Corrida às armas já começou. E foi antes de Trump

Com Obama, o receio de guerra era com a Rússia. Com o novo presidente, o risco maior de conflito é com a China. Mantém-se a pressão para aliados da América aumentarem gastos militares

A 9 de novembro, horas depois de ser conhecido o resultado das eleições americanas, a Forbes escrevia que "o presidente Donald Trump irá dar um forte impulso às despesas militares de 500 mil milhões para um bilião de dólares". Assinado por Charles Tieferr, especialista no Pentágono, o artigo fala das promessas feitas por Trump de aumentar em 90 mil os efetivos das forças armadas, em criar uma marinha de 350 navios e em ter mais cem caças. Contudo, nem nas declarações do novo presidente nem na análise da Forbes se fala de horizonte temporal para estas medidas, todas a exigir um esforço tremendo aos cofres dos Estados Unidos, só possível através de um défice orçamental maior ainda. Já a revista Military Times recordou que quando era candidato, o republicano se comprometeu a "reconstruir as forças armadas", o que passaria por um reforço orçamental na ordem dos 150 mil milhões de dólares, uma vez mais sem serem referidos prazos.

Hoje o orçamento militar americano continua a ser de longe o maior do mundo, cerca de 600 mil milhões de dólares anuais contra os pouco mais de 215 mil milhões da China (a Rússia surge em quarto lugar, com meros 66 mil milhões). Mas enquanto as despesas americanas até tiveram uma ligeira quebra em relação a há uma década, já as chinesas mais do que duplicaram no mesmo espaço de tempo, segundo o SIPRI, sigla em inglês do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. Claro que isto reflete a taxa de crescimento da economia chinesa, mas também as ambições de potência do antigo Império do Meio, visíveis na sua atitude no Mar do Sul da China, onde reivindica águas que outros países consideram suas.

Não foi, porém, a ascensão militar da China que desencadeou nos últimos anos uma súbita preocupação nos Estados Unidos e na Europa Ocidental com a necessidade de aumentar o investimento militar, mas sim a anexação da península da Crimeia pela Rússia em março de 2014.

Foi aí que começaram a soar as campainhas nas capitais ocidentais, a ponto de na cimeira da NATO em Gales, seis meses depois, os líderes lá presentes, incluindo o americano Barack Obama, terem emitido um comunicado final onde se pode ler que "as ações agressivas da Rússia contra a Ucrânia desafiam nos fundamentos a nossa visão de uma Europa integrada, livre e em paz". Além da retórica, também foi definida a necessidade de os Estados-membros começarem a aproximar-se do mínimo de 2% do PIB em termos de despesas anuais, que tirando os Estados Unidos poucos cumpriam. A austeridade deixava de ser uma desculpa ao alcance dos governantes europeus e isto ainda na época Obama e quando se dava como provável a sucessão por Hillary Clinton, democrata, ex-secretária de Estado do presidente cessante, e crítica de Vladimir Putin.

A questão dos 2% tornou-se central na campanha presidencial americana, com os media a destacarem o incumprimento generalizado, fosse sob a forma de pergunta ("Sabe quantos países da NATO cumprem?", CNN) fosse sob a forma de afirmação ("Só cinco países da NATO cumprem", Wall Street Journal). E Trump soube aproveitar a deixa, acusando os aliados dos Estados Unidos de prosperarem à custa da proteção americana, pouco gastando em defesa. Na mira estavam países como a Alemanha, a Itália e a Espanha, todos da NATO, mas também o Japão, um sólido aliado na Ásia Oriental.

Tendo em conta que Alemanha, Itália e Espanha gastam cada um menos de 1,5% do PIB em defesa e que o Japão se fica pelos 1%, se num abrir e fechar de olhos a fasquia dos 2% fosse cumprida por estes quatro países e ainda pela Austrália (outro aliado tradicional dos Estados Unidos, até tem aviões a bombardear o Estado Islâmico na Síria e no Iraque) os gastos mundiais em armamento subiriam 100 mil milhões de dólares, um aumento de 6%, maná para a indústria bélica, sobretudo americana.

Mas se Trump pegou na exigência americana de maior esforço aos aliados e fez dela uma bandeira sua, a verdade é que, ao contrário da opinião de Obama, não parece ver na Rússia uma ameaça. Bem pelo contrário, pois além dos elogios a Putin, várias vezes falou da necessidade de derrotar o terrorismo islâmico, considerando os russos um aliado na tarefa. E pouco a pouco é a China que surge como o adversário potencial da nova América rearmada, com os sinais a serem dados primeiro pelo próprio Trump com o telefonema recebido da líder taiwanesa e depois pelo seu secretário de Estado, Rex Tillerson, que durante a audição no Senado para ser confirmado no cargo comparou as edificações chinesas em ilhotas na Mar do Sul da China com a anexação da Crimeia e prometeu dar um sinal a Pequim de que não tem carta branca na região, bloqueando se necessário o aceso da marinha chinesa.

Neste contexto de desafio militar à China, que já estava também ameaçada por Trump com uma guerra comercial, ganha novo interesse aquilo que disse em março, no seu programa de rádio, Steve Bannon, hoje um dos principais conselheiros do presidente: "Vamos ter uma guerra no Mar do Sul da China no prazo de cinco ou dez anos, não vamos?". Da parte dos chineses, foi um alto responsável, citado pelo jornal South China Morning Post, a declarar que uma guerra com os Estados Unidos já "não é só um slogan" mas passou a ser "também uma realidade prática". Assustadora a perspetiva, pois ambos os países fazem parte do clube nuclear, mesmo que, uma vez mais, a clara supremacia seja dos Estados Unidos, só comparável ao arsenal russo.

A própria questão nuclear, que parecia resolvida com o fim da Guerra Fria há 25 anos, tem ressurgido tanto nas palavras de Trump como de Putin, sem se entender bem o que ambos pretendem quando falam de aumentar a sua capacidade. E para dissuadir quem? A Coreia do Norte? A dupla Índia-Paquistão? Israel? O Irão, que Obama considerava estar sob controlo.

Mikhail Gorbachev, o último presidente da União Soviética, alertou em fins de janeiro à Time que "tudo parece como se o mundo se estivesse a preparar para a guerra". Tem razão na leitura. Agora com Trump e Xi Jinping a medirem forças, como antes quando Obama e Putin já eram incapazes de se olhar de frente nas cimeiras, como aconteceu na do G20, em Hangzhou, em setembro. O mundo está muito perigoso.

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