Democratas aprovam nomes de Trump mas a conta-gotas

Maioria republicana no Senado garante a confirmação de escolhas do presidente. Mas perante a obstrução democrata, processo pode estender-se até à Primavera.

Quinze dias após a tomada de posse, Donald Trump tem apenas quatro membros do governo confirmados pelo Senado, mais o diretor da CIA e a embaixadora junto das Nações Unidas. O anterior presidente republicano, George W. Bush, em 2001, tinha a totalidade da Administração confirmada e, em 2009, o democrata Barack Obama 12.

Incrédulos e ressentidos com a derrota de Hillary Clinton nas presidenciais de novembro, os democratas estão a recorrer a todos os procedimentos e regras para impedir a confirmação dos nomes propostos pelo presidente republicano na tentativa desesperada de retardarem o que surge cada vez mais como uma evidência: a Administração Trump vai destruir o legada da presidência Obama.

Além do diretor da CIA e da embaixadora junto da ONU, foram aprovados os nomes para o Departamento de Estado, para o da Defesa e da Segurança Interna. Em outros dois casos, as pastas do Tesouro e da Saúde, os nomes foram aprovados de forma inédita, quando os senadores democratas abandonaram a sala, na qual foi contornada a regra do quórum necessário para as votações. As escolhas de Trump nas duas áreas, Steven Mnuchin e Tom Price, têm ainda de serem confirmadas pelo Senado, mas em votação simples.

Áreas fundamentais como a Justiça, o Interior e o Comércio continuam sem titular e a também importante posição de procurador-geral, Jeff Sessions, só na quinta-feira viu ser votada a moção que permite o início do debate para a confirmação. E a escolha para a pasta da Educação, Betsy DeVos, está a ser alvo de uma barragem de críticas não só entre os democratas como provenientes de organizações ligadas ao setor e mesmo das fileiras republicanas.

Duas senadoras republicanas, Susan Collins, do Maine, e Lisa Murkovski, do Alasca, já afirmaram que não votarão a favor de DeVos. Isto significa que esta tem de recolher todos os restantes 50 votos dos republicanos para ser confirmada, pois todos os 48 democratas na câmara alta do Congresso tornaram público que se pronunciarão pelo não, considerando-a sem preparação para o lugar, além de adversária da escola pública.

Perante este quadro entende-se a mensagem do início da semana de Trump, como sempre no Twitter: "Quando será que os Democratas irão confirmar o nosso Procurador-geral e o resto do gabinete! Deviam ter vergonha deles próprios! Não admira que D. C. [Washington] não funcione!".

Para o dirigente da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, a linha de atuação seguida justifica-se plenamente pelo perfil dos candidatos, "a falta de experiência", os "conflitos de interesses" e algumas das suas posições políticas.

A batalha em torno do Executivo de Trump vai estender-se também à personalidade que o presidente designou para juiz do Supremo Tribunal, Neill Gorsuch, tendo Schumer e outros democratas afirmado que vão exigir a chamada "super maioria", isto é, a aprovação do nome por, pelo menos, 60 votos favoráveis. O que, por sua vez, os republicanos já afirmaram que não o irão permitir. Argumentam que seria impensável boicotarem Gorsuch, reputado jurista e com vasta experiência nos tribunais e na advocacia.

Neste caso, os republicanos têm uma "opção nuclear" no seu arsenal. Detendo a maioria, podem votar a anulação da regra da "super maioria", primeiro, para, sem seguida, aprovarem o nome do novo elemento do Supremo por maioria simples.

Em síntese, como explicava na quinta-feira o republicano John Cornyn, "podem retardar as confirmações (...), mas não as conseguirão impedir".

No mesmo dia, um democrata reconhecia essa realidade, mas martelava a ideia de que esta é uma "batalha para durar vários meses", afirmou à AFP Dick Durbin.

Os republicanos correm, de facto, o risco de verem as votações no Senado prolongarem-se até à Primavera, e sofrerem até um ou dois reveses, dos quais o mais previsível será o de DeVos. Mas a estratégia dos democratas não está ela também isenta de riscos. A obstrução sistemática pode mostrar ao eleitor americano a incapacidade do partido em digerir a derrota nas presidenciais e também nas duas Câmaras, onde os republicanos consolidaram a sua posição. E que a sua política de "não" é apenas reflexo de um desejo de vingança sobre Trump.

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