o Papa Francisco durante uma visita a Havana em dezembro de 2015, referindo-se às negociações que ali então decorriam entre o governo colombiano e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Oficialmente, Francisco não teve qualquer interferência no diálogo que culminou no acordo de paz assinado em setembro de 2016, mas ambas as partes reconheceram a sua autoridade moral e papel--chave no processo. Hoje, a Colômbia que o Papa visita está mais próximo da paz - a última guerrilha no ativo, o ELN, anunciou um cessar--fogo - faltando contudo reconciliação num país ainda dividido.

O lema da viagem do Papa - a quinta à América Latina - é "dar o primeiro passo". Numa mensagem vídeo na véspera da partida, Francisco lembrou que "dar o primeiro passo encoraja-nos a ir ao encontro do outro e a estender a mão". E que "a paz é o que a Colômbia procura desde há muito tempo e trabalha para conseguir. Uma paz estável, duradoura, para nos vermos e tratarmos como irmãos, nunca como inimigos", defendendo também a reconciliação.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, lembrou que as palavras do Papa "sempre nos deram alento para que insistíssemos na busca da paz" e que o país está pronto para o receber "de braços e coração abertos à sua mensagem de amor e reconciliação". O país que viveu mais de meio século de conflito, que deixou 260 mil mortos, ficou dividido depois da assinatura dos acordos de paz, no final de quatro anos de negociações. Num referendo, os colombianos disseram "não" ao primeiro acordo, por uma diferença de 55 mil votos. Um acordo revisto seria depois apenas passado pelo Parlamento e atualmente as FARC já não são uma guerrilha, mas um partido político - Força Alternativa Revolucionária do Comum.

Entretanto, o governo começou o diálogo de paz também com a última guerrilha ativa no país, o Exército de Libertação Nacional (ELN). Dois dias antes da chegada do Papa, ambos anunciaram um cessar-fogo bilateral, mas que só entrará em vigor a 1 de outubro. Curiosamente, entre os fundadores do ELN, em 1964, estavam vários padres.

O Papa parte hoje às 11.00 de Roma (meio-dia em Lisboa), chegando a Bogotá às 16.30 locais (22.30) para a cerimónia de boas-vindas. O programa oficial começa só amanhã, com um encontro com Santos e com os bispos colombianos antes da missa no Parque Simón Bolívar. Francisco dormirá sempre em Bogotá, mas entre sexta e domingo viajará a mais três cidades colombianas. A primeira será Villavicencio, onde além de dar missa, participa num encontro de oração para a reconciliação nacional com vítimas do conflito. No sábado, vai a Medellín para uma missa e encontros com religiosos, e no último dia visita Cartagena das Índias, onde dirá o Angelus em frente da Igreja de São Pedro Claver, patrono dos escravos. Após uma última missa na zona portuária, Francisco volta a Roma, onde chegará na segunda-feira.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Premium

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.