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A corrida à presidência brasileira - e milhares de outros cargos - entra hoje na reta final marcada por uma incerteza paralela apenas à eleição de 1989, que elegeu Collor de Mello. Lula é a principal variável: concorre ou não? A Lava-Jato, ao dizimar a reputação da política tradicional, é outro fator importante. O tempo de antena a que cada candidato tem direito - dependente das alianças partidária - também baralha as contas. Mas, além do antigo presidente, nomes como Bolsonaro, Marina, Ciro, Alckmin e Haddad andarão seguramente nas bocas do povo até dia 7 de outubro.

ALCKMIN
Governador de São Paulo, candidato à presidência em 2006 derrotado por Lula e representante do competitivo PSDB, o médico de 65 anos segue estagnado nas sondagens. Acusado de falta de carisma - chamam-lhe picolé (gelado) de chuchu - ainda foi atingido nos últimos meses pela Lava-Jato, que parecia poupá-lo.

BOLSONARO
O militar na reserva e deputado federal desde 1991, de 63 anos, representa a direita mais radical e vem liderando as sondagens (sem Lula da Silva incluído). Mas na segunda volta deve unir todos contra si e, por representar um partido pequeno, o PSL, dispõe de pouco tempo de antena (15 segundos).

CIRO GOMES
Já concorreu à presidência duas vezes, foi prefeito, deputado, governador e ministro e, no entanto, o irascível candidato do PDT, mesmo aos 60 anos, ainda é capaz de cometer uma gaffe a cada esquina dos seus discursos. Ganhar o apoio do PT, na forma de um candidato a seu "vice", é um sonho. Na realidade, pode aspirar a ter a bênção de Lula numa segunda volta, caso concorra contra alguém à sua direita.

DILMA ROUSSEFF
Onde está a depositária de 54 milhões de votos em 2014? E Aécio Neves que somou mais de 51 milhões? A resposta é: em Minas Gerais. A ex-presidente deve concorrer a cargo no senado pelo seu estado de nascimento; o ex-líder do PSDB voltou à sua Belo Horizonte natal, onde está escondido por poder contagiar qualquer candidato do partido, depois de atingido em cheio pela Lava-Jato.

ESQUERDA
Nos próximos meses é provável que os candidatos à direita, ao centro e à esquerda se unam em torno de, no máximo, uma ou duas candidaturas do seu campo. Mas até esse dia chegar assiste-se a uma estranha autofagia: a esquerda, refém de Lula, que está por sua vez refém da justiça, tem Manuela D"Ávila, jornalista do PCdoB, e Guilherme Boulos, professor do PSOL, a dizerem quase a mesma coisa, além de Ciro, que não desdenharia ter o apoio dos dois e, claro, do PT. Muita gente sonha com uma união da esquerda - falta discutir os termos.

FAKE NEWS
Com as eleições norte-americanas de 2016 em mente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alerta que "eleição viciada pode até ser anulada".

GLOBO
Os tempos de antena podem decidir eleições - especialmente os exibidos na poderosíssima líder de audiências. Cada candidato tem direito a traduzir em minutos o tamanho do seu partido no Congresso. Por isso, toda a gente procura alianças nesta fase para engordar o poder mediático das suas candidaturas. Marina, se se mantiver avessa a coligações de circunstância, deve ficar restrita a insignificantes 10 segundos, por exemplo. Entretanto, os "marqueteiros", epicentro dos escândalos da Lava-Jato, tornaram-se mais baratos. Juntos devem ganhar menos em 2018 do que João Santana, publicitário oficial do PT, auferiu em 2014.

HENRIQUE MEIRELLES
Com o MDB, o maior partido no Congresso, do seu lado, não lhe faltará tempo de antena. Faltam, no entanto, votos: tem 1% nas sondagens. Para os números insignificantes do ex-ministro das finanças de Temer, um banqueiro de 72 anos, contribui ainda o apoio que ninguém queria ter: o do próprio Temer.

INDECISOS
Sem Lula, os indecisos passam os 45%. Ou seja, quase o triplo dos que indicam votar em Bolsonaro. Nas eleições suplementares para o governo do estado de Tocantins da semana passada, consideradas laboratório das presidenciais, 52% votaram em branco, nulo ou abstiveram-se. E no Brasil, como em mais 23 democracias, 13 delas latino-americanas, o voto é obrigatório sob pena do cidadão não poder renovar passaporte, entre outras penalidades.

JOAQUIM BARBOSA
Primeiro foi Luciano Huck, apresentador da TV Globo, a quase avançar. Depois foi o antigo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) a filiar-se a um partido. À última hora, depois de escrutinados à exaustão pela imprensa, desistiram. Flávio Rocha (PRB), empresário de 60 anos, tenta representar a novidade mas anda na cauda das sondagens. O Planalto, fica provado, é para profissionais da política.

KUBITSCHEK
Em Portugal, uns evocam Sá Carneiro, outros Soares. Nos Estados Unidos, não há eleição em que Lincoln, Roosevelt ou Kennedy não sejam citados em campanha. No Brasil, o modelo preferido é o fundador de Brasília. Só na última semana, lembraram-se dele Rabello de Castro e Cabo Daciolo, dois candidatinhos. Mas alguns candidatões ainda hão de evocá-lo.

LULA
Deverá ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa por ter sido condenado a 12 anos e um mês na Lava-Jato e impedido de se candidatar. Nesse caso, o mais provável é que o PT apresente no lugar do líder destacado nas sondagens o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que herdaria não todos mas parte dos votos lulistas. Uma concertação entre Ciro e Haddad, entretanto, não deve ser excluída.

MARINA SILVA
Na eleição, há quem tenha estrutura - leia-se tempo de antena e dinheiro para a campanha - mas não tenha votos e quem tenha votos mas não tenha estrutura. A terceira classificada nas últimas duas eleições pertence ao segundo grupo, feliz ou infelizmente para ela. Por ter só três congressistas, o Rede, partido moldado em torno da ambientalista de 60 anos, tem meros 12 segundos na TV e uns tostões do fundo partidário. No entanto, excluído Lula, só está atrás de Bolsonaro nas sondagens.

NEYMAR
Num país obstinado com o Mundial de futebol, a vitória do Brasil na Rússia pode influenciar o humor do eleitor? A julgar pelo passado, não. Foi em 1994 e 2002, quando os canarinhos se sagraram tetra e pentacampeões mundiais, que os eleitores mais inovaram nas urnas - iniciando os ciclos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula no poder, respetivamente. E, em 1998, em 2006, em 2010 e em 2014, apesar das derrotas traumáticas no futebol, optaram pela continuidade na hora de votar.

OITENTA E NOVE
As eleições de 2018 são uma viagem no tempo a 1989: pela multiplicação de candidatos, por haver um presidente do Brasil, não eleito, a bater recordes de impopularidade - hoje Temer, há 29 anos Sarney -, por surgir um controverso representante da direita nacionalista - o Bolsonaro de agora é o folclórico Enéas Carneiro daqueles dias - porque estrelas de TV se moveram mas ficaram pelo caminho - Luciano Huck repetiu Sílvio Santos - e, claro, porque os dois mais votados de então concorrem agora: Lula e Collor.

PESQUISAS
Na última sondagem - ou pesquisa, no Brasil - Lula tem 30%, seguido de Bolsonaro, com 17%, Marina, com 10%, Alckmin e Ciro, com 6%, Álvaro Dias, com 4%, e um batalhão de candidatos com 2% ou menos. Sem Lula, o cenário mais provável, Bolsonaro passa a 19%, Marina a 15%, Ciro a 10%, Alckmin a 7%, Álvaro Dias mantém-se nos 4% e Fernando Haddad, plano B do PT, soma 1%.

QUÉRCIA
Pode um partido estar no poder há 29 anos sem um seu candidato ter ganho uma eleição? No Brasil sim. O autor do feito é o MDB de José Sarney, Itamar Franco e agora Michel Temer, chegados ao cargo por morte ou impedimento dos presidentes legítimos. Em paralelo, foram sócios de peso nos governos tanto de Fernando Henrique Cardoso como da dupla Lula-Dilma porque o clientelismo é o seu mantra. Pelo meio, em 1994 o partido até se arriscou a solo na corrida ao Planalto: o seu candidato, Orestes Quércia, somou 4,38% dos votos.

REGIME MILITAR
A desmoralização dos políticos tradicionais gerou manifestações a pedir o regresso da ditadura e a profusão de concorrentes com passado militar, incluindo o candidato ao Planalto Jair Bolsonaro.

SÉRGIO MORO
Em 2014 a Lava-Jato dava os primeiros passos. Quatro anos depois a operação coordenada pelo juiz de Curitiba, além de ter ferido o PT de Dilma, a presidente então eleita, e Lula, o antigo presidente entretanto preso, ainda ceifou da vida pública Aécio Neves ou José Serra, supostos pré-candidatos pelo PSDB. E muitos mais.

TEMER
É o nome que todos temem porque ninguém o quer ver associado à sua candidatura. Meirelles vê-se compelido por agora a defender o legado do governo. Em campanha, porém, vai negá-lo três vezes antes do galo cantar.

URNA ELETRÓNICA
No Brasil, não se escreve um "x" num quadrado à frente do escolhido. O ato de votar assemelha-se mais a uma operação de multibanco: o eleitor digita o número dos candidatos (a presidente, a governador, a senador e a deputado) de sua preferência e já está. O sistema é considerado seguro e inibidor de votos nulos. E o apuramento dos resultados, apesar do gigantismo do país, rapidíssimo.

VIDENTES
Boa parte dos paranormais aposta no sexto (com Lula) ou quinto (sem Lula) nas sondagens: o senador Álvaro Dias, de 73 anos, do Podemos. "Não acredito, nem desacredito mas vai que eles estão certos, né?", diz o próprio.

WEBER
O TSE será protagonista das eleições porque aos seus juízes competirá autorizar ou não a candidatura de Lula. E a presidente da corte é Rosa Weber, juíza de 69 anos a quem já coubera o voto decisivo no julgamento do habeas corpus no STF que consumou a prisão.

XADREZ
Desde o impeachment, o PT, da "golpeada" Dilma, e o MDB, do "golpista" Temer, são eternos inimigos? Claro que não ou não estivéssemos na política brasileira, o exemplo definitivo de realpolitik. Em outubro de 2018, os dois partidos estarão coligados em pelos menos seis estados num xadrez com peças nacionais, regionais, estaduais e municipais de difícil compreensão para quem olha de fora. Aliás, num universo de 27 unidades federativas, em 16 o PT uniu-se a partidos que votaram pela queda da ex-presidente. Já Ciro, de centro-esquerda, namora com os conservadores de direita DEM e PP - e é correspondido.

YEATS
"Tudo se parte; o centro não se sustenta", terceiro verso do poema "O Segundo Advento", escrito pelo poeta irlandês a propósito do fim da primeira guerra mundial, vem sendo usado por analistas para descrever o que se passa no Brasil pós-Lava-Jato. Na verdade, o centro brasileiro não se sustenta mesmo: os partidos do chamado "centrão", que apoiaram os governos PT e depois o de Temer, ainda não têm candidato. Alckmin não entusiasma, Meirelles menos ainda, Álvaro Dias parece segunda escolha, Ciro muito à esquerda e Marina Silva é indecifrável. "As negociações ao centro parecem conversa de bêbado", resumiu Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados.

ZERO POR CENTO
A eleição não estaria completa sem os clássicos José Maria Eymael, do jingle "ei, ei, ei Eymael", e Levy Fidelix, autor do projeto do comboio aéreo entre São Paulo e Rio, candidatos zero por cento. Este ano podem ainda apresentar-se o Dr. Hollywood, cirurgião plástico radicado nos EUA, e o Cabo Daciolo, que se candidata para derrotar Satanás.

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