De visita à Ásia, Obama diz adeus à Guerra Fria, de olho na China

Pela 10.ª vez no continente desde que chegou à Casa Branca, o presidente anunciou o fim do embargo à venda de armas ao Vietname, mas ida a Hiroxima na sexta é ponto alto desta visita.

Desde que chegou à Casa Branca em 2009, Barack Obama já protagonizou dez visitas à Ásia. E nunca escondeu que a América olha cada vez mais para os parceiros asiáticos, num esforço para contrariar o poderio da China na região. Prestes a chegar ao fim do segundo mandato, Obama veio anunciar, ontem em Hanói, o fim do embargo à venda de armas ao Vietname, pondo fim a um dos últimos "vestígios da Guerra Fria". Hoje vai falar aos vietnamitas sobre as relações entre os dois países, mas a operação de charme obamiana culmina na sexta-feira com a inédita presença de um presidente americano em Hiroxima, mais de 70 anos após os EUA terem lançado uma bomba atómica sobre a cidade, pondo fim à II Guerra Mundial.

Terceiro presidente americano a visitar o Vietname desde o restabelecimento das relações entre os velhos inimigos em 1995, Obama é o primeiro a ser demasiado novo para ter combatido na guerra que os opôs durante duas décadas, até 1975. Condicionando a venda de armas ao Vietname à melhoria dos direitos humanos, Obama garantiu que o fim do embargo americano "não está relacionado com a China", mas sim com "o desejo de completar um longo processo de normalização das relações".

Na conferência de imprensa com o presidente Tran Dai Quang, Obama sublinhou que a tensão no mar do Sul da China deve ser resolvida "de forma pacífica" e não por quem "tenta mostrar o seu peso por aí". Vizinho da China, o Vietname é um dos países que mais têm contestado - com o Japão e as Filipinas - o facto de Pequim reivindicar a soberania sobre 80% do mar do Sul da China.

Apesar de ter escapado da crise financeira muito melhor do que os EUA e outras grandes potências, a China não deixou de se confrontar com a preocupação das elites com a sustentabilidade do seu modelo de crescimento. E com a economia a desacelerar - no primeiro trimestre de 2016 cresceu 6,7%, abaixo do ano anterior e longe dos dois dígitos que chegou a alcançar, apesar de se situar dentro dos valores esperados por Pequim -, a liderança chinesa não têm hesitado em tomar posições de força no palco mundial. Sobretudo no mar do Sul da China.

Com os EUA a permitirem a venda de equipamento de defesa marítima ao Vietname já desde 2014, com o fim total do embargo, Hanói pode agora comprar drones, radares, navios de patrulha costeira e aviões de vigilância P-3 Orion.

Na China, o apoio dos EUA aos seus vizinhos e rivais no mar do Sul da China é visto como uma ingerência e uma tentativa para estabelecer a hegemonia americana na região. Washington garante querer apenas manter a liberdade de voo e navegação.

Numa visita centrada nos negócios, Obama assinou um acordo de 11,3 mil milhões de dólares para a venda de cem aviões da Boeing que ficarão ao serviço da companhia low-cost VietJet. A China é hoje o principal parceiro comercial do Vietname, mas as trocas comerciais com os EUA são dez vezes maiores do que há dez anos, chegando a 45 mil milhões de dólares.

Hoje Obama tem na agenda encontros com empresários em Ho Chi Minh, a antiga Saigão. E o presidente americano mostrou-se confiante de que vão ser aprovados pelo Congresso. Em Washington, as reações foram, de facto, positivas, com o republicano Bob Corker, presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros do Senado, a garantir que "o Congresso vai trabalhar com a Administração para garantir que esta mudança na política se enquadra nos interesses dos EUA, incluindo no seu apoio aos direitos humanos". Mas a Human Rights Watch não poupou críticas, denunciando as detenções de jornalistas, ativistas e bloggers no Vietname.

Hiroxima

Do Vietname, Obama segue amanhã para Ise-Shima, no Japão, onde vai participar na cimeira do G7. Mas o momento alto da visita do presidente americano está guardado para sexta-feira, quando depositar uma coroa de flores no memorial de Hiroxima, construído em homenagem às mais de 90 mil vítimas da bomba atómica lançada pelos EUA sobre a cidade em agosto de 1945, três dias antes de largarem uma segunda sobre Nagasáqui.

Criticado em casa por desdenhar de algumas das mais antigas alianças dos EUA - seja com a Arábia Saudita ou com parceiros europeus (basta pensar na base das Lajes) -, Obama fez da Ásia prioridade desde o primeiro dia da sua presidência. E tem sabido aproveitar o crescente receio do poderio China para restabelecer relações mesmo com velhos inimigos como o Vietname.

Segundo o Financial Times, esta "viragem" asiática de Obama enfrenta dois desafios: uma China desafiadora e a resistência em Washington face à Parceria Transpacífico, um acordo de comércio livre entre 12 países que precisa de ser aprovado pelo Senado, controlado pelos republicanos. E a que tanto Hillary Clinton como Donald Trump, a favorita democrata e o quase certo candidato republicano às presidenciais de 8 de novembro, se opõem.

E de quem vai ocupar a Casa Branca a partir de janeiro vai depender muito o rumo da política americana para a Ásia. Se Hillary, apesar da oposição ao tratado de comércio livre, deve seguir as pegadas de Obama, com Trump tudo é possível. O milionário já disse, por exemplo, que pretende sentar-se à mesa com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, para falar sobre o programa nuclear do país.

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