Declaração do fim da ETA lida em basco por jovem de Guernica

Irati Agorria Cuevas, de 21 anos, leu a Declaração de Arnaga no País Basco francês. PM espanhol Mariano Rajoy recusa concentração de etarras presos em troca do adeus às armas

A dissolução da ETA foi ontem confirmada por um grupo de autoproclamados mediadores internacionais na localidade de Cambo-les-Bains, no sul de França, numa cerimónia que se pretendeu carregada de simbolismo.

O cenário escolhido foi a Villa Arnaga, onde viveu, até à sua morte, o dramaturgo Edmond Rostand, mundialmente conhecido pela obra Cyrano de Bergerac. A ler a versão basca da declaração que atesta o fim da organização terrorista esteve Irati Agorria Cuevas.

Com 21 anos de idade, apresentou-se como sendo uma jovem de Guernica, localidade basca, cujo bombardeio, em 1937, pelos alemães da Legião Condor inspirou o famoso quadro de Picasso. O bombardeamento ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola, na qual a Condor apoiou as forças de Franco. Este sairia vencedor e governaria Espanha, de forma ditatorial, até ao ano da sua morte em 1975.

Dezasseis anos antes, em 1959, nascia a Euskadi ta Askatasuna (Pátria Basca e Liberdade), organização que lutou pela força das armadas pela independência do chamado Grande País Basco (que inclui as partes bascas de França e Espanha e ainda Navarra). 853 mortos mais tarde, a ETA desistiu das armas e dissolveu-se.

"Acima de tudo, continua pela frente um processo de reconciliação e vai levar tempo até que todas as partes sejam honestas em relação ao passado. Construir a paz precisa de diálogo político, recorrer só a medidas de segurança e prisão raramente é eficaz. Feridas profundas perduram, famílias e comunidades permanecem divididas",refere a declaração lida por Cuevas, que segundo os media espanhóis foi candidata a vereadora pela formação da esquerda independentista basca EH Bildu em 2015.

Atualmente vinculada à Sare, rede de apoio aos presos da ETA, Irati Agorria Cuevas leu ainda: "Deve haver esforços para reconhecer e dar assistência a todas as vítimas e ainda estão por resolver assuntos importantes, como o dos presos e das pessoas em fuga e é preciso que haja esforços duradouros para chegar a uma total normalização da vida quotidiana e política na região". Atualmente há ainda 297 etarras presos, em Espanha e França, mas também há um a cumprir pena em Portugal. Trata-se de Andoni Fernandez.

"Hoje [ontem] é um dia muito importante, pois marca o fim do último grupo armado na Europa. Esperamos que mais cedo do que tarde, com o esforço de todos, se alcance uma solução justa e duradoura para o País Basco", conclui a Declaração de Arnaga, cujas versões castelhana, inglesa e francesa foram lidas por Cuauthémoc Cárdenas, Jonathan Powell e Michel Camdessus, respetivamente, ex-candidato presidencial mexicano, ex-chefe de gabinete de Tony Blair e ex-diretor-geral do FMI. Além destes nomes, entre os mediadores presentes estiveram também o ex-primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern ou o ex-líder do Sinn Féin Gerry Adams.

"Abrem-se aqui perante nós dois reconhecimentos: o do sofrimento das vítimas e da situação dos presos", disse Jean-René Etchegaray, presidente da Câmara de Bayona. "Existe um conflito político que continua por resolver e que é muito anterior à ETA", sublinhou por seu lado Arnaldo Otegi, coordenador-geral do EH Bildu. Apesar de não estarem em Cambo-les-Bains, os presidentes dos governos do País Basco e de Navarra, Iñigo Urkullu e Uxue Barkos, respetivamente, anunciaram que vão promover a criação de um grupo de trabalho sobre política penitenciária para impulsionar um processo de "concentração dos presos perto das suas áreas de residência". Mas o primeiro-ministro espanhol fechou a porta a uma concentração de presos e garantiu que os crimes continuarão a ser investigados e as penas a ser cumpridas. Numa declaração institucional, Mariano Rajoy sublinhou: "A democracia espanhola venceu a ETA. Não houve nem haverá impunidade".

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