Denunciadas agressões a trabalhadoras de fábricas da H&M e Gap

Os relatos são revelados pela Global Labour Justice e aconteceram entre janeiro e maio deste ano, na Ásia

Dois relatórios do Global Labour Justice (JLG), organismo norte-americano que luta pelos direitos no trabalho, chama a atenção para a violência psicológica e física a que estão sujeitas as trabalhadoras das fábricas que fornecem as marcas H&M e Gap, em zonas do globo como Bangladesh, Camboja, Índia, Indonésia e Sri Lanka.

Os documentos defendem que mais de 540 trabalhadoras são pressionadas diariamente para trabalharem de forma rápida e a baixo custo. Os incidentes relatados reportam-se a janeiro e maio deste ano.

Segundo o jornal britânico The Guardian, a empresa sueca H&M, que conta com 235 fábricas na Índia, insulta e maltrata as trabalhadoras por serem mulheres e pertenceram a uma casta inferior.

O relatório relata episódios na unidade de Bangalore, Karnataka, Índia. Uma trabalhadora, Radhika, descreveu ter sido atirada ao chão e espancada:

"A 27 de setembro de 2017, às 12:30, o meu supervisor apareceu atrás de mim enquanto eu trabalhava na máquina de costura e gritou: "Não está a produzir o que é suposto". Ele puxou a minha cadeira e eu caí. Ele bateu-me, inclusive nos peito. Puxou-me para cima e depois voltou a empurrar-me para o chão. Depois pontapeou-me."

Noutra fábrica fornecedora da Gap na Indonésia, o cenário é o mesmo. Uma mulher descreveu como diariamente ouvia gritos e palavras de escárnio do supervisor, que a pressionava para cumprir metas de produção:

"É idiota! Não pode trabalhar? Se não quer trabalhar pode ir para casa! Cuidado! Eu despeço-a se não continuar a trabalhar. Não precisa de vir amanhã se não puder fazer o trabalho!"

As empregadas de uma fábrica fornecedora da Gap em Biyagama, no Sri Lanka, relatam situações idênticas:

"Os supervisores exigem que trabalhemos à noite, mas não temos transporte para ir para casa. As pessoas da fábrica aproveitam as mulheres para esses horários. Somos assediadas por homens que esperam do lado de fora dos portões da fábrica à noite. Uma colega acabou mesmo por ser assaltada."

Outra trabalhadora de uma fábrica fornecedora da H&M no Sri Lanka, conta como são vítimas de toques físicos indesejados por parte dos operadores de máquinas da fábrica e como sofrem represálias quando os repreendem:

"Os operadores de máquinas vingam-se das trabalhadoras, quando estas os repreendem por lhes tocar ou por as agarrar contra vontade. Às vezes, eles fornecem máquinas que não funcionam corretamente fazendo com que os supervisores nos agridam por não cumprirmos o objetivo".

Jennifer Rosenbaum, diretora da organização JLG, afirma no relatório que os "sindicatos e alguns governos concordam que é essencial uma convenção da Organização Internacional do Trabalho sobre violência de género, embora ainda haja oposição de alguns empregadores."

A H&M e a Gap já reagiram, e garantem realizar "avaliações dos fornecedores de vestuário regularmente", de forma a "garantir que tudo é feito em conformidade" com os valores da marca.

"Todas as formas de abuso ou assédio são contra tudo que o grupo H&M defende. A violência contra as mulheres é uma das violações de direitos humanos mais comuns. A violência baseada no género faz com que mulheres de todo o mundo sofram diariamente, percam saúde, dignidade e segurança", esclareceu a cadeia sueca, numa resposta escrita enviada ao The Guardian.

A Gap mostra-se "profundamente preocupada com as alegações graves levantadas por este relatório. A nossa equipa está atualmente a conduzir uma diligência para investigar e resolver esses problemas", disse uma porta-voz da marca de roupa ao mesmo jornal.

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