Crianças afetadas pelo incêndio da Torre Grenfell não tiveram o apoio devido

Relatório da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos do Reino Unido é devastador sobre a forma como o Estado tratou as crianças após o acidente de 2017.

As crianças afetadas pelo incêndio da Torre Grenfell foram esquecidas pelas autoridades. Quase dois anos após o incêndio que matou 72 pessoas no centro de Londres, no Reino Unido, a Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos produziu um relatório devastador sobre a forma como o Estado respondeu ao acidente em que sublinha a falta de coordenação entre os vários serviços, logo após o incêndio e durante todo o ano seguinte. Uma das conclusões do relatório intitulado Following Grenfell é que as autoridades relegaram para segundo plano o interesse das crianças, dando mais atenção às obrigações internacionais.

"Apoiar as famílias que perderam amigos e entes queridos nessa noite deveria ter sido uma preocupação fundamental, especialmente com as crianças envolvidas", explicou David Isaac, presidente da comissão, ao The Guardian . "Enquanto as autoridades tentavam reagir ao desastre, as crianças receberam um apoio descoordenado, a nível mental e educativo. As suas necessidades e os seus direitos foram esquecidos."

A comissão entrevistou as famílias afetadas pelo incêndio e concluiu que as crianças que perderam um amigo ou um familiar não tiveram ajuda psicológica. "As crianças não sabem a quem recorrer porque esses serviços não estão disponíveis", afirma David Isaac.

Uma das pessoas entrevistadas explicou que o seu filho "começou a ter dificuldade em controlar a raiva na escola", depois do acontecimento. "Talvez uma semana depois, começou a ter reações de raiva e na escola perceberam logo isso. Fui lá pedir desculpa: Sabem, o meu filho acabou de perder o tio, percebem o que isso significa? Onde está o aconselhamento que lhe deveriam dar? Onde está o psicoterapeuta que deveria falar com ele?"

O relatório conclui que as crianças não foram tratadas como deveriam: umas tiveram que ir às aulas e realizar os seus exames, apesar de estarem traumatizadas, outras foram enviadas para casa sem qualquer acompanhamento.

Dos mais de 300 residentes na Torre Grenfell, 70 pessoas morreram no incêndio, houve ainda mais uma vítima que sucumbiu dos ferimentos dias depois no hospital e um bebé nado morto, filho dos portugueses Márcio e Andreia Gomes. Estima-se que dois terços dos sobreviventes adultos sofreram ou ainda sofrem de algum tipo de stresse pós-traumático. Também para os adultos o acompanhamento após o incêndio foi confuso e descoordenado: muitas pessoas desistiram de ter apoio porque o processo era demasiado complexo e várias queixaram-se de práticas discriminatórias, por exemplo por parte da polícia de imigração.

Esta semana, a Scotland Yard fez saber também que não haveria qualquer acusação neste caso antes do último trimestre de 2021, quando se prevê que esteja concluído o inquérito público, cuja primeira fase, centrada na noite do acidente, terminou em dezembro passado. A segunda fase da investigação só deverá começar no final de 2019. O polícia encarregado da investigação, Matt Bonner, reconheceu que a espera está a ser "mais longa do que o esperado", mas disse que a polícia deve "garantir que todas as evidências disponíveis sejam levadas em conta".

A polícia está a considerar acusações de homicídio individual e corporativo durante o incêndio de junho de 2017, que começou na cozinha de um apartamento e tomou por completo o prédio residencial de 25 andares.