Crise, refugiados e incêndios. As três tragédias gregas

"Tivemos pouca sorte", disse o presidente da Câmara de Rafina, a propósito dos devastadores incêndios que fizeram pelo menos 80 mortos e 187 feridos no leste da província grega de Ática. Sorte é coisa que, efetivamente, não se pode dizer que a Grécia, a braços com várias tragédias, tenha tido nos últimos anos.

Três resgates financeiros, oito anos de programas de austeridade, implosão dos grandes partidos, chegada da esquerda radical ao governo e entrada de extrema-direita e neonazis no Parlamento.

Milhares de refugiados a chegar às suas ilhas, vivos ou mortos, vindos sobretudo da Síria, fugidos à guerra, transformando residentes e turistas em improvisados membros de equipas de resgate ou de ajuda humanitária.

Dezenas de mortos nos piores incêndios em mais de uma década numa zona balnear no leste da província de Ática, a mais populosa de toda a Grécia, que inclui a capital do país, Atenas.

São estas as notícias que, nos últimos anos, dominam as headlines quando o assunto é Grécia. "Tivemos pouca sorte", disse o presidente da Câmara de Rafina, a propósito dos devastadores incêndios, que fizeram pelo menos 74 mortos e 178 feridos. Sorte é coisa que, efetivamente, não se pode dizer que a Grécia, a braços com várias tragédias, tem tido.

Três resgates financeiros e oito anos de programas de austeridade

Foi a 22 de junho que o Eurogrupo anunciou o fim da austeridade na Grécia. "Este foi um Eurogrupo para recordar. Após oito longos anos, a Grécia vai finalmente concluir a sua assistência financeira e junta-se a Irlanda, Espanha, Chipre e ao meu próprio país, Portugal, no grupo de países a dar a volta à sua economia e a reconquistar a sua autonomia", declarou então Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, em conferência de imprensa no final da reunião dos ministros das Finanças da zona euro.

Apontando que a análise da dívida grega - de 178% do PIB - demonstrou que eram necessárias medidas adicionais de alívio da dívida para garantir a sua sustentabilidade no futuro, Centeno, ministro português, disse que foi adotado um pacote, que prevê, entre outras medidas, o prolongamento por 10 anos do prazo de pagamento do empréstimo concedido pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

"A crise grega termina aqui", disse, por seu lado, o comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros, Pierre Moscovici, nessa reunião no Luxemburgo. Para trás parecem ter ficado tempos em que a Grécia era o grande problema da zona euro e da UE. Nas ruas do país tornaram-se habituais as situações de confronto entre manifestantes anarquistas e anti-austeridade e polícia de choque. Uns atiravam cocktail Molotov. Outros disparavam granadas de gás lacrimogéneo.

Ameaçando fazer ruir o euro, os gregos irritavam em tudo e a todos. Na memória ficaram os duros enfrentamentos entre os ex-ministros das Finanças grego, alemão e holandês, respetivamente, Yanis Varoufakis, Wolfgang Schäuble e Jeroen Dijsselbloem. E as filas de reformados desesperados a tentar levantar as pensões à porta dos bancos durante o controlo de capitais.

Ninguém queria ouvir falar de perdão ou alívio da dívida grega. Agora, três resgates depois, o país governado por Alexis Tsipras prepara-se para sair do programa de assistência internacional e voltar aos mercados a 20 de agosto. "Este acordo é também uma dívida moral dos europeus para com o povo grego que sofreu por oito anos", sublinhou, na altura, Alexis Tsipras - o político do Syriza que chegou ao poder com a promessa de expulsar a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) e sair do euro, mas que acabou a pedir um terceiro resgate.

Declarada apta para regressar aos mercados internacionais, a Grécia apresenta marcas profundas de oito anos de resgates. Ao longo deste tempo a austeridade provocou uma queda de 25% na economia grega e o desemprego ainda se situa acima dos 20%, tendo levado muitos jovens a emigrar e a procurar melhores condições de vida no estrangeiro. Desde o início da crise financeira, 250 mil licenciados deixaram o país, segundo dados do Centro Nacional de Documentação (EKT). O pico situou-se nos anos 2012 e 2013.

A juntar a isto é preciso lembrar que os reformados viram 14 vezes as suas pensões cortadas e, segundo dados do Eurostat de 2017, 35,5% da população grega, ou seja, um em cada três cidadãos gregos vive na pobreza e em situação de exclusão social. Muitos deixaram de ter dinheiro para pagar sequer a conta da eletricidade e conseguir comida é a prioridade. A crise, que também contribuiu para destapar práticas de corrupção que existiam pelo país, também levou à queda de quatro governos. O atual e o anterior, de coligação entre o Syriza e os nacionalistas dos Gregos Independentes, liderados por Tsipras.

A Grécia viu-se também envolvida numa tempestade perfeita: a juntar à austeridade, a chegada em massa de migrantes ilegais e refugiados que procuravam seguir a chamada rota dos Balcãs.

Migrantes e refugiados a dar à costa, vivos ou mortos

No pós-Primavera Árabe, a guerra na Síria, que entretanto já dura há mais de sete anos, fez aumentar o número de pessoas que, arriscando a própria vida, tentam de tudo para conseguir tocar solo europeu.

Assim, a Grécia foi, a par de Itália ou de Malta, um dos países da UE mais afetados pela chegada desordenada de milhares de migrantes ilegais e/ou refugiados vindos de África e Médio Oriente.

Em 2014, segundo dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), chegaram a território grego 41 038 pessoas, em 2015 o número subiu exponencialmente para 856 723 e, em 2016, as chegadas passaram para 173 450.

Nesse ano foi assinado um acordo entre a UE e a Turquia, segundo o qual a UE manda para a Turquia os refugiados sírios que chegaram ilegalmente às ilhas da Grécia e, em contrapartida, os sírios que chegaram legalmente podem ir para a UE.

Como os procedimentos na Grécia são muito lentos, apenas 1564 sírios foram reenviados para a Turquia entre 2016 e 2018. Em contrapartida, 12 489 sírios foram recolocados em países da UE, embora alguns, como Hungria, Polónia, República Checa, Bulgária e Dinamarca tenham recusado aplicar o sistema de quotas obrigatórias.

Segundo a Comissão Europeia, o acordo com a Turquia, pelo qual os europeus prometeram pagar seis mil milhões de euros, reduziu, em cerca de 97%, as chegadas de refugiados que alcançavam a Grécia através de território turco. A Turquia tem neste momento, de acordo com a ONU, 2,9 milhões de refugiados no seu território. O governo de Ancara, porém, coloca esse número nos 3,5 milhões.

Antes do acordo, a situação na Grécia era praticamente insustentável. Na Praça Syntagma, local de verdadeiras batalhas campais entre polícia e manifestantes e anarquistas (e palco até de suicídios de reformados desesperados) nos anos mais duros dos programas da troika, amontoavam-se refugiados em greve de fome. Ansiavam por ajuda.

Em 2017, o número de chegadas às ilhas gregas foi de 29 718 e, este ano, até agora, de 15 563, segundo o ACNUR. A maioria dos migrantes e refugiados é da Síria, depois do Iraque, Afeganistão, RD Congo, Irão, Argélia, Paquistão, Koweit, Territórios Palestinianos ou de outras origens não declaradas...

Enquanto noutros países europeus, que não estão tão na linha da frente da crise migratória como a Grécia, quase se fazem cair governos por causa dos refugiados, os gregos optaram pela solidariedade. Alguns dos habitantes da ilha de Lesbos foram inclusivamente propostos para Nobel da Paz em 2016.

Emilia Kamvisi, de 85 anos, ficou famosa após ter sido fotografada, juntamente com mais amigas, a alimentar um bebé refugiado com um biberão. A octogenária, ela própria filha de refugiados, contou que estes tempos lhe fizeram lembrar os da ocupação nazi. "Pessoas a chorar nos botes, a deixarem as suas casas, a dormir nas ruas", recordou, sublinhando: "Não podia, por isso, ficar de braços cruzados."

Incêndios mortíferos no aniversário da restauração da democracia

"Hoje é dia da memória. É o 44.º aniversário da restauração da democracia [fim da ditadura dos coronéis]. Mas isso tudo foi ofuscado pela tragédia das mortes nos incêndios", disse esta terça-feira o presidente grego, Prokopis Pavlopoulos, numa altura em que o país se prepara para assinalar três dias de luto nacional pelas vítimas dos incêndios no leste da região de Ática.

Com pelo menos 74 mortos e 178 feridos anunciados, estes incêndios são os mais mortíferos na Grécia desde 2007, ano em que morreram 77 pessoas na península do Peloponeso em mais de 3 mil fogos.

As chamas deixaram em cinzas a cidade de Mati, na região de Rafina, no leste de Ática. Trata-se de uma zona de veraneio, muito procurada por turistas, sobretudo reformados e grupos de crianças que participam em campos de férias.

Quando as chamas chegaram, famílias desesperadas tentaram chegar até ao mar, mas muitas não conseguiram. Uns morreram queimados dentro das casas ou dos carros. Outros intoxicados.

"Tentaram encontrar um ponto de fuga mas, infelizmente, estas pessoas - e os seus filhos - não conseguiram salvar-se a tempo. Instintivamente, vendo que o fim estava próximo, abraçaram-se", relatou o chefe da Cruz Vermelha grega, Nikos Economopoulos, citado pelos media internacionais.

A Marinha salvou algumas pessoas que fugiram para a praia, mas, segundo confirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia, citado pelo El País, duas turistas polacas, mãe e filha, morreram afogadas em Mati quando o insuflável ao qual estavam agarradas se virou.

Dimitri Piros, diretor médico do Ekav, serviço de ambulâncias grego, afirmou, em declarações à BBC, que os ferimentos sofridos pelas pessoas são simplesmente horríveis, dada a velocidade a que o fogo avançou.

Segundo o centro de meteorologia da Grécia, as temperaturas em Ática oscilam entre os 26 e os 30 graus. A intensidade dos ventos abrandou esta terça-feira à tarde.

"Tivemos pouca sorte. O vento mudou e atingiu-nos com tal força que arrasou a zona costeira em poucos minutos", declarou o autarca de Rafina, Evangelos Bournous.

Apesar de os fogos florestais não serem invulgares na seca província de Ática, algumas fontes, citadas pela AFP, deixaram no ar a hipótese de origem criminosa. "15 incêndios deflagraram em três frentes diferentes em Atenas", declarou o porta-voz do governo de Alexis Tsipras. Dimitris Tzanakopoulos acrescentou ainda que a Grécia solicitou aos EUA drones para "observar e detetar atividades suspeitas".

Tsipras, que suspendeu a visita que estava a realizar à Bósnia e Herzegovina, reuniu de emergência o governo e declarou luto. Da Europa, através do mecanismo europeu de proteção civil, veio ajuda: bombeiros, aviões de combate a incêndios, entre outros. Portugal, que no ano passado também foi notícia a nível mundial por causa das mortes no incêndio de Pedrógão, enviou 50 bombeiros. Para já. Nos dias anteriores, Lisboa enviara dois aviões para a Suécia, país que também enfrenta uma grave vaga de incêndios.

Esta nova tragédia grega levou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a enviar uma carga a Tsipras na qual promete todo o apoio necessário "hoje, amanhã e pelo tempo que for necessário". "Durante este período difícil, estamos lado a lado com o povo e as autoridades da Grécia, e louvo os esforços incansáveis e corajosos das equipas de socorro. Será feito todo o possível para prestar apoio hoje, amanhã e pelo tempo que for necessário", lê-se na carta de Juncker a Tsipras, divulgada em Bruxelas.

Entre as medidas analisadas na reunião extraordinária do governo grego está, segundo escreveu o próprio Tsipras na sua conta de Twitter, "a adoção de medidas para conservar as casas nas zonas afetadas". As imagens, porém, mostram tudo reduzido a cinzas. Segundo a Skai.gr, "mais de 2500 casas ficaram totalmente destruídas". Conforme sublinha Trevor Nace num artigo publicado na Forbes: "A cidade de Mati teria uma construção muito antiga com madeiras não tratadas e, por isso, mais suscetíveis de arder. Isso vem lembrar a importância de cumprir os regulamentos sobre o uso de materiais resistentes a incêndios. Isso pode salvar vidas".

Apesar de ter visitado a zona afetada, em sinal de solidariedade, o líder da oposição grega não deixou de aproveitar o momento para criticar Tsipras. Ainda que indiretamente. "No aniversário da restauração da democracia, há 44 anos, fica claro, de forma miserável, que o Estado grego continua sem ser capaz de proteger as vidas e as propriedades dos seus cidadãos", afirmou Kyriakos Mitsotakis, líder do partido Nova Democracia (ND), citado pelo Financial Times.

A ND lidera neste momento as intenções de voto na Grécia. Segundo uma sondagem Pulse para a televisão Skai, divulgada no final de junho, o partido conservador surge em primeiro com 34%. O Syriza de Tsipras aparece em segundo com 21,5%. Seguem-se O Movimento para a Mudança e os neonazis do Aurora Dourada com 8% e depois os comunistas do KKE com 6%. Os Gregos Independentes, atuais parceiros de governo de Tsipras, recolhem apenas 1,5% das intenções de voto, o que significa que ficariam fora do Parlamento por não conseguir ultrapassar a barreira mínima dos 3%.

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