Cospedal e Soraya: a luta pela sucessão de Rajoy

Secretária-geral do PP e vice-primeira-ministra mantêm relação tensa. Primeiro-ministro Mariano Rajoy gosta de distribuir responsabilidades entre as duas de forma equilibrada.

Uma é secretária-geral do PP e ministra da Defesa, a outra é vice-primeira-ministra de Espanha. María Dolores de Cospedal manda no partido que está no governo. E Soraya Sáenz de Santamaría é quem manda no governo. Duas mulheres muito bem preparadas, com carreiras políticas brilhantes e muito próximas do primeiro-ministro Mariano Rajoy. Muito diferentes do ponto de vista pessoal e ideológico, ambas são discretas e fazem o seu trabalho tentando não chocar muito. Mas a falta de sintonia entre ambas é notória, vem de longe e, há dias, voltou a fazer as capas de todos os jornais.

O motivo foi uma fotografia tirada no dia 2 de maio, dia da Comunidade de Madrid, em que cada uma olha para o lado oposto, com uma cadeira vazia no meio. "A rivalidade de ambas é uma das guerras que mais divertem a imprensa, os analistas e alguns no PP", disse ao DN Alejandra Ruiz-Hermosilla, jornalista e politóloga, coautora do livro La vicepresidenta. "A fotografia foi coincidência, levantou-se a pessoa que estava no meio para falar e ficou a cadeira vazia", acrescenta e lembra as palavras da ex-ministra Celia Villalobos: "esta guerra é alimentada por homens que gostam de ver duas mulheres brigar".

Por estes dias falou-se também de um suposto veto a Soraya no almoço da direção do PP em Sevilha, no passado mês de abril. "É totalmente falso. Publicaram uma história e Cospedal não foi contactada para explicar os factos", afirma António Martín Beaumont, analista político e autor da biografia de Dolores de Cospedal. Fontes do PP confirmaram ao DN que o almoço era para a direção do PP, como é habitual nas convenções, e quando souberam que Soraya (que não ocupa cargo nenhum no PP) ia estar presente "pensaram colocar mais um lugar na mesa". Segundo Beaumont "Cospedal está surpreendida com tudo isto e na sua equipa pensam esta rivalidade está a ser agitada a partir da Moncloa". Na sua opinião pessoal, "estamos no fim de um ciclo e pegou-se nesta lenda urbana da rivalidade para fazer dela um verdadeiro drama".

É preciso recuar até 2008 para perceber esta rivalidade entre as duas. No Congresso do PP em Valência, Rajoy nomeou Dolores de Cospedal secretária-geral do partido e Soraya de Santamaría porta-voz do Grupo Parlamentar do PP. Desde então, "as suas equipas mantiveram a sua autonomia e os embates são mais fruto das brigas entre pessoas de segunda linha do que entre elas", sublinha o analista. As duas têm equipas muito consolidadas, que são muito fieis às líderes.

"São colegas, não amigas. Companheiras de partido que não vão beber um copo juntas", conta ao DN uma fonte do PP. Cospedal é uma pessoa muito querida dentro do PP "e Soraya não. É uma mulher do governo, mas não do partido", acrescenta. Mas alguns barões do PP, como Juan Manuel Moreno, da Andaluzia, "odeiam Cospedal e alimentam" tudo isto. Além disso, Soraya é uma mulher que suscita paixões nos dois sentidos, a favor e contra. Conta com muitos amigos, mas "também tem muitos inimigos".

Tal como sublinha Alejandra Ruiz - Hermosilla, "nenhuma delas gosta da polémica criada à volta da sua relação, pois isso vai contra todo o trabalho que estão a fazer. Não existe uma guerra aberta entre ambas como às vezes alguns querem transmitir". Mariano Rajoy não alimenta a rivalidade, trata sempre de equilibrar o poder que tem cada uma. Tem uma fantástica relação com ambas e não deixa que estas distrações afetem nem o governo e nem o funcionamento do partido.

A secretária-geral do PP "é uma mulher muito constante e fiel aos seus princípios, leal ao seu cargo e deu a cara por muita gente", afirma Antonio Beaumont. A vice-primeira-ministra "é enormemente inteligente e ambiciosa, no sentido positivo", destaca Alejandra Ruiz - Hermosilla. Alguns dos que alimentam a rivalidade entre estas duas mulheres justificam-na pelo facto de uma delas poder, efetivamente, no futuro, a ser a substituta de Mariano Rajoy.

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