Crise no governo finlandês após eleição de político racista

Escolha de Jussi Kristian Halla-aho levaa divisão nos Verdadeiros Finlandeses para evitar queda do governo

Os Verdadeiros Finlandeses, partido nacionalista de extrema-direita que chegou a pôr em risco a aprovação do resgate financeiro internacional a Portugal, voltam agora a dar que falar.

No sábado, o partido elegeu como novo líder um político condenado por incitamento ao ódio racial, étnico e religioso: Jussi Kristian Halla-aho. Anti-imigração, anti-União Europeia, Halla-aho foi eleito com 949 votos. O seu principal rival, que era o ministro da Cultura, Sampo Terho, teve 629.

Logo em seguida o primeiro-ministro da Finlândia, Juha Sipila, ameaçou dissolver o atual governo de coligação, que é composto por três partidos: o seu Partido Centrista, o Partido da Coligação Nacional e, precisamente, os Verdadeiros Finlandeses.

Face a esta ameaça, alguns deputados do partido nacionalista de extrema-direita decidiram ontem, in extremis, abandonar o mesmo e formar um novo grupo parlamentar, para, dessa forma, se manterem no governo. O novo grupo foi batizado com o nome de Nova Alternativa.

Tendo isto em conta, o primeiro-ministro finlandês, que já ia a caminho para apresentar a demissão ao presidente Sauli Niinisto, indicou que não dissolveria o governo e se manteria em funções. "Esta é uma solução satisfatória... Vamos continuar com os atuais ministros e o atual programa de governo... A situação estará encerrada em apenas um dia", disse Juha Sipila aos jornalistas.

Com o novo grupo parlamentar Nova Alternativa, que inclui também o ex-líder dos Verdadeiros Finlandeses Timo Soini, a coligação governamental passa a ter 106 deputados num total de 200.

"Esta decisão irá muito provavelmente arruinar as nossas carreiras políticas... mas estamos determinados a fazer isto... pelas razões mais acertadas. Hoje não agimos como políticos, fazemos isto pelo nosso país", declarou o presidente do novo grupo parlamentar Simon Elo, ontem citado pela agência Reuters. Elo falava também em Helsínquia.

Vários analistas consultados pela mesma agência noticiosa internacional consideraram que a queda do governo poderia ter posto em causa reformas importantes que estão planeadas nas áreas da saúde e da Administração Pública, essenciais para equilibrar as contas do país. A Finlândia é membro da UE desde 1995 e foi um dos primeiros países a adotar o euro quatro anos depois.

Entre as coisas que defende, o novo líder dos Verdadeiros Finlandeses quer a saída do país da UE. Jussi Kristian Halla-aho, doutorado em Filosofia, de 46 anos, foi condenado em 2012 por incitamento ao ódio étnico e religioso depois de escrever no seu blogue que o profeta Maomé era pedófilo e de se questionar se assaltar pessoas e viver de apoios sociais poderia ser considerada uma característica genética dos somalis. Halla-aho foi condenado a pagar uma multa de 400 euros.

Ontem, incrédulo, o político disse aos jornalistas: "É difícil de acreditar como é que este tipo de operação e de traição aos eleitores pode estar a acontecer... Não estava à espera de uma coisa destas".

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