De Pádua até Lisboa para não ir estudar em Reiquejavique

O italiano Riccardo Marchi veio fazer Erasmus em Portugal em 1998. Hoje é investigador em estudos pós-doutoramento no Centro de Estudos Internacionais no ISCTE-IUL

A primeira vez que visitou Lisboa foi "poucos dias depois do fim da Expo"98", com grande pena sua. "Não a consegui visitar." Riccardo Marchi chegava para fazer um ano de Erasmus. Na Universidade de Pádua, onde se licenciou em Ciência Política, tinham-lhe dito que havia duas vagas que "ninguém tinha querido": uma na capital portuguesa, a outra a islandesa. "Pensei que um ano em Reiquejavique era muito duro. Lisboa pareceu-me menos mal. Na altura não havia grande interesse em Portugal. Eu próprio nunca tinha pensado em Portugal", recorda. "Acabou por ser uma decisão que marcou a minha vida", diz o hoje investigador em estudos pós-doutoramento no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL.

É em Lisboa que vai conhecer a sua companheira, uma estudante angolana de Medicina, o que leva, após a conclusão do Erasmus na Universidade Lusíada, a escolher para a tese de licenciatura um tema ligado a Portugal para voltar a estar com a namorada. O casal, que tem hoje um filho de 5 anos "nascido aqui", fixa residência na capital portuguesa em 2000. Chegaram a considerar a hipótese de se estabelecerem em Itália, mas as condições para a companheira exercer Medicina "não eram as mais simples e para mim, que estava em início de carreira, era mais fácil ser eu a adaptar-me". Na época, Marchi, "como sabia falar português", trabalhava na Câmara de Comércio de Itália, onde esteve "três anos". Pelo meio, a título pessoal, começa a "estudar a direita radical portuguesa" no período do imediato pós-II Guerra até aos anos 70, sobre a qual "havia muito pouco". Procura bibliografia, mas não encontra "nada nas livrarias". Escreve a um académico italiano, Marco Tarchi, profundo conhecedor das direitas europeias, que lhe sugere o contacto de António Costa Pinto, com obra publicada sobre o tema. Este teve uma atitude surpreendente para um universitário italiano: convida Marchi para almoçar. "Em Itália, é difícil para um estudante falar com um professor e o Costa Pinto convidou-me para almoçar", recorda. Com o almoço, veio o "desafio para uma investigação de doutoramento". Em 2005, o italiano nascido em Pádua no ano do 25 de Abril, obtém uma bolsa para o doutoramento. O tema seria "a direita radical no fim do Estado Novo". Concluído o doutoramento em 2008, Marchi percebe haver "uma história interessante para ser contada", em especial nos anos 60 e 70. Tema a que continua a dedicar atenção. Mas se o centro de interesse do hoje professor de Teoria dos Movimentos Sociais e de Teoria do Nacionalismo no ISCTE é o percurso da direita radical portuguesa, no plano pessoal considera-se "um lisboeta, ainda que da periferia" e sente profunda empatia pelas facetas não políticas da sociedade portuguesa. Sobre Lisboa, declara o seu amor à cidade que considera "lindíssima para se viver" pela sua "conformação, as colinas, a claridade". Admite "não ter saudade nenhuma de Pádua", a cidade onde viveu Santo António, o taumaturgo nascido em Lisboa. Mas afirma, taxativo, que não se sente português. "Sou 100% italiano. Não consigo nem tenho interesse em sentir-me português. Sou um italiano em Portugal." De volta à gastronomia, afirma que "a possibilidade de comer diariamente peixe, é muito bom". Também "o café é ótimo, o que é excelente para um italiano, então se pensarmos no café que se bebe em França e Itália", diz.

Expressando-se num português muito bom mas em que permanece, de forma discreta, a melodia do italiano, Marchi salienta "nunca ter ouvido estrangeiros queixarem-se da gastronomia portuguesa". Ele próprio destaca o "conceito interessante" que é "a carne de porco à alentejana". Só diverge quanto à doçaria, preferindo a italiana, que classifica como mais "ligeira". De Itália, onde viveu até aos 24 anos, mantém um hábito que define como "a necessidade fisiológica de comer pasta", não como o fazem os portugueses, isto é como acompanhamento. Algo "incompreensível para um italiano".

Com a sobriedade própria de um investigador, afirma não estar em condições de dizer "que adoro Portugal como parece que o fazem todos os estrangeiros". E, também ao contrário de muitos outros estrangeiros, não classifica "os portugueses como o povo mais simpático do mundo", reconhecendo-lhes, contudo, afabilidade, capacidade de acolhimento.

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