"Coreia do Norte vir aos Jogos Olímpicos seria sinal de paz"

Entrevista a Enna Park, embaixadora para a Diplomacia Pública sul-coreana, que esteve de visita a Portugal.

Ao serviço do Ministério sul-coreano dos Negócios Estrangeiros desde 1985, e com um mestrado em Relações Internacionais tirado na Columbia de Nova Iorque, Enna Park é atualmente embaixadora para a Diplomacia Pública, cuja missão passa muito por dar a conhecer o que é aquele país asiático. Ao longo da carreira, esteve colocada em Nova Deli, Pequim e Nova Iorque, nesta última como cônsul e também na Missão junto da ONU. Esteve em Lisboa para participar num seminário sobre as relações luso-coreanas, organizado pela Embaixada sul-coreana e pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal- República da Coreia. Ao DN, mostrou as mascotes dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, que se iniciam em fevereiro de 2018 e para os quais a Coreia do Norte foi convidada.

Donald Trump esteve nesta semana na Coreia do Sul, onde visitou uma base americana. Quão importante é para o seu país esta relação especial com os Estados Unidos?

É muito importante. Porque os Estados Unidos são o nosso grande aliado e tendo em conta a situação atual, com as provocações norte-coreanas, esta sólida ligação entre os dois países é mais importante do que nunca para contrariar essas provocações. O que esperamos do presidente Trump é a confirmação da dissuasão que protege a Coreia do Sul e também que juntos consigamos resolver este problema com a Coreia do Norte de uma forma pacífica. Temos de manter a nossa estabilidade aumentando a nossa capacidade de dissuasão, o que significa ter uma superioridade militar.

O presidente Moon Jae-in, no poder desde maio deste ano, tem uma abordagem mais ampla à ameaça norte-coreana do que a antecessora Park Geun-hye, propondo-se negociar com o regime comunista de Kim Jong-un. Porque é que até agora não foi possível essas negociações intercoreanas iniciarem-se?

A proposta de negociações mantém-se e é a única abordagem possível. O que o presidente Moon diz é que temos de exercer o máximo de pressão através de sanções à Coreia do Norte, mas que o objetivo imediato é apenas trazê-la de volta à mesa das negociações. Assim, a par dessa forte pressão, enviámos a mensagem de que se alterarem o seu comportamento agressivo a mesa das negociações está à espera deles. Depende deles. A porta está aberta.

Até que ponto é essencial a cooperação entre a Coreia do Sul e a China e o Japão, ainda que de formas distintas, para lidar com a ameaça nuclear norte-coreana, que corre o risco de desestabilizar toda a Ásia Oriental?

Como já disse, a aliança com os Estados Unidos é decisiva, mas a nossa cooperação com a China é também importante, pois para as sanções terem resultados e trazerem a Coreia do Norte de volta às negociações a participação chinesa é essencial. Sem a cooperação total da China, sem a sua ativa participação, será difícil atingir o nosso objetivo. Em relação ao Japão, estamos a enfrentar as mesmas ameaças por parte da Coreia do Norte e pensamos que através de maior cooperação mútua podemos aumentar ambos a nossa capacidade de dissuasão. Ou seja, a cooperação entre vizinhos, entre a Coreia do Sul, a China e o Japão, é muito importante neste momento.

Como embaixadora para a Diplomacia Pública do seu país, e tendo sempre de explicar a relação com a Coreia do Norte quando fala com estrangeiros, quão importante é também dar a conhecer outros aspetos do país, o chamado soft power?

A minha missão como embaixadora para a Diplomacia Pública é primeiro que tudo promover a imagem da Coreia do Sul no exterior, falando da cultura, da sociedade, da economia, da tecnologia. Outro aspeto do meu trabalho é tentar que os líderes de opinião estrangeiros com que contacto estejam a par daquilo que acontece na Península Coreana de modo a influenciarem positivamente a política externa dos respetivos países.

Quais são os grandes trunfos do soft power sul-coreano, além da óbvia capacidade tecnológica do país?

Acredito que temos uma grande variedade de trunfos em termos de soft power. Falo da cultura tradicional, desde a música à dança. Também a gastronomia. Porque temos uma longa história, de milhares de anos. Mas não é só a cultura tradicional que promovemos, também a moderna tem muito impacto global, sendo muito apelativa para os estrangeiros, sobretudo os mais jovens, como é o caso da K-pop e das séries televisivas e filmes. Em adição à promoção da nossa cultura, também queremos partilhar a nossa experiência de sucesso na economia, e na tecnologia, e na construção de uma sociedade democrática. Talvez menos conhecida seja a nossa contribuição para a paz e o desenvolvimento internacional, através da participação nas missões de paz da ONU e da ajuda aos países mais pobres. E essa ajuda não é só do Estado, é também feita pela sociedade civil sul-coreana. Temos muitas ONG que enviam voluntários para países em dificuldades. Em termos de rácio por população, somos o número um mundial em termos de voluntários trabalhando noutros países, e em termos absolutos somos o número dois, atrás só dos Estados Unidos.

No próximo ano, a Coreia do Sul organiza em Pyeongchang os Jogos Olímpicos de Inverno. É um evento importante para o seu país, que em 1988 organizou também uns Jogos Olímpicos de Verão?

Muito, muito importante. Os Jogos Olímpicos de Inverno, e também os Paralímpicos, que vão ter lugar em fevereiro e março de 2018, não serão apenas uma festa para o povo coreano mas para o mundo inteiro. Chamamos-lhes os Jogos Tecnológicos. Vamos ter 5G disponível, por exemplo. E tudo será transmitido em ultradefinição. Estou certa de que os os próximos Jogos vão ser únicos. Serão também muito importantes para nós por causa do espírito do olimpismo e, apesar das provocações da Coreia do Norte, vamos transmitir uma ideia de paz para o mundo e também à própria Coreia do Norte. E é por isso que convidámos a Coreia do Norte para enviar a sua equipa. Não é um desejo fácil de realizar, porque apenas um par de atletas na patinagem artística foi qualificado e não temos certeza se vão querer enviá-lo. Esperemos que sim, que venham. A participação mostraria que a Coreia do Norte tem vontade de se inserir na comunidade internacional, seria um sinal de paz. E a porta estará aberta para os atletas deles até ao último minuto.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.