De Port Said a Suez - IV

Mais um tesouro do baú do DN: Eça de Queiroz, com 24 anos, a publicar em 1870 quatro reportagens no Egito, endereçadas ao amigo Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Esta é a quarta e última delas.

A passagem dos hebreus nos lagos Amargos; A terra dos Patriarcas vista de bordo do Fayoum ; A mocidade de Moisés passou-se no istmo ; Abraão e Jacob; ; Fugida de Jesus para o vale do Nilo através do istmo ; Foguetes que estalam sobre a terra bíblica de Gessen ; Perto de Suez ; A maré do mar Vermelho ; Conferência de sábios no deserto ; Os operários aclamam a passagem dos navios ; O Sinai ao longe ; A sede em Suez ; Mr. De Lesseps dá de beber a Suez ; Gente que foge das árvores como de monstros ; As costas da Arábia ; O oásis de Moisés ; Dez anos antes à beira do mar ; Que pancada de alvião!

Os lagos Amargos são os restos do antigo golfo Helisopolete, águas do mar Vermelho que vinham até aqui. Foi neste lugar que passaram os hebreus, guiados por Moisés; foi aqui que ficaram sepultadas as legiões dos faraós, quinze mil homens e mil e duzentos carros. Para o lado do Egito, a lua branqueava uma vasta planície: era Gessen, a terra dos Patriarcas. Os faraós tinham dado aquele lugar aos hebreus, lugar então cheio de culturas e de searas, hoje coberto de areias. Foi dali que eles partiram em demanda de Canaã. Dali tomaram para o sul, para os desertos da Arábia e do Sinai, para evitar o encontro dos exércitos egípcios. Moisés conhecia bem aqueles lugares. A sua mocidade tinha-se passado no istmo. Demais, aquele lugar era tradicionalmente a passagem dos que vinham da Síria, pela Caldeia e pela Idumeia. Abraão, José, Jacob, tinham ali passado nas suas viagens ao Egito. Foi por ali também, mas um pouco mais ao norte, a pouca distância do lago Timsah, que muitos séculos depois o descendente de tantos patriarcas, e de tantos profetas, Jesus, passou levado por sua mãe que fugia para o vale do Nilo. Os árabes mostram ainda hoje este lugar. Enquanto olhávamos aqueles lugares bíblicos, os fogos-de-artifício estalavam por todo o ar.

Ao outro dia pela manhã íamo-nos aproximando de Suez. Saímos devagar, porque a maré do mar Vermelho já vinha contra nós. Foi esta questão de marés, e de desigualdade de níveis entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo, a origem de uma das grandes oposições que se fizeram ao canal.

Dizia-se que, segundo as sondagens feitas sob direção de Lepère em 1799, o mar Vermelho era nove metros mais alto que o Mediterrâneo; dizia-se também que a obra era impraticável, por causa das areias movediças e dos ventos do deserto; dizia-se, por fim, que a navegação do mar Vermelho não podia, pela sua dificuldade, pelo seu perigo, constituir nunca um verdadeiro caminho marítimo. Uma comissão internacional foi sobre o istmo estudar estas dúvidas. Era uma legião de sábios, de arqueólogos, de engenheiros, de geólogos.

Said Paxá fez-lhes receções reais. Atravessaram o istmo, nos seus estudos, de Suez a Peluse. Sondadas todas as enseadas, todos os lagos, estudaram todos os terrenos. Acamparam grandiosamente, e seguia-os uma caravana de cento e setenta camelos.

Os árabes vinham de todos os pontos para ver passar aquele estranho cortejo. A comissão dissipou todas as objeções.

O nível dos dois mares foi declarado igual, por novas e mais perfeitas sondagens; reconheceu-se que as areias não eram um obstáculo: se as areias trazidas pelo vento deviam sepultar o futuro canal, porque não tinham sepultado já os lagos Amargos, porque não tinham coberto as antigas ruínas, porque não tinham, ao menos, apagado os vestígios das caravanas da última peregrinação a Meca? Por último, o mar Vermelho foi, contra os impugnadores do canal, declarado bom, como via marítima. O que tem de mais o mar Vermelho? Alguns rochedos. Não os tem o Adriático? Não os tem a Mancha? Não os tem o Arquipélago? O mar Vermelho tem ventos regulares; o mar Vermelho tem enchentes conhecidas; o mar Vermelho tem a admirável claridade das suas noites: impede isto a navegação? Se o mar Vermelho foi de uma navegação fácil para as frotas de Salomão; se venezianos e portugueses se puderam ali bater, o que se dirá hoje, com os meios científicos de navegação e com o vapor? Todas as objeções caíam de per se. Nas margens do canal começávamos nós a ver muitos acampamentos de operários: vinham até quase à água bater as palmas aos navios que passavam, acenando com lenços e véus entre grandes hurras. Dos navios respondiam. Havia um forte sol: o deserto luzia até ao horizonte. Víamos à nossa esquerda o caminho das caravanas, que vão a Meca, a Medina, a Bagdad e a Damasco, na lata Síria. A Arábia, a Ásia, ficavam para além daquele deserto. Do lado do Egito, ao fundo do areal coberto de salinas, estava a escura e triste cidade de Suez. Para além estende-se o monte de Djebel Attaka, chamado do libertamento, porque, quando as caravanas que vêm do deserto o avistam, é que estão fora de perigo. Ao fundo, abatida na pulverização de luz do horizonte, entrevia-se a cordilheira do Sinai. Ao meio entrávamos em Suez, no meio das salvas.

Suez é uma cidade escura, miserável, decrépita; é o começo de novas regiões; é já quase a Ásia e a Índia.

Tem um aspeto mortuário: a cólera e a peste aparecem, com efeito, ali frequentes vezes.

Em alguns bairros arruinados, quase desabitados, conserva, porém, nas suas construções desmoronadas um notável caráter da velha e pura arquitetura árabe.

De resto, a civilização europeia começa a representar-se em Suez por cafés-cantantes e gourgandines de Marselha.

Suez tem tido, até há pouco, um viver incompleto pela falta de água. Em Suez a água era conservada em caixas de ferro, trazidas do Cairo. A água da fonte de Moisés, que está a três léguas, só a podem beber os camelos. No tempo da chuva havia, além da do Cairo, água potável a seis léguas de distância. No tempo de calma a sede era uma doença: havia mercados de água, os preços eram fabulosos, horríveis. Os ricos bebiam uma água meio salubre. Os pobres bebiam a água dos camelos ou morriam de sede. Em Suez não havia (e ainda não há hoje) uma árvore, uma flor, uma erva. Havia gente que, tendo sempre ali vivido, não fazia ideia da vegetação. Contava-se de árabes de Suez que, vindo ao Cairo pela primeira vez, fugiam das árvores como de monstros desconhecidos. Isto fez a raça dura, áspera, hostil. O canal de água doce mudou esta face das coisas. A água é gratuita e abundante. No dia em que a água chegou a Suez, foi uma vertigem. Os pobres árabes não podiam crer: mergulhavam-se nela, bebiam até lhes fazer mal, estendidos sobre as margens do canal, davam gritos loucos. Alguns estavam aterrados e pasmavam da perda de tanta riqueza. A população gritava cheia de amor em volta de Mr. De Lesseps, prostrando-se e beijando-lhe as mãos. E, desde então, a cidade tende a reviver e a criar-se.

Quando chegámos a Suez, separou-se aquela caravana de convidados que havia seis dias saíra de Alexandria.

Uns ficaram em Suez, outros foram para o Cairo. Nós fomos para as costas da Arábia, para os lados do deserto do Sinai ver o oásis de Moisés. No Êxodo diz-se; "E os filhos de Israel vieram depois a Elim, onde havia doze nascentes e setenta palmeiras." Eram estas doze fontes e estas setenta palmeiras que nós íamos ver, passando o mar Vermelho numa barca árabe. Tínhamos feito a nossa peregrinação através do canal; a esquadra da Europa tinha as suas âncoras no mar Vermelho; a obra de Mr. De Lesseps estava completa. Havia dez anos que um grupo de trabalhadores, numa segunda-feira de Páscoa, estava reunido na praia do mar, no lugar que depois foi Port-Said; não havia nada nesse lugar, senão a bandeira egípcia plantada sobre a areia. Um homem saiu do grupo, descobriu-se e disse: "Em nome da companhia de Suez, eu dou a primeira pancada de alvião neste terreno que abrirá às raças do Oriente a civilização do Ocidente." E cavou a areia com o alvião. O homem que disse aquelas palavras era Mr. De Lesseps: e, como se vê, a pobre pancada de alvião tem feito largamente o seu caminho!

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