Coreia do Norte: a história do país que raptava japoneses para formar espiões

Robert S. Boyton falou com o DN sobre o livro que escreveu. O jornalista norte-americano, que entrevistou vários dos raptados, desvenda os mistérios que envolvem os sequestros organizados pelo regime de Pyongyang

Foram de bicicleta até à praia da cidade de Kashiwazaki, no Japão. Queriam ver o fogo-de-artifício. Apaixonados, Kaoru Hasuike e Yukiko Okudo afastaram-se da multidão e caminharam até uma zona mais isolada.

Era noite de lua nova naquele 13 de julho de 1978. Quatro homens aproximaram-se e atacaram-nos. Manietados e sedados, foram colocados dentro de sacos e empurrados para um bote insuflável.

Robert S. Boyton, repórter norte-americano, fez extenso trabalho de investigação

Na noite seguinte, quando recuperou os sentidos, Kaoru estava sozinho na cidade de Chongjin, na Coreia do Norte. Tinha sido raptado pelo regime de Kim Il-sung. Yukiko também tinha sido levada e não estava longe, mas isso Kaoru só viria a descobrir muito tempo depois.

O sequestro de Kaoru e Yukiko é um dos que aparecem narrados no livro do repórter norte-americano Robert S. Boynton. The Invitation-Only Zone é um extenso trabalho jornalístico de investigação dedicado "à verdadeira história do projeto de raptos da Coreia do Norte".

O ponto de equilíbrio

O objetivo era lavar-lhe o cérebro, domesticá-lo com a ideologia norte-coreana e transformar Kaoru num espião ao serviço do regime comunista do "querido líder". Ou pelo menos em alguém que viesse a formar espiões.

Kaoru e Yukiko não foram os primeiros e não foram os últimos. "O governo japonês reconhece oficialmente 17 raptos. Os norte-coreanos assumem apenas 13 casos. Cinco regressaram ao Japão em 2012. Sobre os outros oito, a Coreia do Norte limita-se a dizer que morreram. Mas sabemos que o número é muito maior. Algumas associações que se dedicam ao tema apontam para mais de 400 japoneses raptados. E sabe-se também que há quase 500 sul-coreanos sequestrados que ainda se encontram no Norte", explica Robert Boynton em entrevista ao DN.

O isolamento a que Kaoru foi submetido durante os primeiros meses que passou na Coreia do Norte fazia parte da estratégia. "O desamparo era total. Ao sentirem-se completamente sós e sem nada a que se agarrar, os raptados tornavam-se mais permeáveis e mais disponíveis para colaborar. Mas, por outro lado, era preciso ter cuidado. Os raptores não podiam deixar que o desespero crescesse de tal forma que levasse ao suicídio ou a um nível de demência que os tornasse inúteis para os objetivos do regime. Tenho a terrível sensação de que muitas histórias terão terminado de forma dramática até que os norte-coreanos conseguissem encontrar o ponto de equilíbrio", lamenta o jornalista norte--americano.

Fim de um mito urbano

Para Kaoru, fugir era impossível. Era controlado por três vigilantes durante 24 horas por dia. A solidão consumia-o. Foi só em maio de 1980 - depois de 22 meses em que foi obrigado a estudar coreano e a aprender de cor a ideologia do regime - que os raptores lhe revelaram que não era verdade aquilo que lhe haviam contado quase dois anos antes. Afinal Yukiko não ficara para trás no Japão. Tinha passado precisamente pela mesma rotina e estava ali mesmo, na sala ao lado. Reencontraram-se e casaram-se três dias depois.

Os raptos levados a cabo pelo regime norte-coreano mantiveram-se em segredo durante muito tempo. Havia rumores, mas para muitos não se tratava de um mito urbano. "Todos os dias em todos os países há pessoas que desaparecem e nunca mais voltam a ser vistas", explica Boynton.

Foi preciso esperar até 1987 para que surgisse a primeira prova de que os raptos não eram uma fantasia rebuscada. A 28 de novembro desse ano, um Boeing da Korean Air Flight, que saíra de Bagdad com destino a Banguecoque e fizera escala em Abu Dhabi, explodiu no ar. Dois japoneses, um pai e uma filha, tinham desembarcado no Dubai. Foram presos e interrogados. Descobriu-se que os seus passaportes eram falsos. Ela, Kim Hyon-hui, confessou o crime. Ambos eram espiões norte-coreanos que tinham sido treinados para a função por japoneses raptados. E sim, tinham sido eles a deixar a bomba dentro do avião.

Regresso a casa

Num primeiro momento, a função de Kaoru e Yukiko foi ensinar a língua e os hábitos japoneses a futuros espiões. Mais tarde, passaram a trabalhar como tradutores de artigos de jornais e de livros. O cativeiro de ambos só terminaria em 2002, 24 anos depois daquela noite de lua nova em que foram de bicicleta até à praia para ver de mão dada o fogo-de-artifício.

Depois de longas negociações diplomáticas entre o governo japonês e o norte-coreano, Kim Jong-il (que sucedera ao seu pai, Kim Il--sung, na liderança do país) autorizou que cinco dos raptados regressassem ao Japão para uma visita de duas semanas.

Kaoru e Yukiko voltavam assim à terra natal. A alegria de rever a família era ofuscada por uma angústia insuportável. Para trás, na Coreia do Norte, tinham ficado os seus dois filhos que entretanto haviam nascido. Qualquer passo em falso que dessem nas declarações aos jornalistas poderia pôr em perigo a vida das crianças.

Além do medo de errar nas conversas com os repórteres, sedentos por conhecer a sua história, havia uma dúvida que os atormentava: o que fazer quando chegasse ao fim a visita de duas semanas negociada entre os dois países? Regressar para as mãos dos raptores? Ficar no Japão e arriscar nunca mais ver os filhos? Kaoru e Yukiko decidiram apostar na segunda hipótese. Foram necessários 18 meses de negociações e uma oferta de 250 mil toneladas de arroz para que Pyongyang aceitasse libertar as crianças. O reencontro com os pais aconteceu em maio de 2004.

Foi através de um artigo publicado no The New York Times, em 2002, que Robert Boynton tropeçou nos raptos organizados pela Coreia do Norte. O jornal norte-americano contava a história do regresso ao Japão de Kaoru e Yukiko: "Foi a primeira vez que ouvi falar no assunto. Não se tornou imediatamente uma obsessão, mas deixei-o a marinar dentro da cabeça e em 2008 comecei a investigar o tema em profundidade", explica Boynton.

Nos anos que se seguiram fez várias viagens ao Japão, até conseguir juntar as peças da história. Ainda assim, talvez o puzzle não tenha ficado completo: "O mais estranho de tudo é o pouco que o regime beneficiou com o projeto de raptos. Mas, na Coreia do Norte, as pessoas são capazes de fazer coisas inacreditáveis e chocantes por objetivos pequenos."

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