Da Ásia à Europa pelo Ártico: um português foi o pioneiro?

Maersk quer iniciar nova rota e há um navegador português que terá sido o pioneiro nesta aventura de cruzar os mares árticos, David Melgueiro, que ao serviço da Holanda viajou em 1660-1662 de Kagoshima até ao Porto.

A Maersk, o gigante dos contentores, anunciou que vai poupar 7500 km a um dos seus cargueiros, enviando-o da Ásia para a Europa pelo Ártico em vez de pela rota do Suez. É experimental a viagem, de 16 500 km em vez dos tradicionais 24 mil, mas pode tornar-se a regra, caso o aquecimento global alargue os três ou quatro meses em que é possível navegar ao longo do litoral norte da Rússia, habitualmente gelado. Se tudo correr bem, poupam-se 12 dias de viagem, 40 em vez dos 52 que hoje tarda um navio a ligar Vladivostoque, no extremo oriente russo, a Helsínquia. E, claro, há milhões de euros (ou de dólares) em jogo, basta pensar no combustível que se poupa e na disponibilidade do cargueiro para fazer mais fretes.

Os mais atentos a este tipo de notícias dirão que a empresa dinamarquesa não é pioneira na utilização da chamada Passagem do Nordeste (numa visão eurocêntrica, a do Noroeste é a que liga o Atlântico ao Pacífico pelo labirinto das ilhas canadianas); relembrarão mesmo que dezenas de navios têm feito o percurso desde há uma década e que em 2013 foi com grande alarde que a China anunciou que o Yong Sheng se tornou o primeiro cargueiro com o seu pavilhão a estrear a Passagem do Nordeste, navegando de Busan, na Coreia do Sul, até ao porto holandês de Roterdão. Mas o Venta Maersk, navio corta-gelos, pretende recolher dados que, a serem positivos, levarão a empresa-mãe a apostar de vez na nova rota, sabendo que os riscos e as limitações associados à navegação no Ártico poderão ser bem compensados. Nos contentores viajará peixe congelado e produtos eletrónicos, e a forma como resistirão à variação de temperaturas é uma incógnita.

Não é só a navegação que o recente degelo do Ártico (40% da capa de gelo em 40 anos, segundo peritos da ONU) permite. Também abre caminho à exploração petrolífera e tanto os Estados Unidos (no Alasca) como a Rússia têm-se mostrado adeptos de pôr os interesses económicos à frente das preocupações ambientais. Sendo que ao contrário da Antártida, onde não são reconhecidas quaisquer reivindicações territoriais, no caso das imediações do polo norte há zonas económicas exclusivas a ter em conta e, portanto, cada país pode invocar ser soberano, como Donald Trump e Vladimir Putin têm feito questão de dizer.

Mesmo a mera circulação de navios, ainda que fossem só cargueiros, implica riscos ambientais. Qualquer acidente pode ter consequências gravíssimas, sobretudo em zonas inóspitas, de difícil acesso mesmo em condições meteorológicas benévolas.

Mas é inevitável que o Ártico, como todas as terras incógnitas, despertem cobiça. Basta pensar nos Descobrimentos: não foram uma expedição científica, mas sim uma busca de riquezas além-mar. Aliás, há um navegador português que terá sido o pioneiro nesta aventura de cruzar os mares árticos, David Melgueiro, que ao serviço da Holanda viajou em 1660-1662 de Kagoshima até ao Porto, ligando o Japão a Portugal.

Era uma missão secreta e só um relato de um espião francês descoberto em 1853 serve de informação de que um português foi mais bem-sucedido do que Barents e Bering (que deram nomes a mar e estreito mas morreram no Ártico) e precedeu o sueco-finlandês Adolf Nordenskiöld, tido como o primeiro a fazer a Passagem do Nordeste, mas só em 1878-1879.

Subsistem dúvidas sobre o feito de Melgueiro. Damião Peres, grande historiador do século XX, admitiu a possibilidade desde que fosse num ano extraordinariamente quente. Hoje o extraordinário passou a regra.

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João Gobern

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